Ela disse que tinha vindo para acrescentar o contato.
Na mesa, tia Chen trouxe uma variedade de pratos deliciosos, e só o aroma já fazia a boca salivar involuntariamente. Ele olhou ao redor para a comida, e ao virar a cabeça, percebeu que Ye Lan, que havia subido para trocar de roupa e agora vestia uma camisa de algodão curta e confortável, com os cabelos soltos, estava sorrindo, apoiando o queixo nas mãos.
— Está com fome, gatinho? Assim que a tia Chen trouxer os pratos e Shi Yu chegar, começamos a jantar.
O olhar dela, cheio de afeto, e o apelido carinhoso fizeram Yan Huan sentir uma timidez há muito não experimentada. Ele desviou o olhar e se levantou para ajudar tia Chen a levar os pratos.
— Deixe que eu levo, tia Chen.
— Não precisa, Xiao Huan, sente-se, já trouxe tudo.
Antes que terminasse de falar, tia Chen já estava vindo da cozinha com os pratos, colocando-os nas cadeiras ao lado de Ye Lan, Yan Huan e dele.
Eram só três tigelas e três pares de hashis?
Quando Yan Huan pensou que tia Chen não jantaria com eles, ela voltou à cozinha e trouxe um par de tigelas pretas de porcelana e hashis de aço inoxidável, colocando-os em frente a Yan Huan.
Ele olhou surpreso e notou que na tigela preta havia uma inscrição delicada em branco com o nome “Ye Shi Yu”. Nos hashis de aço, também estava gravado o mesmo nome.
Yan Huan olhou para Ye Lan com dúvida, recebendo apenas um sorriso resignado em resposta. Então, tia Chen, sentada ao lado dele, explicou:
— Essa louça foi encomendada especialmente por Shi Yu na cidade da porcelana de Longguo e ela trouxe um conjunto para nós também. Mas só ela gosta do preto, eu e a mãe dela achamos feio, então usamos as tigelas comuns.
— E esses hashis de aço inox também foram feitos especialmente?
— Ah, não, esses foram comprados... Mas Shi Yu tem um hábito: ela gosta de escrever o nome dela em tudo. Cada coisa que compra tem que ter o nome dela, e demora um bom tempo toda vez que chega uma compra.
Tia Chen serviu o arroz e derramou bebidas, continuando:
— E ela não gosta de se desfazer das coisas dela, só joga fora quando não dá mais para usar. Se perder algo sem querer, ela vai atrás até encontrar.
Que hábito estranho.
Yan Huan piscou, pensando nisso. Ye Lan parecia cada vez mais resignada, mas não menosprezava esse hábito persistente da filha; ao contrário, falou otimista:
— Depois do ensino médio melhorou muito. Se não for algo muito valioso e ela não achar, acaba desistindo... Isso mostra que sua irmã Shi Yu valoriza muito o que tem, e eu acho essa uma qualidade boa.
— Se eu tivesse uma irmã com esse hábito, os professores do colégio não me chamariam de desleixado.
Yan Huan concordou, ouvindo Ye Lan rir discretamente.
Do lado da escada, um som leve de passos chamou a atenção de Ye Lan, que olhou para cima. Ye Shi Yu desceu, acenou e sorriu:
— Shi Yu, venha jantar.
— Sim.
Ye Shi Yu assentiu, sem expressão no rosto, nem calorosa nem fria, sentando-se em frente a Yan Huan e segurando suavemente o copo de vidro.
Naquele instante, como esperado, Ye Lan levantou o copo sorrindo e disse a Yan Huan:
— Então vamos começar o jantar. Bem-vindo, Xiao Huan. Saúde!
— Obrigado, tia.
— Não precisa agradecer, seja comportado.
Ye Shi Yu também erguia o copo, brindou com Ye Lan, tia Chen e finalmente com Yan Huan, dando um pequeno gole, depois passou a língua nos lábios.
Era o sinal para o jantar começar.
Com a tigela preta na mão esquerda, os dedos brancos e delicados acariciavam lentamente a inscrição do nome, enquanto observava a mãe servir generosamente para Yan Huan e para si.
Na casa de Ye Lan, não havia a regra de silêncio durante as refeições, e as conversas eram simples. Tia Chen frequentemente intervinha, falando sobre coisas triviais, como a falta de frescor das verduras no supermercado.
Foi só com o lembrete de Ye Lan que Yan Huan percebeu que Linmen ficava no mar, sem terras cultiváveis, e que os vegetais vinham do exterior.
Ye Shi Yu comia devagar e elegantemente, sem dizer uma palavra.
Ye Lan, por sua vez, cuidava de Yan Huan com perguntas sobre a escola, tentando puxar assuntos interessantes para um jovem da idade dele.
