Capítulo Dois: O Amigo de Infância Vem Pedir Casamento, o Irmão Traiçoeiro Finge Ser Inocente
A mulher de pedra é uma fêmea incapaz de gerar filhos, e seu destino costuma ser trágico: ou é enviada para a caverna do cio do clã, servindo apenas para o alívio dos machos, ou é expulsa e se torna uma órfã errante. Sem a proteção do clã, uma fêmea frágil dificilmente sobrevive aos perigos das feras selvagens. Mesmo que algum macho insista em acolher uma mulher assim, a incapacidade de ter filhos faz com que sejam rejeitados e oprimidos pelo restante da tribo, obrigados a pagar tributos em dobro, tornando a sobrevivência ainda mais difícil — ao longo da história dos povos-fera, os machos que aceitaram uma mulher de pedra podem ser contados nos dedos.
A antiga dona deste corpo gostava muito de Linbei, mas o pai dele nunca aprovou a relação. Mesmo antes de se saber sobre sua infertilidade, ele vivia a humilhá-la, dizendo que ela deveria conhecer seu lugar, que apenas a filha do chefe era digna de seu filho, e ainda a advertia para manter-se longe dele. Ela nunca contou nada disso a Linbei, acreditando que ainda havia esperança para os dois. Contudo, ao descobrir ontem que era uma mulher de pedra, soube que não havia mais possibilidade entre eles. Hoje, lançada ao desespero após ser jogada pelo próprio irmão na caverna do cio, acabou tirando a própria vida.
A caverna do cio assemelha-se ao distrito da luz vermelha dos tempos modernos, destinada aos machos-fera sem parceira, composta somente por fêmeas incapazes de gerar e sem marido, e uma vez lá, raramente sobrevivem mais que cinco ou seis anos. No clã, um macho não pode forçar uma fêmea a se deitar com ele — assim são protegidas. Apenas na caverna do cio os instintos podem ser liberados sem restrições.
Jiang Cha foi traída pelo irmão. Se não quisesse entrar na caverna, teria sete dias para conseguir um parceiro ou abandonar o clã. Mas jamais houve um casal, em séculos de história, que tivesse sobrevivido ao inverno quando a fêmea era uma mulher de pedra.
Todos assumiam que ela acabaria na caverna do cio. Jiang Lu, porém, não teve paciência; para agradar a santa fêmea, lançou-a sem piedade na caverna e planejava, inclusive, trocar comida pelo corpo da própria irmã ali...
Só de pensar no irmão ingrato, Jiang Cha sentia dor de cabeça.
O jovem ficou em silêncio por um tempo, então declarou com firmeza: “Cha, eu te escolhi há muitos anos. Só quero ser teu parceiro, e não me importo que seja uma mulher de pedra.”
Infelizmente, a garota a quem queria se declarar já não podia mais ouvir.
Jiang Cha passou a língua pelos lábios. Sua alma e corpo haviam se fundido completamente, herdando perfeitamente todas as lembranças da antiga dona.
O instinto dos povos-fera a impedia de resistir à tentação da carne fresca. Ali, todos comiam cru, quase não sabiam o que era carne assada, e fazia muitos anos que Jiang Cha não saboreava carne fresca. Esquecendo-se dos parasitas e dos conhecimentos médicos, pegou um pedaço de carne das mãos do jovem e começou a devorá-lo.
A fome era tanta que mal conseguia se conter; o corpo não comia nada desde o dia anterior, e há pouco só tinha ingerido dois frutos insossos. Pensou que seria difícil engolir carne crua pela primeira vez, mas assim que provou, não conseguiu parar de comer vorazmente.
“Cha, coma devagar, cuidado para não engasgar”, disse o jovem, preocupado.
Soube logo cedo que Jiang Lu pretendia vender a irmã, enviando-a antes do tempo para a caverna do cio. Assustado, correu até lá, feliz em encontrá-la ainda intacta.
