1 001
Página (1/3)
Dragão Xiang despertou sacudida por um balanço violento. Seus olhos ainda não se tinham aberto completamente, mas a mão já tateava automaticamente em busca do celular ao lado do travesseiro.
Nada encontrou.
Num instante, arregalou os olhos e, num reflexo, voltou a procurar ao lado. Também não achou nada.
Quando a visão clareou, finalmente percebeu que algo estava errado.
Tudo ao seu redor era vermelho, camadas sobre camadas. Estaria ela... usando um véu nupcial vermelho?
Num movimento brusco, retirou o véu e viu-se meio deitada dentro de uma caixa de madeira nem grande, nem pequena.
Olhando para si mesma, confirmou: estava mesmo usando um véu de noiva vermelho e um vestido de noiva antigo, do tipo que só vira outras pessoas vestindo durante jogos de interpretação de papéis.
Dragão Xiang achou que estivesse sonhando. Beliscou o pulso com força, soltando um gemido de dor.
...Não era um sonho.
Manteve a calma e observou à frente. Já que usava roupas antigas, provavelmente não estava numa simples caixa de madeira.
O balanço continuava, como se estivesse sentada numa liteira.
Seria mesmo uma liteira?
Se fosse, era estranha demais: sem janelas, sem bancos, porta estreita, tudo coberto por um tecido preto que não deixava passar nem um fio de luz.
Conseguia enxergar ao redor apenas graças a um colar no peito, cravejado de pedras preciosas multicoloridas, cuja luz iridescente destoava do vestido simples e, no escuro, lembrava as luzes de um karaokê.
Aquelas pedras não pareciam emitir um brilho comum.
Dragão Xiang refletiu apenas três segundos antes de abandonar tais pensamentos, pois do lado de fora do tecido preto havia barulho.
Tentou levantar-se para sair, mas estava paralisada, os membros dormentes e o corpo sem forças.
Por sorte, quem estava do lado de fora não passou direto, mas entrou.
O tecido foi puxado, a luz invadiu de súbito, quase cegando Dragão Xiang.
Ainda se acostumava à claridade quando ouviu uma voz cristalina e levemente ressentida: “Considere que te devo uma.”
“...?”
Era uma jovem.
O que queria dizer com “devo uma”?
Dragão Xiang, é claro, não perdeu a chance de interagir:
— Amiga, pode explicar melhor? Exatamente o que me deve?
Mal terminara de falar, uma palavra irritou a visitante.
— Cale a boca! Quem é sua amiga? Pare de sonhar!
E, sem deixar que Dragão Xiang visse seu rosto, a jovem virou-se e saiu. O tecido voltou a cobrir a saída.
— Certo.
Pelo visto, não havia como conseguir explicações.
Sem poder se mexer, sem ver ninguém, Dragão Xiang considerou gritar por socorro, mas o cansaço a dominava. Mal tinha despertado e já sentia sono de novo; falar era difícil, quanto mais gritar.
Resignou-se a fechar os olhos e tentar dormir mais um pouco.
Quem sabe, ao acordar, tudo voltaria ao normal.
Já que nada podia fazer, só restava deitar e esperar.
O balanço da liteira intensificou-se, e Dragão Xiang, sonolenta, ouviu o vento uivar lá fora, sons que lembravam monstros sibilando, inquietantes a ponto de quase enlouquecê-la, mesmo exausta.
Forçou-se a abrir os olhos. No instante seguinte, a liteira despencou violentamente, arremessando-a com força.
— Ai!
Parecia um elevador caindo em queda livre: após a descida, bateu no chão, sentiu o gosto de sangue na boca e um zumbido preencheu seus ouvidos.
O barulho do vento cessou com o acidente, e a liteira, surpreendentemente resistente, não se desfez.
Com dificuldade, Dragão Xiang ajeitou-se no interior, decidida a morrer, se fosse o caso, com alguma dignidade.
A paralisia aliviou-se um pouco diante do perigo, permitiu-lhe cruzar as mãos sobre o ventre, embora o gesto lhe custasse esforço. O silêncio ao redor era total.
— Que paz... — murmurou, cílios tremendo. — Acho que estou mesmo para morrer.
Tudo acontecera rápido e de forma tão irreal que ela não sentia verdadeiro temor pela morte.
Página (2/3)
Talvez fosse melhor assim.
Confusa, fechou os olhos, ouvindo alguém rir baixinho, zombando dela:
— Que ilusão a sua.
Mais alguém tinha chegado?
Mas por que tudo permanecia tão silencioso?
Dragão Xiang, já sem forças, esforçou-se para abrir uma fresta dos olhos e viu alguém agachado ao seu lado.
Um belo rapaz.