— Vocês usam ônibus escolar para ir e voltar da escola?
— Sim, tia, cada região tem linhas, inclusive Jinghe, mas é longe daqui. Os alunos das redondezas não precisam muito do ônibus.
— Também é mais rápido levar a Shi Yu desse jeito, economiza tempo. Só que estou ocupada e só posso buscar e levar ela com o carro quando tenho tempo...
Yan Huan sentia que Ye Lan estava preparando o terreno para algo que ainda não dizia.
De repente, ela largou os hashis, iluminou os olhos e sugeriu a Yan Huan:
— Que tal você morar na minha casa, Xiao Huan?
— Hã?
— Vocês estudam na mesma escola, têm idades próximas, assim podem ir juntos, tem carro para levar e buscar, sem precisar correr para pegar ônibus. Tia Chen cuidaria do café e do jantar, prepararia sobremesas para levar para a escola... O que acha, Xiao Huan?
Yan Huan parou de comer, piscou para Ye Lan, que olhava esperançosa. Ele então entendeu por que ela havia dito ao diretor que era sua “mãe”.
Ye Lan não vinha só para relembrar o falecido amigo dele; ela queria adotá-lo.
Terá Ye Lan algum outro motivo?
Não, nenhum.
Se fosse para procurar algo, seria apenas o que ela disse: que ele cuidasse bem da irmã de temperamento difícil, nada mais.
Além disso, Ye Lan era a responsável da Ye International em Linmen, e Yan Huan era apenas um estudante do ensino médio. Não importava se ele era presidente do grêmio estudantil ou aluno exemplar, ela não teria outros interesses.
Ela agia assim porque via Yan Huan, filho do amigo falecido, como família e queria cuidar dele.
Também era óbvio pelo que via que Ye Lan tinha uma fortuna considerável — ele deveria se ajoelhar e reconhecê-la como mãe, tornando-se o “Qiang de Linmen” de Gao Qiqiang.
Mas, Gudan, qual seria o custo disso?
Aquela inquietação acelerou o coração de Yan Huan, que olhou para Ye Shi Yu, que comia calmamente.
Ele sorriu com hesitação e perguntou:
— Tia, isso não é... muito repentino?
— Não é, Xiao Huan? Ou acha que sou difícil de lidar?
Sentindo a hesitação dele, o olhar de Ye Lan se iluminou, trazendo o brilho que teve ao vê-lo hoje mais cedo.
Mas logo ela fez uma careta, como se pendurasse pesos nos cantos da boca.
... Não faça essa expressão, tia Ye!
Yan Huan evitou olhar para não ser influenciado e respondeu com calma:
— Tia, você é ótima, não pensei assim. Só acho que não é adequado... Eu sou um garoto, e...
Antes que terminasse, Ye Lan falou:
— Você não é estranho, não precisa se preocupar. Tia Chen mora no primeiro andar, eu e a irmã no terceiro, você ficaria no segundo. Cada quarto tem banheiro privativo, o isolamento acústico é ótimo, sempre batemos antes de entrar, não vamos invadir sua privacidade...
Ok, ok, dinheiro não é problema, né?
De fato, era uma mansão espaçosa, nada a ver com o apartamento de um quarto que ele alugava no sul da cidade.
Tinha até sofá, mesa, estante, e um terraço privativo.
Sem alternativa, Yan Huan aprofundou a questão, olhando para Ye Shi Yu, que comia mais devagar:
— Também é importante considerar a opinião da Shi Yu. Para algumas pessoas, isso pode não ser problema, mas...
Antes que terminasse, Ye Lan olhou para Ye Shi Yu:
— Shi Yu, o que você acha?
Ela segurava a tigela, com um pouco de arroz nos hashis.
Calmamente colocou o arroz na boca, sem mastigar, e olhou para a mãe, que sorria com expectativa.
Ela assentiu e disse em voz baixa:
— Não me importo.
A voz dela era bonita, clara mesmo em baixo volume.
— Que ótimo! Apesar de falar pouco, Shi Yu é muito gentil e amável. Não se preocupe, Xiao Huan, eu e a irmã estamos te esperando.
Gentil e amável... será?
Yan Huan olhou surpreso para Ye Shi Yu, que voltou a comer com a mesma elegância, olhando para ele firmemente o tempo todo.
Esse contato visual direto acalmou um pouco sua inquietação, mas ele ainda não respondeu de imediato.
Depois de pensar, decidiu usar a habilidade que descobriu hoje para ajustar a expressão:
— Sei que vocês são pessoas boas, tia, só gostaria de um tempo para pensar.
Ye Lan mordeu o lábio, vendo a emoção e a hesitação no rosto do jovem.
