Quatro mil e quatro
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Desde que acordou, Long Xiang não conseguiu mais voltar a dormir.
Sempre sentia como se houvesse alguém no quarto.
Será que isso era alguma tática psicológica criada pelo pai desprezível?
Antes de partir, ele queria enlouquecê-la; chegando a Beiting, seria ainda mais seguro, para que ela não falasse bobagens.
Ninguém acreditaria em um louco delirando.
Mesmo tendo jurado com sangue, ele ainda não estava tranquilo?
Isso até combinava com o estilo de Yue Zhou.
De qualquer forma, a cidade real de Beiting só precisava de uma mulher nascida em um momento específico; não importava se ela fosse insana, tola ou de inteligência suprema.
Mas para lidar com uma mortal indefesa como ela, por que tanto trabalho?
Long Xiang, com seu corpo debilitado, conseguiu se levantar com dificuldade; não tinha escolha, queria descansar, mas as necessidades humanas são urgentes.
Que droga, nem um remédio para jejum deram; será que, ao deixá-la à própria sorte, pensaram que ela era imortal, que não precisava comer, dormir ou ir ao banheiro?
Ela olhou ao redor do quarto, suando frio, e foi até o biombo; teoricamente, o penico deveria estar ali.
Mas ao contorná-lo, não havia nada.
...Yue Zhou ainda dizia que Yun Weiyu era competente; no livro original, mencionavam repetidamente essa prodígio do mundo cultivador, cuidadosa e sociável — seria essa a tal “cautela”?
Long Xiang fechou os olhos, angustiada, quando bateram à porta.
Ela levantou o olhar; a porta foi batida três vezes e Yun Weiyu entrou.
Vestia um manto negro como tinta, cabelos negros escorrendo, olhos claros e límpidos voltados para ela.
— Seu jantar.
Sem perceber, já escurecera.
Long Xiang olhou para a bandeja com um prato simples de verduras e uma tigela de arroz, soltando um suspiro.
— Por que levantou da cama? — Yun Weiyu entrou, colocou a comida e encarou-a. — Seu corpo não deve se movimentar à toa.
Long Xiang estava à beira do colapso.
— Irmão mais velho, a gente tem necessidades, acha que eu queria levantar?
Yun Weiyu ficou surpreso, de repente entendeu algo; mesmo eloquente, perdeu as palavras.
Em silêncio, virou-se e saiu. Logo depois, uma cultivadora entrou, ajudando Long Xiang sem desviar o olhar.
Que bom.
Long Xiang agradeceu educadamente:
— Muito obrigada.
A cultivadora balançou a cabeça, não ficou nem um instante e saiu rapidamente, claramente querendo evitar qualquer envolvimento com essa problemática.
Pouco depois, Yun Weiyu voltou; ao entrar, viu Long Xiang sentada, comendo.
Ela não tinha forças, comia devagar, franzia o cenho, parecia sem apetite.
— Mesmo sem vontade, tem que terminar, do jeito que está, se não comer, duvido que aguente até a próxima lua cheia.
Yun Weiyu falou com ares de bondade, mas Long Xiang o desprezou.
Ela largou os talheres:
— Já estou me esforçando, mas você já provou? A comida está azeda, o arroz cru, nem saliva deram para ajudar, como eu vou engolir?
Claro que Yun Weiyu não provou; ele já estava em jejum, um dos raros cultivadores do nível de ouro.
Ao ouvir isso, apressou-se, arregaçou as mangas e cheirou o prato, confirmando o leve cheiro de azedo.
Nem precisava provar o arroz, ela não mentiria.
Sua expressão ficou ruim, mas Long Xiang achou compreensível.
— Parece que os imortais de Lihuo me odeiam, nem um prato decente me dão; faz sentido, afinal, quem não quer agradar a senhorita e à senhora?
Bastava desprezar essa mulher odiada por todos para agradar os poderosos, quem não faria isso?
E a comida vinha de Yun Weiyu, o mestre sênior do protagonista; ele nem se importava se Long Xiang passava bem ou mal.
Com fome extrema, seu corpo precisava de energia para continuar; ainda tinha papel a desempenhar, não podia simplesmente desabar.
Long Xiang suspirou e, ainda assim, pegou o prato, tentando levar a comida à boca.
No momento em que a comida quase tocou seus lábios, uma mão segurou seu braço.
Era a primeira vez que Yun Weiyu teve contato físico real com ela.
