Capítulo Um: Qianchuan Luque
País do Fogo, Vila da Folha.
Entre as muitas lojas que compõem a movimentada rua comercial, o Ichiraku Lamen sempre foi o estabelecimento mais popular. No entanto, no dia de abertura da Escola de Ninjas, a loja ao lado roubou-lhe a cena.
A Ferraria Senkawa, que se mudara há seis anos do bairro residencial, era conhecida por seus bons preços. Seu principal negócio era a venda de réplicas de shurikens e kunais, famosas por sua qualidade um pouco inferior à das lojas oficiais de ferramentas ninja, mas com preços pela metade.
Em resumo, era uma loja especializada em vender ferramentas ninja com pequenos defeitos.
A fabricação desses instrumentos exigia grande esforço, precisão rigorosa e materiais de excelência. Ao reclassificar seus produtos de “ferramentas ninja” para “equipamentos de treino” e adicionar a palavra “réplica” ao nome, a Ferraria Senkawa reduziu drasticamente os requisitos de precisão e qualidade dos materiais. Isso diminuiu os custos e aumentou muito a eficiência, permitindo preços mais baixos para os clientes.
Ninguém resiste a uma boa pechincha.
Principalmente porque a Ferraria Senkawa também lançou estratégias de venda inéditas na Vila da Folha.
Por exemplo, a compra em dupla dava desconto; trazer conhecidos para ver os produtos também diminuía o preço; promoções “compre e ganhe” podiam abater parte do valor da compra.
O mais atraente eram os produtos gratuitos: bastava convidar amigos e parentes para ajudar a obter descontos e havia uma chance altíssima de ganhar ferramentas ninja de graça — diziam que a probabilidade chegava a 99%, e quanto mais gente chamasse, maior era a chance!
Quando essas políticas foram lançadas, a Ferraria Senkawa ficou lotada, e os pedidos se multiplicaram feito flocos de neve, chegando ao ponto de terem que terceirizar parte da produção para outras ferrarias.
Mais tarde, outros estabelecimentos aprenderam a essência desses métodos e começaram a abrir suas próprias lojas, dividindo o fluxo de clientes da Ferraria Senkawa.
Ainda assim, graças à reputação conquistada pelo fundador e ao reconhecimento já estabelecido, o negócio continuava a prosperar.
No dia de abertura da Escola de Ninjas, muitos se aglomeravam na frente da loja para comprar armas.
Tanto os pequenos que estavam começando a frequentar a escola quanto os que estavam para se formar e virar genins precisavam de shurikens e kunais — a diferença era que os primeiros só podiam levar lâminas sem fio, enquanto os outros podiam escolher à vontade.
Luk segurava um martelo de forja, suando em bicas ao lado do forno. Tinha sido arrancado da cama pelo pai, Senkawa Taku, às cinco da manhã para acender o fogo. Desde então, os dois martelavam ferro em silêncio, sem descanso.
A mãe, Senkawa Nayuki, e o irmão mais novo, Senkawa Hikaru, também não estavam ociosos: após preparar a comida, ficaram no balcão atendendo os clientes.
Mais uma martelada ressoou no ferro incandescente, e o impacto reverberou até as juntas de Luk. Só ao sentir aquilo na pele, entendeu o que queriam dizer com os três sofrimentos da vida: forjar ferro, remar barco e moer soja.
Todos os dias, levantava-se antes do galo e dormia depois do cachorro, trabalhando em ambientes abafados, faça frio ou calor.
Só com temperatura suficiente o ferro se torna incandescente e maleável; o bloco avermelhado precisa ser martelado adequadamente no tempo certo para virar uma ferramenta utilizável.
No início, quando acompanhava o pai forjando shurikens e kunais, sua força e técnica eram insuficientes, e as peças produzidas eram desprezadas, recebendo muitas críticas.
Os ninjas tinham olhos muito mais atentos que as pessoas comuns. Qualquer pequeno erro e recusavam a encomenda. O trabalho era em vão, e, se pegasse um cliente mal-humorado, ainda tinha que sorrir e dar desconto.
Depois, ao adotar métodos inspirados em certas plataformas de vendas, passou a vender peças com pequenos defeitos e os ninjas não podiam mais reclamar das falhas. Só assim a situação melhorou um pouco.
A entrada da loja estava lotada, até que, com o início da cerimônia de abertura da escola e a palestra sobre a Vontade do Fogo do Terceiro Hokage, a multidão de jovens e seus pais começou a se dispersar.
Foi só então que Luk pôde descansar por um instante. Usou a toalha pendurada nos ombros para secar o suor do rosto e pegou a garrafa de água que Taku lhe estendeu, bebendo em grandes goles.
Taku, olhando para o filho de rosto avermelhado pelo calor do forno, falou com voz grave:
— Com o início das aulas, teremos que aguentar esse ritmo por um tempo.
Luk soltou um suspiro, assentiu:
— Entendi. Daqui a pouco vou terminar aquele lote de pedidos.
Taku olhou para ele e balançou a cabeça:
— É preciso alternar descanso e trabalho. Não se exagere. Um ferreiro precisa cuidar do corpo.
