Volume 1 — Capítulo 15: Mais doce que o primeiro amor

Seduzi-lo a sucumbir Com laranja 2478 palavras 2026-07-31 03:28:58

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Dona Helena levantou-se bem cedo. Como acontecia a todos quando uma boa notícia lhes alegrava o coração, parecia muito mais disposta. O jantar de reunião familiar seria preparado em casa pelos cozinheiros do hotel, e ela nem sequer precisaria ajudar na cozinha; assim, finalmente tivera tempo e ânimo para decorar como devia a casa, antes tão vazia e fria.

Colou recortes festivos nas janelas e dísticos nas portas, arrumou buquês de frutas da prosperidade e encheu as travessas de frutas. Aos poucos, a casa começou a ganhar o espírito do Ano-Novo. À tarde, também distribuiu envelopes vermelhos aos motoristas, empregados e cozinheiros da família.

Clara só se levantou depois que Marta bateu à porta durante um bom tempo.

— Veja que horas são! Já está quase dando quatro, e você ainda não se levantou?

Clara ficou algum tempo olhando, atordoada, para o despertador sobre a escrivaninha. Só então se arrastou para fora da cama e foi se lavar. Como pretendia comer à vontade no jantar de reunião familiar, pegou alguns doces ao acaso para forrar o estômago.

Mastigando um pedaço de bolo branco, foi até a cozinha ver como estavam os preparativos. Dona Helena estava preparando costelas ao molho agridoce. Em voz baixa, Clara perguntou:

— Tia, o Tomás ainda não se levantou?

— Levantou cedo, comeu alguma coisa e eu pedi que fosse tirar uma soneca.

Dona Helena respondeu sorrindo, enquanto envolvia as costelas fritas no molho agridoce e salpicava sementes de gergelim branco por cima.

Assim que saiu da cozinha, Clara foi puxada por André para dentro do quarto. Mal a porta se fechou, ele perguntou:

— Onde você esteve ontem à noite?

Sentindo-se culpada, Clara baixou a cabeça e continuou mordiscando o pequeno pedaço de bolo branco que segurava.

— Depois de jantar, não tinha nada para fazer, então fiquei lá embaixo vendo o pessoal soltar fogos.

— Você não sabia que ele voltaria e ficou lá embaixo esperando por ele?

Clara balançou a cabeça vigorosamente e negou de imediato:

— Claro que não. Eu encontrei com ele lá embaixo.

André não acreditou, mas Clara jamais havia mentido para ele.

Durante a ceia de Ano-Novo, Clara deveria sentar-se ao lado de Tomás, de acordo com a disposição dos lugares. Porém, como André a mantivera presa no quarto para repreendê-la, quando os dois chegaram à sala de jantar e ela se preparava para se sentar, ele a puxou de repente e trocou de lugar com ela.

O pai de Clara, Carlos, depois de beber duas taças de vinho, ficou mais falante que de costume. Além disso, ter um sobrinho tão promissor quanto André também lhe dava orgulho.

— Digno de ser um descendente da nossa família! Você honrou os antepassados e trouxe glória para todos nós. Na cerimônia de homenagem aos ancestrais deste ano...

Quando Clara estendeu os pauzinhos para pegar um camarão, lançou um olhar furtivo para Tomás. Ele comia de maneira excessivamente refinada.

Além disso, era extremamente seletivo com a comida. Não tocara em nenhum fruto do mar, carne ou prato apimentado. Também quase não havia comido os pratos que Dona Helena colocara em seu prato. Só aceitara provar as costelas depois que ela retirara os ossos, e mesmo assim comera apenas duas mordidas, como se estivesse fazendo um grande esforço.

Em contrapartida, diante de Clara já se acumulava uma montanha de cascas. Por isso, ela recolheu silenciosamente os pauzinhos que estendera na direção dos camarões.

Tomás terminou de comer rapidamente, cumprimentou Dona Helena e voltou sozinho para o quarto.

Clara olhou para o caranguejo peludo diante dela. A ceia mal começara havia quinze minutos. Como ele podia ter terminado tão depressa?

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Dona Helena também pousou os talheres pouco depois, foi até a cozinha, lavou um prato de cerejas para Tomás e levou-o ao quarto.

— Mamãe sabe que está sendo muito difícil para você passar o Ano-Novo aqui.

Tomás não respondeu.

Dona Helena continuou olhando para ele com um sorriso nos lábios e uma expressão satisfeita. Ela estivera ausente durante grande parte do crescimento do filho e queria compensá-lo pelo resto da vida.

— Tomás, obrigada.

Ele continuou em silêncio. Então Dona Helena tomou uma grande decisão.

— Mamãe pensou bastante. Depois do Ano-Novo, vou acompanhá-lo para visitar seus pais. Estou disposta a conviver cordialmente com eles. Não vou deixar que você fique numa situação difícil.

Naquele instante, os lábios finos de Tomás se apertaram. A frieza habitual voltou a seus olhos, tornando sua expressão distante e impiedosa.