Tinha mechas caídas sobre a testa, os cabelos presos apenas por uma fita escura entrelaçada na trança, descendo pelas laterais junto com os fios negros.
Vestia uma túnica preta de gola redonda, cinto na cintura, e ostentava um sorriso luminoso e natural, como o sol refletindo nos olhos claros — um homem de inteligência evidente.
— Veja só, quanta sorte a sua. Hoje, a cidade real de Bei Ting não receberá a noiva. Com esse corpo frágil, ainda poderá sobreviver por mais algum tempo.
Com um leve aceno de manga, ele a fez desmaiar completamente.
...Que diabo era aquilo?
Ao recobrar a consciência, tudo o que queria era xingar.
Mas não havia ninguém para ouvir seus impropérios, só o vazio e a escuridão.
Seria uma disputa com a escuridão? Sempre que abria os olhos, era o que via.
Desta vez, contudo, sentia o corpo leve, sem dor.
Resumindo: não tinha morrido.
— Olá, colega.
...Quem entenderia isso?
Tão educado!
Ainda que não pudesse ver, finalmente havia alguém com quem conversar.
— Desculpe, houve uma falha no sistema. Só agora consegui me conectar, deixando você numa situação passiva.
Ao ouvir “falha no sistema”, o entusiasmo de Dragão Xiang arrefeceu, uma sensação ruim começando a crescer.
— Vamos nos apresentar devidamente. Olá, hóspede. Sou o seu sistema, número 4897, e estarei ao seu lado para ajudar a completar a missão de reparar este mundo.
Silêncio. Após um tempo, Dragão Xiang respondeu:
— Sou mesmo sortuda, hein? Justo comigo acontece uma coisa dessas, digna de fantasia?
— Acha que é sorte? — 4897 respondeu com emoção quase humana. — Que ótimo! Se colaborar, nossas tarefas serão mais fáceis.
— Inteligência artificial nunca substitui gente de verdade... nem entende sarcasmo — comentou, languidamente.
4897 travou. Dragão Xiang, recuperando o juízo, prosseguiu:
— Não morri, não estava lendo romance antes de dormir, então como você me encontrou? Minhas informações pessoais vazaram para o seu nível de sistema?
4897 respondia a tudo, mas de modo exasperante:
— Como pode ter tanta certeza de que não morreu? — debochou, talvez ressentido pela crítica à IA. — Assista ao vídeo.
E Dragão Xiang viu: ela, jogando no celular até tarde, sofrendo morte súbita, sendo declarada irrecuperável.
Colegas de quarto chorando juntas, pais e irmão ao lado, em prantos.
A emoção a tocou, quase chorou.
4897 então apareceu:
— E aí, que tal? O que sentiu?
As lágrimas secaram na hora.
— Meu celular está com meu irmão, e o histórico de conversas com minha melhor amiga ainda não foi apagado.
— ...Esse é o seu foco?
— Claro! Se alguém ler aquilo, será pior que morrer.
Após um tempo, 4897 recuperou a voz:
— Hóspede realmente é diferente. Não é à toa que combinou tão bem com nosso sistema. Achei que ficaria arrasada de tristeza.
— Triste, claro que estou. Mas você estragou o clima. E, se está aqui, é porque ainda posso recomeçar. Então não há motivo para tanto pesar.
4897 riu:
— Exatamente. Pode recomeçar. Complete a restauração deste mundo e poderá voltar ao passado, reunir-se com sua família.
Após uma pausa, completou, astuto:
— Voltar ao momento em que o celular ainda estava com você e seu coração batia forte.
...A IA evolui rápido. Em pouco tempo, já entendia seus pontos sensíveis.
Página (3/3)
— Então, afinal, o que querem de mim?
4897 aguardava ansioso, e, sem responder, começou a exibir a história.
No fim das contas, não era algo totalmente alheio. Era um romance xianxia trágico e famoso, que ela lera há tempos, considerado um clássico do gênero.
A protagonista e o herói passaram o livro inteiro entre amor e ódio; no fim, ela, ferida e sem memória, casou-se com outro, ele sacrificou-se para salvar o mundo e desapareceu, e nunca houve sequer uma oportunidade para declararem seu amor. A heroína sequer se lembrou dele no final.
A profunda mágoa arrancou lágrimas dos leitores.
Tudo começou trezentos anos antes.
Trezentos anos atrás, a Escada Celestial foi destruída pelas raças demoníaca e monstruosa, o qi espiritual do mundo dos cultivadores foi rareando, a ponto de quase desaparecer. Voar era impossível, cultivar tornava-se tarefa hercúlea.
Dizia-se que a família real de Bei Ting, dotada de poder profético, já sabia da calamidade antes de a escada ser cortada.