No salão, a voz da mãe interrompeu a conversa:
— O café da manhã está pronto, venham comer!
— Hum — respondeu Luk, — aceitamos pedidos demais. Se não entregarmos, os ninjas vão reclamar.
Só duas vezes por ano, aguentar um pouco não faz mal.
Afinal, os ninjas são a força de proteção e o pilar econômico da vila, e seu status é alto, mesmo para os genins recém-formados.
Taku suspirou:
— A concorrência na rua comercial é maior, mas o lucro também. Se quiser algo mais leve, não precisamos manter a loja aqui.
Luk não respondeu. Ganhar dinheiro não era seu objetivo; mudar-se para perto do Ichiraku Lamen era.
Usando o argumento dos lucros, convenceu os pais a mudarem para a rua comercial e, como desculpa, escolheu o ponto ao lado do Ichiraku por segurança.
Ele já não lembrava bem dos detalhes da história original e não podia garantir que sempre estaria a salvo dos desastres, mas lembrava vagamente que o Ichiraku nunca fora destruído nos grandes eventos.
Durante o ataque da Raposa de Nove Caudas, há seis anos, eles não foram atingidos, mas a antiga casa virou ruínas. Se não tivessem se mudado, talvez toda a família já tivesse reencarnado.
Mas nem só de uma raposa viviam os perigos da Vila da Folha. Outros viriam.
— Quando tiver tempo, vá mais ao Ichiraku. Quando era pequeno, dizia que gostava da filha do dono, a Ayame, e que quando crescesse iria se casar com ela. Por que não vai lá conversar mais?
Vendo que o filho não respondia, Taku reforçou o conselho.
Seu filho já tinha idade para conquistar alguém. Forte, bonito e inteligente, estava na hora de pensar em contribuir para a próxima geração da vila.
Luk: …
Nem lembrava mais, mas parece mesmo que usou o pretexto de gostar da filha do dono do Ichiraku para convencer os pais a mudarem a loja para lá.
Claro, ele realmente gostava de Ayame: bonita, corpo esbelto, boa de conversa, mas sua mente sempre voltava para a história que estava por vir e não tinha ânimo para romances.
— Da próxima vez, com certeza — respondeu, desviando, e seguiu com o pai até a mesa.
A mãe e o irmãozinho já estavam sentados, esperando. Hikaru, faminto, olhava ansioso para os dois líderes da casa tomarem seus lugares.
Como chefe da família, Taku olhou ao redor e deu o sinal:
— Vamos comer!
— Bom apetite! — todos responderam em uníssono.
O clima à mesa era harmonioso, silencioso e cordial.
Luk mastigava bolinhos de arroz e sushi. Não era ruim, mas depois de experimentar tantas iguarias no grande império dos gourmets, aquele sabor simples já não o atraía.
Não podia deixar de pensar nas delícias de sua terra natal.
Tinha saudades de pratos como os três cozidos de Mianyang, os biscoitos crocantes de Hongmiao, o frango temperado de Maokou, ovos salgados de Shahu, bolinhos de pérola, três tipos de bolinhos ao vapor, carne de porco no vapor de Mianyang...
Suspirou, e as memórias adormecidas começaram a aflorar.
Na vida anterior, Luk fora um jovem médico obstetra. Pretendia trabalhar no hospital da família após se formar, mas, por azar, o hospital fechou logo que terminou a faculdade.
Sem alternativas, como tantos outros colegas, começou a buscar trabalho em sua cidade natal, Fengning, e logo se deparou com o clássico círculo vicioso das entrevistas:
— Precisamos de alguém com experiência.
— Se me contratarem, vou adquirir experiência.
— Mas sem experiência, não podemos contratar.
— Se não me contratarem, como terei experiência?
— Vá ganhar experiência e depois volte.
— …
Indignado, Luk desistiu da carreira hospitalar e decidiu ganhar a vida em jogos online, planejando explorar o recém-lançado “Mundo de Kyushu”. Mas ao ver o preço do equipamento de realidade virtual, sua raiva foi abafada pela carteira vazia.
Após muito pensar, resolveu apostar no próprio visual, tornar-se influenciador, mostrar os abdominais e, quem sabe, conquistar alguma patrocinadora endinheirada... Aceitaria até ser um “esfregão” humano, se fosse o caso!
Finalmente, assinou com uma empresa; uma influenciadora famosa topou guiá-lo, mas, no dia seguinte, teve o azar de ser atropelado.
Ao abrir os olhos, estava deitado num berço.
Ninguém lamentou a morte de Luk. O que apareceu foi um novo Luk, aprovado na “repescagem das almas”.
Ao perceber estar na Vila da Folha, ficou radiante. Era um dos destinos favoritos das transmigrações! Mesmo sem ter terminado o anime original, só de ler fanfics já conhecia quase toda a história de cor.
Logo, porém, notou as diferenças.
Seus pais estavam vivos: Taku, ferreiro de ferramentas ninja simples, e Nayuki, ex-funcionária de uma floricultura que, ao casar, adotou o sobrenome do marido e se tornou dona de casa.
Ambos com nomes comuns, nunca mencionados na obra original.
