nove mil e nove
A noite estava avançada e Long Xiang, que até pouco antes não sentia o menor sinal de sono, foi subitamente acometida por uma sonolência inoportuna naquele momento de destino incerto. Ela bocejou largamente diante de Beiting Chun, cuja expressão tornou-se ainda mais complexa ao testemunhar a cena.
— ...Peço perdão, foi impossível conter.
Espantando o sono do rosto, Long Xiang ainda tencionava questionar o que estava acontecendo, mas Beiting Chun já havia feito uma reverência e se retirado, acompanhada pelas damas de companhia. A pressa delas era notável. Na escuridão da noite, o único guia para o seu caminho era o corredor envolto em cristais de gelo. Após hesitar por um longo tempo entre voltar para dormir ou seguir obedientemente, Long Xiang escolheu a segunda opção.
"Vou logo. Não é como se eu pudesse simplesmente ignorar tudo. A situação atual ainda é melhor do que ser levada por Beiting Chun para ter as artérias perfuradas."
Long Xiang ergueu levemente a barra do vestido e deu o primeiro passo. Ao tocar a superfície congelada, um frio intenso subiu desde a planta de seus pés.
— Ai!
Ela levantou o pé rapidamente, mas a frieza já lhe invadira os ossos. Ainda assim, era preciso seguir. Não havia escolha. Se voltasse agora, Beiting Chun certamente retornaria; era melhor não desperdiçar tempo. Que terminasse logo para que ela pudesse voltar a dormir.
Long Xiang tocou a artéria do pescoço e, resignada, caminhou sobre o gelo. Preparou-se mentalmente para o frio iminente, mas, para sua surpresa, desta vez não sentiu nada. Seus passos saltitantes cessaram; ela, que antes parecia uma raposa saltando na neve, passou a caminhar normalmente. Abaixou a barra do vestido e seguiu calmamente pelo corredor. Ao olhar de lado, via a lua imensa; ao erguer os olhos, contemplava o corredor clássico, cristalino e prateado. Aquela beleza aliviou sua tensão, lembrando-a da paisagem que vira no Monte Laojun em um inverno passado.
O corredor não era nem muito longo, nem muito curto. Após cerca de um quarto de hora, Long Xiang chegou ao seu destino. Ao ver o gelo, já imaginara que o Príncipe herdeiro precisava dela para alguma coisa, mas não esperava que fosse um encontro pessoal com ele.
No livro original, a residência de Beiting Xue era descrita como um gigantesco palácio de gelo. Tudo era esculpido em cristais, um mundo prateado que nada revelava do que havia em seu interior. Se alguém perguntasse a Long Xiang, diria que, se houvesse de fato um Palácio da Lua, seria exatamente assim. Um brilho prateado suave cintilava sobre a estrutura; o luar era o seu melhor adorno. Long Xiang sentiu um respeito reverencial, como se estivesse diante de uma obra de arte impecável. Embora o bom gosto dele para presentes de casamento fosse duvidoso, seu senso estético para arquitetura era admirável.
Então, o que o Príncipe queria com ela? Ele estava acamado; será que ela mesma teria de extrair o próprio sangue? A ideia de Beiting Xue fazendo isso a fez lembrar-se da Rainha e do Soberano sendo torturados sob a lua de sangue. Que horror. Droga, ela mudou de ideia, queria voltar para dormir!
Long Xiang virou-se para fugir, mas seus pés escorregaram. Ela caiu para trás, chocando-se contra a porta do palácio e abrindo-a. Aquela porta, que parecia tão imponente e inviolável, foi escancarada por uma simples mortal. Long Xiang esperava sentir dor nas costas e instintivamente protegeu a nuca, mas acabou caindo sobre um tapete de pelo branco e macio.