Prepararam-se com antecedência, tomaram um fragmento da escada para a família e ocultaram a cidade real através de magia, só revelando sua localização nas noites de lua cheia.
Durante trezentos anos, a cada lua cheia, todos os cultivadores tentavam localizar a cidade, num evento chamado “Caça à Lua”. Mas até hoje, nada encontraram.
Quando tudo parecia perdido, surgiu uma esperança.
A família Bei Ting apareceu, declarando ao mundo: se o clã dos cultivadores trouxesse uma mulher nascida no sétimo dia do sétimo mês, à terceira vigília, com uma marca de flor de ameixeira no peito, e casada com a família real, revelariam o paradeiro dos outros fragmentos.
Como prova de boa-fé, deram uma pista enigmática sobre um fragmento. O primeiro clã a decifrar a charada encontrou vestígios de uma veia espiritual — ainda que não o fragmento em si, já era uma grande descoberta.
Assim, para obter os fragmentos restantes e restaurar a Escada Celestial, o mundo dos cultivadores enlouqueceu em busca da garota com a marca.
Logo, o mestre do clã de Li Huo, Yue Zhou, descobriu que sua própria filha, Yue Fuling, era a escolhida.
Yue Fuling era uma jovem prodígio, radiante.
Mesmo em tempos de escassez, cultivava com facilidade e já havia estabelecido sua base.
Yue Zhou, certo de que ela era o futuro do clã, dedicou-lhe tudo e jamais a entregaria à família real.
Todos sabiam: se Bei Ting se expunha, era porque algo grave estava previsto, e desejavam se antecipar. Yue Zhou suspeitava que a filha teria um destino grandioso e que Bei Ting queria roubá-lo.
Nem ele nem Yue Fuling queriam entregá-la, mas sabiam que, cedo ou tarde, alguém descobriria a verdade. Melhor, então, agir antes — enviando um substituto.
Dragão Xiang era filha bastarda de Yue Zhou, de outro casamento, criada no mundo mortal com a mãe.
Nasceu quase ao mesmo tempo que Yue Fuling, com diferença de apenas quinze minutos, tornando-se o sósia perfeito.
Yue Zhou a arrancou do mundo mortal, ignorou seus protestos e lágrimas, usou a vida da mãe como ameaça e marcou uma flor de ameixeira em seu peito, igual à de Yue Fuling.
Obrigou-a ainda a jurar com sangue: deveria casar-se com Bei Ting no lugar da irmã, sem jamais revelar a troca, sob pena de morte imediata caso tentasse contar a verdade.
Tamanha injustiça levou Dragão Xiang a se tornar sombria e iniciar um caminho de vingança (ou autodestruição).
Mas a vingança não correu bem. Ao chegar à cidade real, apaixonou-se à primeira vista por Bei Ting Xue, o herói, e esqueceu-se de tudo, só pensando em conquistar seu amor.
Fez de tudo, mas o coração do protagonista era da heroína; para ele, não havia outra mulher.
Quando a verdade veio à tona, foi descartada pela família real como lixo.
O motivo da busca por Yue Fuling era que Bei Ting Xue, príncipe herdeiro, estava à beira da morte, precisando do sangue de sua “destinada”, a filha do destino, para sobreviver.
Como Dragão Xiang tinha sangue e data de nascimento quase idênticos aos de Yue Fuling, seu sangue teve algum efeito, por isso foi usada por tanto tempo.
Mas falso é falso: quando a verdadeira apareceu, ela virou descartável; uma gota do sangue de Yue Fuling restaurava os meridianos do príncipe.
Dragão Xiang não aceitou perder para Yue Fuling de novo, tornou-se ainda mais cruel, usando de todos os meios; mesmo assim, a família real, por compaixão por ser irmã de Yue Fuling, não a puniu pela impostura.
Mas, por não saber medir as consequências, pagou caro pelas próprias atitudes extremas, levando também à morte de sua mãe.
— Entendi. Então eu sou essa vilã apaixonada, Yue Fuling é a protagonista, Bei Ting Xue o herói. Vocês me trouxeram para consertar esse mundo porque a Dragão Xiang original ganhou consciência e não quis mais participar. Coincidentemente, eu também me chamo Dragão Xiang e morri neste momento, então me puxaram para substituí-la. Certo?
— Certíssimo! — 4897 se entusiasmou. — Conversar com gente inteligente é fácil. No romance, a Dragão Xiang perdeu a fé ao causar a morte da mãe e saiu do enredo. Agora, estamos no momento de virada, e precisamos que você conclua a história.
— No livro, Dragão Xiang era substituta de Yue Fuling, e agora eu sou substituta da Dragão Xiang...
Ela sorriu de lado:
— Que maravilha, sou o elo mais fraco da cadeia alimentar.