2 Você está morto

O Trabalhador Modelo da Destilaria Caça Fantasmas Todos os Dias Pequena verdade de mil gerações 4106 palavras 2026-07-31 03:29:20

Há vários dias, Takaaki Morofushi vinha tendo o mesmo sonho.

A mesma escuridão absoluta, o mesmo silêncio profundo, como se estivesse envolto em uma teia de aranha extremamente resistente, da qual ele não conseguia se desvencilhar nem escapar.

O esgotamento mental de Takaaki era tamanho que, quando Kansuke Yamato foi visitá-lo, chegou a pensar que estava diante de um cadáver.

— Takaaki! — Kansuke Yamato aproximou-se a passos largos, olhando para ele com incredulidade. — O que aconteceu com você? Você está tão magro! E sua pele está pálida demais!

— É mesmo? — Takaaki tocou o próprio rosto; ele próprio não havia notado.

— Olhe para o seu braço, está muito mais fino do que antes. — Kansuke segurou o braço de Takaaki com dois dedos, exclamando de forma exagerada: — Faz apenas uma semana que não nos vemos. Você por acaso foi sugado por um vampiro?

Takaaki puxou o braço de volta, massageou o cenho com cansaço e disse: — Estou bem.

— Como você pode dizer que está bem com essa aparência? — Kansuke gritou com sua voz tonitruante.

— Você trouxe um bentô? — Takaaki mudou de assunto rapidamente.

Kansuke imediatamente lhe entregou a marmita que trazia na mão e disse: — Minha mãe soube que eu vinha ver você e insistiu para que eu lhe trouxesse isto.

— Agradeça à sua mãe por mim. — Sem formalidades, Takaaki abriu o bentô. Dentro, havia taiyakis dourados e aromáticos, com uma aparência deliciosa.

— O que você tem comido nos últimos dias?

Takaaki apontou para um canto.

Kansuke olhou na direção indicada e viu uma caixa de macarrão instantâneo.

— Você só tem comido isso? Não admira que tenha emagrecido tanto.

Takaaki suspirou. Sua perda de peso não se devia apenas à alimentação, mas principalmente àquele pesadelo do qual parecia impossível escapar.

— Você tirou uma licença para resolver... bem, você deve voltar para a escola amanhã, não é? — Kansuke falou com cautela, evitando mencionar a morte dos pais do amigo.

Takaaki, contudo, não evitou o assunto e disse calmamente: — O funeral dos meus pais foi concluído há alguns dias. Você estava lá, afinal.

No enterro de seus pais, quase todos os moradores da região de Nagano compareceram. No entanto, Takaaki estava imerso em profunda dor na época, e seus tios cuidaram de todos os detalhes.

Kansuke engoliu em seco, sem saber como consolá-lo.

Takaaki olhou para ele e suspirou: — Assim que se nasce, começa-se a morrer; assim que se morre, começa-se a nascer. A vida é basicamente isso, nada além do comum.

Kansuke ficou completamente confuso.

Só então Takaaki percebeu que aquelas palavras não eram algo que um garoto de doze anos deveria compreender. Ele próprio entendia tais conceitos graças ao seu falecido pai, que fora professor e costumava lhe trazer diversos livros variados, expandindo seus conhecimentos muito além dos jovens de sua idade.

But ele nunca mais receberia livros de seu pai.

Sem as anotações cuidadosas escritas pelo pai, sem a sua seleção criteriosa, ele não teria mais a quem recorrer quando encontrasse algo que não conseguisse compreender.

A dor de perder um ente querido não se limitava àquele único instante do falecimento; ela se estendia pelo resto da vida, manifestando-se nos menores detalhes cotidianos antes ignorados, uma melancolia que parecia penetrar até a medula sempre que a lembrança vinha à tona.

Os dedos de Takaaki contraíram-se levemente, mas logo ele continuou a comer em silêncio.

Kansuke também não disse nada, apenas lhe serviu um copo de água, com os olhos cheios de preocupação.