— Posso ficar sozinho por um momento?

A porta da sala ainda nem havia sido aberta quando se ouviu uma voz bajuladora do lado de fora:

— Tio Carlos! Vim desejar-lhe um feliz Ano-Novo!

Carlos enfiou metade do corpo para fora da sala de jantar e cumprimentou Gustavo com um sorriso largo:

— Ora, vejam só! Meu genro, que há tanto tempo não aparecia.

Gustavo era bonito e tinha a língua doce. Bajulava o futuro sogro com tanta habilidade que quase o fazia sorrir sem parar. Ergueu uma taça de vinho tinto e começou imediatamente:

— Tio Carlos, brindo ao senhor. Feliz Ano-Novo! Que a riqueza flua para sua casa e que sua felicidade e longevidade aumentem a cada ano...

Assim que recebeu o envelope vermelho, Gustavo avaliou seu peso. Seu sorriso se abriu até quase alcançar as orelhas. Depois de beber duas taças, ele, que parecia ter nascido com um talento extraordinário para socializar, conseguiu deixar todos os presentes alegres.

Com o envelope no bolso, Gustavo se preparava para ir embora. Clara saiu logo atrás dele e agarrou sua roupa.

— O que você pensa que vai fazer?

Assim que deixou a sala de jantar, Gustavo abrira o envelope que recebera. Seu rosto estava radiante.

— Não se meta nos assuntos dos homens.

Clara continuou segurando-o enquanto os dois se atracavam na sala.

— No mês passado, você disse que me devolveria o dinheiro assim que recebesse o envelope de Ano-Novo.

Gustavo contou o dinheiro: seis mil e oitocentos.

— Quem é que cobra dívidas durante o Ano-Novo?

Ele afastou a mão de Clara e se preparava para fugir quando percebeu que ela ainda segurava outro envelope. Num movimento rápido, arrancou-o das mãos dela.

— O que está fazendo? Devolva!

Clara não tinha tanta força quanto ele, e a diferença de altura entre os dois era enorme. Por mais que pulasse e se esticasse, não conseguia alcançar o envelope. Gustavo fez uma careta de desprezo e jogou-o de volta para ela.

— Caramba, duzentos e cinquenta! Isso é esmola para mendigo. Tome, fique com ele!

Clara não quis acreditar. Todos os anos, seus pais davam exatamente a mesma quantia a ela, a André e a Gustavo. Porém, ao abrir o envelope fino, descobriu que ele realmente continha apenas duzentos e cinquenta.

Gustavo apontou maliciosamente com o queixo para trás e, enquanto Clara se virava, aproveitou para fugir.

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Clara viu Tomás, que não sabia quando havia saído, parado atrás dela. Sentindo-se culpada, apertou o envelope entre os dedos e, em seguida, enfiou-o na bolsa. Imaginando que seus pais provavelmente haviam se confundido por causa da correria, aproximou-se e entregou o próprio envelope a Tomás.

— Tomás, este é o seu envelope de Ano-Novo. Meus pais mandaram para você.

Tomás ergueu ligeiramente os olhos e estendeu a mão para recebê-lo.

— Obrigado.

No instante em que o pegou, porém, percebeu que havia algo errado. O peso não correspondia nem de longe ao que Clara e Gustavo haviam mencionado enquanto brincavam.

Lá fora, o som estrondoso dos fogos de artifício e dos rojões começou a ecoar. Os olhos de Clara se iluminaram.

— Tomás, quer ver os fogos?

Sem esperar pela resposta, agarrou-o pela roupa e puxou-o até a janela envidraçada.

Não muito distante dali, fogos brilhantes subiam um após o outro, incendiando metade do céu noturno.

Clara apoiou-se junto à janela e continuou encantada com aquele espetáculo tão comum. Tomás, porém, mantinha o olhar fixo na mão dela, ainda agarrada à ponta de sua roupa. Os ossos de sua mão eram delicados, pequenos e finos.

Clara percebeu o olhar dele refletido no vidro e acompanhou-o até a própria mão, que ainda segurava a roupa de Tomás. Só então a soltou apressadamente.

— Não fiz por querer — disse, com cautela.

Nenhum dos dois voltou a falar. Por um instante, o ambiente adquiriu uma atmosfera estranha e sutil.

Enquanto seus olhos vagavam sem rumo, Clara notou as tangerinas sobre a mesa de centro. Foi até lá, pegou duas e estendeu-as a Tomás com um sorriso.

— Quer comer tangerina? Estas são muito doces, mais doces que o primeiro amor!

Tomás recebeu a tangerina que ela lhe oferecia. Sobre a casca ainda restava um pouco do calor da mão dela, prestes a desaparecer.

— Você já teve um primeiro amor? — perguntou ele, sem alterar o tom.

Os dois estavam frente a frente. Ao ouvir a pergunta, Clara parou por um instante o movimento de descascar a tangerina e negou imediatamente:

— Não... Vi essa frase num anúncio do supermercado.

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