Antes, ele a trazera na liteira ou ajudara na respiração, mas sempre mantinha distância.
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— Se está ruim, por que continuar?
A mão de Yun Weiyu era quente e seca, fazendo a debilitada Long Xiang desejar aquele toque.
Mas ela se desvencilhou.
— O senhor imortal disse que, do jeito que estou, se não comer algo, não vou passar da próxima lua cheia — respondeu friamente. — Se eu não completar a missão, minha mãe ficará perdida.
Essa frase tinha duplo sentido, referindo-se tanto à mãe de Long Xiang no livro quanto à sua verdadeira mãe.
Para ver a mãe novamente, precisava resistir.
Long Xiang era a caçula da família, sempre mimada, nunca sofrera tais injustiças.
Mesmo forte por dentro, ao falar da mãe, seus olhos se encheram de lágrimas.
Aquela garota sempre combativa, mesmo nos piores momentos não poupava palavras, agora tinha os olhos vermelhos e lágrimas silenciosas caíam na mesa.
Yun Weiyu afastou a comida e disse, virando-se:
— Vou preparar algo novo para você.
Ao chegar à porta, acrescentou:
— Pessoalmente.
Long Xiang secou as lágrimas devagar, um sorriso satisfeito surgiu nos cantos da boca.
Pequeno — pensou — viu? Estou brincando com você como com um cachorro.
A teimosa tristeza desaparecera; porém, a saudade da mãe era real.
Que cansaço, que dor no corpo, queria comer a costela cozida no vapor que a mãe fazia.
Ela se deitou na mesa, enterrando o rosto nos braços.
Quando Yun Weiyu voltou com a comida nova, viu Long Xiang dormindo sobre a mesa.
Mesmo dormindo, sua expressão não mostrava relaxamento, o cenho permanecia franzido, como se estivesse inquieta até nos sonhos.
Yun Weiyu colocou a comida, tentou acordá-la, mas desistiu.
Após hesitar, lançou um feitiço de aquecimento na comida, deixou uma vela acesa e saiu silenciosamente.
No meio da noite, Long Xiang acordou com dores por todo o corpo e viu à sua frente três pratos e uma sopa.
Tinha exatamente a costela cozida no vapor que desejava.
“...Parece que ainda serve para alguma coisa,” murmurou, faminta, e começou a comer rápido.
Ela não ousou comer muito; seu corpo não suportaria, poderia piorar, precisava dosar.
Após esse episódio, Yun Weiyu passou a trazer pessoalmente as três refeições diárias.
A vida ficou relativamente tranquila, seu corpo melhorou um pouco, e seu rosto ganhou um pouco de cor.
Mas Long Xiang percebeu que, além da comida de Yun Weiyu, uma porção de comida azeda continuava aparecendo regularmente para ela.
Ela entendeu então que, como mestre sênior do protagonista, Yun Weiyu permitia que os subordinados a incomodassem, sem controlar ou repreender, apenas impedindo que ela realmente comesse aquilo.
Não importava; era esperado. Ela só queria cumprir seu papel no enredo, sem criar problemas ou se envolver demais.
Até na véspera da lua cheia, achava que não veria mais ninguém do Lihuo além de Yun Weiyu.
No livro original, a antagonista conseguiu entrar pela segunda vez na cidade real de Beiting; antes disso, ficara isolada, sem ver ninguém.
Mas sua vida estava longe de ser confortável, sempre comendo comida azeda e arroz cru.
Long Xiang usava o mesmo vestido simples e modesto; antes de partir, Yun Weiyu trouxe pessoalmente um véu vermelho.
Mesmo no mundo cultivador, onde homens e mulheres não se tocavam sem necessidade, ele respeitava essa regra.
Ele cobrindo-a com o véu vermelho tinha um significado um pouco inadequado.
Enquanto pensava, o véu foi arrancado de suas mãos; Long Xiang, com experiência, cobriu o rosto rapidamente.
— Terminou? Se sim, podemos partir.
Ela bateu a poeira inexistente da roupa e se levantou para sair.
Yun Weiyu disse:
— Espere.
Long Xiang parou, curiosa sobre o que ele queria.
Ela não queria mais confusão, pois sua participação em Lihuo estava quase concluída.
Com o véu cobrindo o rosto, não sabia a expressão dele, mas sentia que estava sendo observada.
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Depois de um tempo, ele disse:
— A mestra quer vê-la.