Após a refeição, Takaaki recolheu a louça e perguntou a Kansuke: — Onde vamos hoje?

— Não vamos sair hoje.

— Sempre que você vem me ver, insiste em me arrastar para fora, mesmo quando estou estudando...

As palavras de Takaaki foram interrompidas abruptamente quando Kansuke o empurrou em direção ao sofá.

Deitado de costas no sofá macio, os olhos de Takaaki, habitualmente serenos, não puderam deixar de revelar uma ponta de surpresa.

— Durma um pouco, Takaaki. — Kansuke não estava negociando; ele colocou com cuidado uma almofada sob a cabeça do amigo.

— Eu vou para o meu quarto dormir...

— Tudo bem, eu fico vigiando você dormir lá.

Takaaki suspirou.

Kansuke irritou-se um pouco: — Você não quer dormir de jeito nenhum! Se eu deixar você ir para o quarto sem ficar de olho, você não vai pregar o olho!

— Eu não consigo dormir, Kansuke. — Ele não ousava dormir.

— Por isso eu disse que vou vigiar você. — Kansuke puxou uma cadeira e sentou-se ao lado do sofá, olhando para ele com seriedade e franzindo a testa. — Você parece exausto. Tem tido pesadelos? Vou ficar bem aqui ao seu lado, então trate de descansar um pouco.

Takaaki tentou se levantar, mas foi empurrado de volta por Kansuke.

A força física de Kansuke era formidável, muito superior à constituição franzina de Takaaki, que preferia a leitura às atividades físicas.

— ...Kansuke.

— Você precisa dormir, Takaaki. As olheiras sob os seus olhos estão assustadoras, e o seu rosto está pálido demais. — Kansuke manteve o olhar firme, sem a menor intenção de ceder.

Takaaki suspirou e, resignado, fechou os olhos.

Ele realmente não queria dormir.

Sempre que dormia, era atormentado por pesadelos: aquela escuridão aparentemente infinita, um desespero desprovido de qualquer presença ou som.

Ele sabia que seu estado mental estava deplorável e que o corpo humano precisava de repouso, mas, ao menos durante o dia, ele desejava evitar aquela escuridão.

Em um estado de torpor, Takaaki acabou adormecendo.

Estava exausto demais.

Forçar-se a ficar acordado era inútil; embora sua mente resistisse ao sono, seu corpo o obrigava a ceder, com cada músculo dolorido e fraco protestando silenciosamente.

Como esperado, a mesma escuridão de sempre o envolveu.

Takaaki esperou por aquela sensação de flutuação, como se estivesse sendo golpeado ou arremessado para o alto — a única centelha de vida naquele silêncio mortal.

No entanto, nada aconteceu.

Desta vez, até mesmo aquela sensação de vitalidade havia sumido.

Takaaki pensou com amargura que aquele pesadelo estava se tornando cada vez mais aterrorizante.

Porém, de repente, um odor peculiar invadiu suas narinas...

No campo de treinamento, era a hora do intervalo de almoço.

Após a refeição, Jin Kurosawa fixou o olhar no saco de pancadas que, mais uma vez, parecia ter ganho vida, e acendeu um cigarro com a cabeça baixa.

Ele já havia se acostumado.

Nos últimos dias, o saco de pancadas sempre parecia ganhar vida diante dele, mas ninguém além dele notava qualquer anomalia.

Sua mente provavelmente estava pregando peças. Isso era normal; em um ambiente tão opressor e violento, seria incomum que alguém não desenvolvesse algum distúrbio psicológico.

Jin Kurosawa já não sentia o pânico do primeiro dia; limitava-se a observar a cena com calma, encarando-a quase como um entretenimento.

— Chefe, quer uma salsicha? Guardei do café da manhã. — O Número 172, um garoto gordinho e um tanto ingênuo, correu até Jin Kurosawa e ofereceu a salsicha como se fosse um tesouro.

— Não preciso.

— E que tal um ovo? — O gordinho tirou um ovo cozido como se fizesse um truque de mágica.