Esforçando-se para manter a calma, olhou ao redor e viu que o salão principal do palácio estava forrado com carpetes prateados. Por fora, o palácio era brilhante, mas, por dentro, estranhamente escuro, com apenas um tênue brilho de fogo atrás de uma cortina de pérolas ao fundo. A luz quente era atraente por natureza; quando Long Xiang se deu conta, já estava diante da cortina. As pérolas, densamente enfileiradas até o chão, impediam qualquer visão, exceto pelo fogo lá dentro. Ela hesitou por um momento, então estendeu a mão e afastou a cortina. Sua coragem havia aumentado, mas, como se diz, "já que cheguei até aqui", não havia como sair agora.
A queda na entrada definitivamente não fora por falta de equilíbrio. O dono daquele lugar não permitia que ela fugisse. Então, que assim fosse. Que se cumprisse o trabalho. O que Long Xiang não admitia era que, no fundo, estava curiosa. Apenas um pouco — curiosa sobre a aparência atual do protagonista e sobre como era o lugar onde ele vivia. No livro original, nem mesmo a protagonista havia entrado de fato na residência de Beiting Xue. Mas isso provavelmente fora por falta de oportunidade; se Yue Fuling quisesse entrar, ele certamente permitiria. Diante dos desejos da deusa de seu coração, ele era pura submissão.
Ao pensar nisso, seu entusiasmo diminuiu. A curiosidade transformou-se em um desinteresse apático, como se estivesse em um ponto turístico detestável, desejando apenas terminar logo e voltar para o hotel. Esse estado de espírito, contudo, dissipou-se ao chegar ao fim do caminho de luz.
Ela viu Beiting Xue. Deitado no leito.
Ao final da luz, havia um aposento estreito iluminado por velas brancas. Apesar do palácio imenso, o espaço que ele ocupava era minúsculo. Havia apenas uma cama simples, quase um leito de solteiro, fazendo Long Xiang pensar, por um momento, que as acomodações dela eram melhores que as dele. Incontáveis velas brancas ardiam, cercando a cama. Long Xiang parou na borda, a poucos passos de distância.
Ela podia ver cada detalhe do rosto dele com clareza. Era um rosto verdadeiramente belo; mesmo de olhos fechados, parecia carregar uma história. Comparado ao espírito que vira anteriormente, seu corpo físico parecia mais frágil, a pele ainda mais pálida, o que realçava a cor carmim dos lábios. Eles eram lindos, brilhantes e de formato perfeito, o que lembrou Long Xiang, faminta por um lanche noturno, de uma sobremesa que ela adorava.
Ela engoliu em seco, olhando para as velas aos seus pés. A chama não queimava nem pingava cera; deveria ser fácil atravessar. E ela o fez. A moça, vestida em tons de pêssego e verde, deu um leve salto e, com um oscilar das chamas, já estava dentro do círculo. Sucesso! Agora, ela estava ainda mais perto.
Um homem cujo nome significava "neve" parecia, de fato, feito de neve. Ele ainda respirava, o peito subindo e descendo. Vestia a mesma túnica branca bordada com runas douradas que ela vira antes. As pessoas de Beiting vestiam branco, mas não no estilo fúnebre comum; suas roupas possuíam padrões sutis e refinados, variando conforme a graduação. Ela, com suas cores vibrantes e o colar de pedras preciosas, parecia uma árvore de Natal viva caminhando por Beiting.
Long Xiang inclinou-se um pouco para observá-lo melhor. Ela se perguntou por que estava tão à vontade, por que se atrevia a tocar o corpo do protagonista, mas já estava ali há algum tempo e ele não dera sinal algum. Não podia ficar parada sem fazer nada. Estudantes universitárias são assim, sempre cheias de energia inesgotável.
Devido à inclinação, as pedras de seu colar chocaram-se, emitindo um som nítido. No silêncio do palácio, apenas sua respiração e o tilintar ecoavam. A mente de Long Xiang ficou turva; sua cabeça desceu cada vez mais, até ficar a menos de dez centímetros do rosto de Beiting Xue. Estava perto demais. Podia ver até a direção de seus cílios.