Ela percebeu que talvez estivesse sendo apressada.
Então suavizou a voz e propôs:
— Então, Xiao Huan, já que hoje é sexta-feira e está escuro, e fica longe da sua casa no sul, que tal ficar aqui o fim de semana? Amanhã e depois eu e a irmã levamos você para passear por perto. Que acha?
Enquanto não impusesse nada, seu objetivo já estava quase alcançado.
Pelo menos afastar aquela sensação ruim que ele tinha.
Yan Huan olhou para Ye Lan, ainda hesitante, mas seu sorriso mostrou que a gentileza dela o venceu.
— Está bem, tia.
Ela suspirou aliviada e olhou para Ye Shi Yu:
— E você, Shi Yu?
— Também não me importo.
A mesma resposta e reação de antes.
— Que ótimo! Então está decidido... Tia Chen, por favor, arrume o quarto do segundo andar.
Ye Lan bateu palmas. A refeição já estava quase terminada.
Tia Chen, que ouvira tudo calada, levantou-se para recolher os pratos e disse para Yan Huan:
— Tudo bem, depois eu levo você para o quarto.
Ye Lan, já imersa na alegria da “pré-adoção”, falou para Ye Shi Yu:
— Não esqueçam de trocar os contatos. Na escola nova, se tiverem problemas, podem procurar seu irmão, ele cresceu em Linmen, é presidente do grêmio, e vocês podem contar um com o outro.
Ye Shi Yu limpou os lábios com um lenço, levantou-se, olhou para Yan Huan e disse:
— Ok... não trouxe o celular, vou pegar e adiciono você depois.
— Certo, tia Chen vai levar um leite para você lá em cima.
— Tá bom.
A resposta veio do corredor da escada, enquanto Ye Shi Yu subia e sumia rapidamente.
Yan Huan também se levantou:
— Vou ver se posso ajudar a tia Chen, tia.
— Não precisa, fique aqui comigo mais um pouco, tudo bem, Xiao Huan?
Mas Ye Lan balançou a cabeça, segurou o queixo e olhou fixamente para Yan Huan, como se quisesse ver tudo nele, talvez buscando traços do amigo falecido.
Sentindo o olhar suave dela, Yan Huan sentou-se novamente:
— Está bem.
Ela ficou olhando em silêncio, depois sorriu calorosamente:
— Xiao Huan, você passou por muita coisa nesses anos...
A voz dela era suave, fazendo Yan Huan piscar.
O coração, que começava a desacelerar, parecia perder força para dizer o que queria.
Quando finalmente ia falar algo, Ye Lan bocejou, levantou-se e disse:
— Estou cansada, vou descansar no quarto. Depois a tia Chen leva você para o quarto, descanse cedo, tá?
— ... Você também, tia Ye.
Ele respondeu com um segundo de atraso, olhando para as costas dela.
...
Ye Lan foi descansar no quarto no terceiro andar. Tia Chen disse que ela estava ocupada desde cedo e que a visita a Yan Huan na Academia Yuanyue era a última do dia.
Depois que a cozinha foi arrumada, Yan Huan ajudou a preparar o quarto, que era só arrumar a cama e pegar os cobertores e travesseiros — nada complicado.
O quarto no segundo andar era enorme, maior que o apartamento de um quarto que ele alugava no sul.
Tinha banheiro privativo, espaço separado com sofá, mesa e estante, e no fim uma varanda independente.
Fechando a porta atrás de si, Yan Huan olhou ao redor, ergueu a sobrancelha, guardou a mochila e tirou o casaco do uniforme.
— Isso é exagero demais, né?
Ele apertou o sofá de couro, foi até a porta do quarto e olhou a varanda iluminada pela noite.
Ali, o jovem reencarnado da China descansaria antes de enfrentar o chefe nos próximos dias para pedir licença.
Decidiu que, ao pedir, falaria firme, sem deixar dúvidas.
Após muito olhar para a escuridão da noite, puxou a cortina, acendeu o abajur e deitou na cama macia.
— Miau~
De repente, ouviu um miado suave no quarto.
Yan Huan se sentou um pouco, olhou para a beirada da cama e viu um gato preto e rechonchudo saindo debaixo da cama.
Se não fosse pela luz, ele quase se fundiria com o piso de madeira vermelha escura.
O gato virou a cabeça e mostrou olhos verde-esmeralda: era Miaojang.
— Miaojang, você veio.
— Miau!
Yan Huan deitou de novo e o gato pulou, primeiro esfregando-se nele e depois subindo na barriga, transmitindo uma voz em sua mente:
— Eu pensei que você ficaria assustado com os modificadores, sem querer se aproximar de nenhuma mulher por um tempo. Mas nem um dia se passou e você não fugiu, ainda veio até elas.