Mestra.
Ela ficou surpresa.
Era a esposa do pai desprezível, filha única da antiga líder da seita imortal de Lihuo, uma figura famosa conhecida como Ziru Xianzi, agora chamada Senhora Yue.
— ...Parece que não posso recusar.
Quem respondeu não foi Yun Weiyu, mas Lin Ziru, que chegara sem que soubessem quando, olhando-a por muito tempo, falando com voz calma, sem desprezo.
— Não vou tomar muito do seu tempo; por favor, não me recuse.
Soava como se pudesse recusar, mas não fosse uma boa ideia.
Long Xiang hesitou, levantou o véu e viu o rosto da senhora.
Lin Ziru vestia um traje preto com bordados dourados; não eram fênix, pois seu marido era o líder da seita; somente Yue Zhou tinha esse direito.
Mas Long Xiang achava que ela era quem mais merecia usar o símbolo da fênix.
Lin Ziru não usava penteados tradicionais; tinha um rabo de cavalo simples, com algumas mechas soltas na testa, suavizando seu ar severo.
Ela era jovem, aparentando cerca de 27 ou 28 anos, com a aparência de uma irmã fria e digna.
— Ouvi de Weiyu algumas coisas sobre você e sua mãe.
...Yun Weiyu contou tudo para a mãe da protagonista? Agora fazia sentido sua vinda.
No livro original, Lin Ziru não aparecia nesse momento.
Long Xiang mexeu os lábios, sem saber o que dizer; o momento logo chegaria, Yue Zhou e outros líderes das seitas imortais a levariam para a lua.
Uma vida forçada a ser astronauta, ela não podia ficar falando sentimentalismos com a mãe da protagonista.
Pensou bastante, respondeu educadamente com um aceno, como sinal de respeito.
Lin Ziru a observou por um longo momento e disse:
— Só quis ver como você está... Sua mãe, vocês se parecem?
Long Xiang lembrou da história e respondeu com sinceridade:
— Muito.
Lin Ziru disse:
— Entendi.
Ela se curvou em reverência:
— Lembrarei de seu rosto; obrigada por aceitar ir à cidade real de Beiting em lugar da minha filha. Cumprirei minha promessa e cuidarei bem da sua mãe.
Long Xiang não confiava nas palavras do pai desprezível, mas Lin Ziru quase não tinha participação no livro original, aparecendo apenas no final após o escândalo da traição do pai, então ela queria acreditar.
Com ela por perto, parecia que sua mãe não seria explorada por ambos os lados.
Lembrava-se que, no livro, Yue Zhou ia com frequência ao mundo mortal sob o pretexto de cuidar da mãe da antagonista, mas ao ver uma antiga amante, seu coração corrompido renascia, e ele abusava da mãe da antagonista para descobrir o paradeiro da filha.
Era repugnante.
Long Xiang até enjoava de ler; não entendia por que o livro era tão popular; talvez quanto mais absurdo e polêmico, maior a audiência?
— Muito obrigada — disse sinceramente, reverenciando Lin Ziru. — Minha mãe mora na Cidade Liangzhou, na vila Ping’an, numa família chamada Long.
Lin Ziru mostrou surpresa:
— Você contou assim tão fácil?
— Se eu não contar, senhora descobrirá facilmente; melhor que eu diga diretamente.
Lin Ziru ficou em silêncio; o momento de Long Xiang havia chegado.
Yun Weiyu esperava do lado de fora; ela cruzou o umbral, e antes de abaixar o véu, olhou para trás e disse a Lin Ziru a última frase:
— Senhora Imortal Lin.
Não a chamou pelo título de esposa de Lin Ziru, mas sim Senhora Imortal Lin.
Sua voz era calma, até um pouco fria e distante; sob o véu vermelho semiaberto, seu rosto pálido e limpo parecia uma flor de lótus recém-desabrochada, e seus olhos teimosos mostravam um leve conflito.
Ela olhou para Lin Ziru e disse claramente:
— Em vez de apoiar a ambição dele de voar alto, prefiro trilhar meu próprio caminho nas alturas.
Lin Ziru ficou surpresa, observando Long Xiang cobrir o rosto com o véu e entrar decididamente na liteira especial.
Ela também tinha apenas quinze anos, da mesma idade que a filha, tão jovem e frágil.
Lin Ziru de repente sentiu uma culpa profunda e irreparável.