Após se sentir meio satisfeita, Jiang Cha devolveu metade do pedaço de carne sobre a pele de fera. “Você quer ser meu parceiro. Seu pai vai concordar com isso?”
Na cerimônia de maioridade do dia anterior, Linbei nem apareceu — provavelmente o pai o levou para caçar.
Linbei ficou surpreso com a pergunta, mas respondeu decidido: “Vou convencer meu pai. Cha, não quero ninguém além de você.”
Jiang Cha pensou na missão dada pelo sistema: em três dias, teria de escolher um macho para gerar um filho. Melhor escolher o amigo de infância que sempre a tratou bem, do que um estranho qualquer.
Além disso, possuía o sistema de procriação: se desse à luz, a condição de mulher de pedra estaria automaticamente resolvida.
Apertou a mão do jovem, encorajando-o: “Eu confio em você.”
Mesmo que falhassem, bastava conseguir uma oportunidade para se deitar com ele.
Linbei ficou ruborizado com a iniciativa da jovem, gaguejando: “Então... descanse bem, vou conversar com meu pai sobre nosso enlace.”
Dito isso, saiu da caverna, olhando para trás a cada passo.
Depois que Linbei partiu, Jiang Cha tratou o ferimento na testa, tomou um pouco de água do poço e sentiu-se revigorada. Observando a imagem refletida na água, admirou a silhueta esguia da jovem de cabelos negros — sem a proteção de Linbei, não teria um corpo tão bem cuidado.
Começou a explorar o sistema de procriação, sua maior esperança de se fortalecer.
Logo percebeu três itens na mochila do sistema, acompanhados das palavras: “Pacote de boas-vindas”.
Ao abrir, encontrou uma pílula de fertilidade — ao tomá-la após dormir com um macho, a gravidez era garantida, sem sofrimento, mas cada pílula servia para uma única gestação. Havia ainda uma poção para fortalecimento do corpo e um pacote de carne seca.
Não se podia guardar nada na mochila do sistema; retirado, não poderia ser devolvido. Por isso, deixou a carne seca e a pílula para outra hora, bebendo primeiro a poção.
Logo sentiu uma onda de calor percorrer todo o corpo, a fraqueza desaparecendo, o ferimento da testa parando de doer, sentindo-se cheia de vigor.
O corpo antes debilitado agora voltava ao normal graças à poção. Ficou curiosa sobre os ingredientes, mas, assim que terminou, o frasco sumiu.
“Jiang Cha! Você está mesmo aqui?”
Jiang Lu entrou bufando pela entrada da caverna, espantado e irritado: “Como conseguiu voltar?”
Nem ao menos a chamava de irmã. Jogá-la na caverna do cio não lhe causava remorso algum e ainda tinha coragem de reclamar com ela. O antigo temperamento da dona deste corpo devia ser mesmo bom demais.
“Esta é minha casa, por que não poderia estar aqui?” Jiang Cha respondeu friamente, sem o afeto de antes no olhar.
Jiang Lu ficou tenso, sentindo que algo importante se afastava dele. Mas, pensando na santa fêmea, reanimou-se e, forçando um ar de injustiçado, pediu: “Irmã, roubaram meu rato-do-bambu. Pode pegar de volta para mim?”
Ele se lembrava que, sempre que fazia essa cara, a irmã lhe concedia todos os pedidos.
“É a recompensa por ter me vendido?” Jiang Cha nunca vira alguém tão descarado. “Como tem coragem de pedir isso para mim?”
“Irmã, você... você já sabe?” Jiang Lu, sem saída, admitiu, olhos vermelhos: “O que eu podia fazer? Você é uma mulher de pedra, ia acabar na caverna do cio de qualquer jeito. Se não trocasse você por comida, como ia arranjar parceiro? Quer que seu único irmão fique sozinho para sempre, sem descendência?”
“Quem disse que vou acabar na caverna do cio? Já escolhi meu parceiro.”
Temendo que o ingrato fizesse alguma loucura, Jiang Cha começou a se aproximar, em silêncio, da saída da caverna.