— Isso é óbvio se pensar um pouco, né?
Yan Huan acariciou as orelhas quentinhas do gato e afagou o dorso peludo.
— Você não me contou quem além de Bai Yi tem modificadores, nem o que eles fazem... Ou seja, você também não sabe?
— Exato. Eu só sei da existência e características gerais dessas forças invasoras, mas não dos detalhes...
— Então está resolvido.
Yan Huan cruzou os braços e falou com calma:
— O objetivo agora é resolver os modificadores, e o primeiro passo é encontrar eles e seus hospedeiros, depois entender a natureza deles para pensar numa solução.
Supondo que Ye Lan e Ye Shi Yu tenham modificadores, mesmo se ele não viesse jantar hoje e recusasse a adoção, ou até cortasse contato, Shi Yu ainda estudaria na Academia Yuanyue.
O que tem que acontecer vai acontecer, a não ser que ele evite todas as mulheres, ou faça algo extremo, como desistir da escola, cortar todos os laços dos últimos dez anos, destruir o rosto e se esconder.
Gritar “não serei mais humano” e acabar tudo junto poderia funcionar, mas...
— Eu quero eliminar os modificadores para que a linha do tempo volte ao normal e minha vida siga tranquila. Não posso perder o foco nem desistir por medo. Além disso, o jeito estranho da Shi Yu pode não significar que ela é hospedeira...
Enquanto falava, Yan Huan ficou pensativo, colocou o braço esquerdo na testa e murmurou:
— E tia Ye é uma pessoa muito gentil.
Miaojang olhou para Yan Huan, sentindo as carícias, e começou a pressionar o peito forte dele com as almofadas rosadas das patas, para frente e para trás...
— Rumble~
Yan Huan se espantou e perguntou:
— O que você está fazendo?
O gato continuou, olhando para ele como se fosse bobo, dizendo:
— Eu sou um gato, além de pisar no leite, o que mais posso fazer?
Yan Huan respirou fundo e ia agarrar o gato pelo pescoço, quando bateram na porta.
— Toc, toc, toc~
Ele e o gato se olharam e ele sentou-se, perguntando:
— Quem é?
— ...
Nenhuma resposta.
Mas Yan Huan parecia já saber. Colocou Miaojang para se esconder.
— Você se esconde, não deixe ninguém te ver.
— Miau~
O gato assentiu, pulou para debaixo da cama e sumiu.
Yan Huan ajeitou a camisa branca, calçou chinelos e foi até a porta.
— Já vou.
Ao abrir um pouco a porta, o corredor estava iluminado, mas como Ye Lan já estava no quarto, as luzes da sala estavam apagadas, deixando o segundo andar meio escuro.
Na penumbra, uma jovem alta de cabelos negros estava parada na entrada.
Era Ye Shi Yu.
Vestia-se totalmente de preto, com a pele branca como neve.
Seu rosto era tão perfeito que parecia obra-prima genética.
Olhando para a jovem silenciosa, Yan Huan ficou surpreso, depois sorriu e abriu mais a porta.
A luz do quarto iluminou o corredor, parando exatamente na frente dos chinelos dela, criando um contraste nítido.
— Irmã Shi Yu, o que foi?
A voz dele fez Ye Shi Yu se mexer. Ela pegou o celular e disse baixinho:
— Mamãe pediu para adicionarmos um contato.
Então era para adicionar um amigo.
Ele percebeu que a outra pessoa nem sempre é a portadora do modificador, talvez ela fosse só quieta.
Yan Huan respirou aliviado e tirou o celular do bolso:
— Ah, certo, quase esqueço. Espere um pouco, irmã Shi Yu. Você me passa ou eu te passo?
— Você me passa.
— Ok.
Ye Shi Yu tirou o celular, e sob a luz do quarto, Yan Huan viu claramente o nome dela escrito na capa do aparelho.
Sem pensar muito, abriu o scanner do app plane, e ela desbloqueou o celular, estendendo a tela para ele.
Mas a tela mostrava não um QR code para adicionar contato, e sim um redemoinho roxo e sombrio girando, parecido com a interface de um app.
O redemoinho girava cada vez mais rápido...
O que era aquilo?
Yan Huan ficou estático por um segundo, mas logo se deu conta, os olhos se arregalaram.
Não, isso é...
No segundo seguinte, com o redemoinho girando, os olhos de Ye Shi Yu escureceram como um abismo, puxando a consciência de Yan Huan para o vazio.
— Bip!
O app no celular dela emitiu um som de notificação, e Yan Huan ouviu uma voz irreal dela:
【APP ativado】
【Efeito: hipnose individual】
【Duração: 15 minutos】
【Contagem regressiva iniciada.】