Será que a pele de todos os cultivadores era tão boa assim? Não se viam poros no rosto de Beiting Xue; sua pele brilhava como um diamante, lembrando-a da neve real. Em uma viagem a Harbin, vira a neve fina e pura, cintilando sob o sol, exatamente como a pele dele. As mãos de Long Xiang coçavam de vontade de tocá-lo, mas ele era frio demais. Seu corpo definhava, sua vida estava por um fio; tanto a energia ao seu redor quanto sua respiração eram gélidas.
Bastava. A razão dizia-lhe para recuar, e ela obedeceu ao comando mental. Mesmo sabendo que o protagonista não podia mover o corpo, não devia exagerar...
— Hmph!
O inesperado aconteceu exatamente quando ela ia se retirar. O corpo humano é um mistério; no momento em que ela sentiu o perigo, ele se concretizou. Beiting Xue, que deveria estar imóvel, abriu os olhos. Seus olhos não eram como os de seu espírito; nas profundezas das íris, havia um tom esmeralda, com um formato que lembrava olhos de gato. Aquele olhar tornava-o insondável e intimidador, mesmo sem expressão.
Long Xiang podia ver tudo com clareza. Sua boca foi subitamente coberta por uma mão gelada. Ele não usara muita força, mas ela estava paralisada, incapaz de reagir diante daquela força da natureza. O ar que ela respirava estava impregnado com o cheiro de neve dele. Como descrever o cheiro da neve? Era algo único, o aroma do ar após uma nevasca.
Long Xiang, forçada à lucidez por aquele aroma, arregalou os olhos enquanto o homem, ainda sem expressão, usava a outra mão para segurar sua cintura. O tilintar das pedras de seu colar soou enquanto ele a puxava para a cama. Ao cair sobre o leito, ela pôde sentir tudo nele, até mesmo o seu batimento cardíaco.
— Mmph!
Long Xiang não entendia nada, mas instintivamente tentou falar. Beiting Xue parecia conhecê-la bem; o gesto de tapar sua boca fora preciso, impedindo-a de emitir qualquer som. Ela viu o homem inclinar-se sobre ela... O que ele ia fazer? Não seria...
Uma pontada aguda no pescoço interrompeu seus pensamentos. Doía! Presas perfuraram sua pele; Long Xiang arregalou os olhos, as pupilas contraíram-se e todo o seu corpo ficou tenso. Às suas costas, o leito frio; sobre ela, a fonte de todo aquele gelo; no pescoço, uma dor excruciante. Enquanto seu sangue era drenado, ela finalmente compreendeu tudo.
Com razão a expressão de Beiting Chun fora tão estranha! Beiting Xue mudara de ideia: não precisava que lhe trouxessem sangue extraído; ele mesmo a seguraria para se alimentar! Deve ser muito mais fresco assim!
Pela primeira vez em duas vidas, ela estava tão perto de um homem, em uma posição tão íntima e opressora. Com a boca tapada e incapaz de gritar de dor, sentindo os longos cabelos escuros e o rosto frio de Beiting Xue enterrados em seu pescoço, ela mal conseguia respirar. Só restou a ela tentar morder a palma da mão dele. No momento em que conseguiu, ela encontrou o olhar languidamente voltado para ela, aqueles olhos felinos de tom esverdeado.
Ele relaxou um pouco a mandíbula e afastou a mão que cobria a boca de Long Xiang. A situação parecia melhorar, mas... a dor diminuiu e deu lugar a uma coceira intensa. O pescoço dela era sensível, e ser tratada daquela forma provocava arrepios em todo o seu corpo. Como sua boca estava livre, os gemidos que ela não conseguia conter escaparam.
Socorro. Aquele som saíra dela?
Long Xiang viu claramente o olhar de Beiting Xue oscilar. Embora não houvesse mudança em sua expressão, ela sabia exatamente o que ele estava pensando. Long Xiang esforçou-se para levantar a mão, agarrou a mão dele que acabara de afastar e a puxou de volta para o seu rosto.
— É melhor você continuar tapando!