Ao perceber que não era nem Uchiha nem Hyuga, Luk desanimou. Revirou a casa em busca de indícios de identidades secretas dos pais, sem sucesso, e caiu na real.
Ainda insistiu para que o pai lhe arranjasse o “Manual de Extração de Chakra” e treinou um tempo.
O controle desse manual não era tão rigoroso quanto nos romances de cultivo espiritual. Não havia níveis, todos usavam a mesma versão, e o conteúdo era ridiculamente escasso — mais um conjunto de advertências do que um método real.
Depois de meio mês, conseguiu extrair um fio de chakra e reconheceu sua falta de talento para ninja.
Pelas medidas do “Mestre Kakashi”, se treinasse duas horas por dia, em condições ideais, levaria cinco anos para virar genin, doze para chunin e quarenta para chegar ao ápice do nível chunin.
Jounin? Nem pensar.
O chakra combina energia espiritual e física, e a quantidade máxima que se pode ter já está determinada ao nascer.
E isso é só no quesito quantidade. Um ninja precisa ainda aprender a inútil Vontade do Fogo, além de habilidades de camuflagem, infiltração, assassinato, fuga, dominar jutsus e adquirir experiência real de combate.
E, claro, cumprir missões.
Após ouvir as palavras do “Mestre Kakashi”, Luk, com sua última esperança, perguntou ao pai se tinha algum noivado arranjado.
Diante da resposta negativa, desistiu de vez e pegou o martelo para trabalhar.
Se sobrevivesse até a nova geração de ninjas, já estaria no lucro!
E assim, martelando dia após dia, Luk chegou aos dezoito anos, até o momento atual.
Talvez pelo simbolismo do dia, à mesa, a mãe perguntou, um pouco hesitante:
— Hikaru está quase com seis anos. Na próxima abertura da escola, será que devemos matriculá-lo?
A mensalidade da Escola de Ninjas não era pequena e, em geral, só as famílias nobres ou civis patrocinados por grandes clãs podiam pagar.
Algumas exceções tinham direito a isenção — filhos de ninjas mortos em serviço ou na Terceira Grande Guerra Ninja.
Antes, a família Senkawa não tinha condições, mas desde que Luk começou a aplicar as estratégias comerciais do outro mundo, o dinheiro não faltava, e podiam bancar a escola sem aperto.
Ao ouvir a conversa, Hikaru parou de lutar com a comida e olhou com esperança, dizendo com voz suave:
— Eu... eu posso ir para a escola de ninjas?
Taku ficou em silêncio. Para civis, era uma decisão importante. Olhou para Luk e perguntou:
— O que você acha?
Homem simples e sério, Taku já via no filho mais velho, agora adulto e perspicaz, alguém com quem poderia dividir as decisões da casa.
Nos últimos anos, sentia-se cada vez mais cansado e já começava a entregar as rédeas do lar ao primogênito.
Luk lambeu os lábios, fingindo ponderar.
Seu irmãozinho, de temperamento calmo, também nascera no ano do ataque da Raposa de Nove Caudas — Naruto nascera em 10 de outubro, Hikaru em 12 de maio.
Pela linha do tempo, Naruto entraria na escola dali a meio ano.
Luk achava perigoso colocar o irmão na mesma turma de Naruto. Mesmo que não fosse arriscado, não valia a pena competir com protagonistas destinados a se tornarem lendas aos dezessete anos.
Após pensar, respondeu:
— Ser ninja dá um bom dinheiro, mas o risco é alto. Hikaru ainda é pequeno. Podemos esperar um ou dois anos antes de decidir.
Seis anos é a idade ideal, mas não obrigatória.
Taku assentiu, concordando. Ser ninja dava status, mas também trazia alto índice de mortalidade.
Embora todos na vila fossem ensinados desde pequenos a se sacrificarem pela Vontade do Fogo, após ter visto tantos conhecidos morrerem de uma vez no ataque da Raposa, Taku hesitava em deixar o caçula trilhar esse caminho.
Com os dois chefes da casa de acordo, a mãe não insistiu mais.
Ao ver os adultos decidirem, Hikaru abaixou a cabeça, desanimado, até que a mãe lhe colocou um belo pedaço de carne no prato e ele voltou a sorrir.
…
Após um dia exaustivo, Luk se largou cansado na cama.
Pensava nos planos de destruição de Orochimaru, no ataque de Pain, no inevitável Tsukuyomi Infinito, e nos Otsutsuki que apareceriam depois... Sentia um frio na barriga.
Mudar-se para perto do Ichiraku não bastaria. Precisava de outros planos...
Com o corpo exausto e a mente inquieta, Luk adormeceu.
Entre o sono e a vigília, sentiu-se leve, flutuando até se elevar e voar para um destino desconhecido.
Ao atravessar uma barreira invisível, sua consciência ficou subitamente clara.
Luk abriu os olhos devagar e viu diante de si um espaço misterioso envolto em névoa cinzenta.
Duas figuras surgiram entre as brumas, estendendo as mãos para ele, em perfeita sincronia.
— Bem-vindo, Luk.
— Agora, somos companheiros!