— Você está na minha frente. — O tom de Jin era gélido.

O Número 172 assustou-se, recuou dois passos e perguntou em voz baixa: — Chefe, o que você está olhando?

Jin Kurosawa não lhe deu atenção. Aos seus olhos, o saco de pancadas parecia respirar, um fenômeno extremamente bizarro.

— Olhando para o saco de pancadas? O que tem de tão interessante nele? — O Número 172 achou aquilo estranho, mas, sem coragem de incomodar Jin, limitou-se a observar junto com ele.

Quando o cigarro terminou, Jin tirou outro do maço.

O gordinho não resistiu e falou novamente: — Chefe...

— Não sou seu chefe.

A expressão do garoto murchou instantaneamente, e ele suspirou: — Por favor, chefe, não me abandone. Eu sei que sou fraco, mas se você também me rejeitar, eu vou morrer.

Jin Kurosawa permaneceu indiferente.

Na Base de Cultivo de Brotos, a formação de facções era constante. Especialmente para os herbívoros mais fracos, era quase impossível sobreviver sem a proteção de alguém. O gordinho era uma ovelha indefesa naquele meio, mas Jin não tinha a menor intenção de carregar um fardo.

— Chefe, eu lhe dou toda a minha comida, por favor, me ajude. — O gordinho colocou no chão os alimentos que havia poupado das refeições.

Jin Kurosawa sequer olhou para eles.

— Isso agora é meu! — Alguém correu de repente, agarrou a comida do chão e disparou.

— Devolva! — O gordinho tentou persegui-lo imediatamente.

O outro garoto parou voluntariamente e exibiu o punho cerrado em tom de ameaça.

O gordinho olhou para ele com medo, sem coragem de exigir sua comida de volta.

— Chefe... — O gordinho olhou hesitante para Jin Kurosawa.

— Você pode procurar o Número Um, ele lhe dará proteção. — Jin estava ficando impaciente.

— O Número Um protege gente demais, ele nem sequer me notaria. Mesmo que me ajudasse uma vez, não há garantia de que faria o mesmo na próxima. Fracos como eu estão sempre na base da cadeia alimentar; mesmo se eu me juntar a ele, continuarei sendo intimidado pelos outros — disse o gordinho com timidez.

Ele continuou: — O Número Treze também é muito forte. Atualmente, apenas o Número Um e o Número Treze têm uma posição consolidada na organização. No entanto, o Número Treze não protege seus subordinados; ele até os deixa se matarem entre si. Se eu for para o grupo dele, com certeza serei atormentado até a morte. Em toda a organização, apenas os dois têm poder para oferecer proteção, mas nenhum deles serve para mim. Por favor, chefe, me ajude.

Jin Kurosawa olhou para ele com certa surpresa e perguntou: — Por que eu?

— Porque o chefe não tem medo nem do Número Um nem do Número Treze!

De fato, Jin não os temia, mas também não queria carregar um inútil que só o atrasaria.

— Eu posso lhe fornecer muitas informações! — o gordinho disse às pressas, temendo ser rejeitado.

— Ah, é? — o tom de Jin era de puro desinteresse.

— Meus pais eram membros oficiais com codinome na organização. Eu sei de muitas coisas!

Só então Jin finalmente o olhou de verdade. Não era de admirar que aquele garoto fosse tão gordo e destoasse tanto dos outros na base; ele era um herdeiro da organização.

— E, sendo assim, você ainda tem medo de ser intimidado?

O gordinho encolheu os ombros e sussurrou: — Eles traíram a organização e foram executados.

Jin Kurosawa: ...

Ele perdeu o interesse instantaneamente e voltou a encarar o saco de pancadas que respirava.

O gordinho aproximou-se rapidamente e sussurrou: — O Projeto Broto já está em andamento há cinco anos. Há uma avaliação no final de cada ano, e os cinquenta últimos colocados são eliminados.

Os olhos de Jin brilharam de leve. Em uma organização maligna como aquela, a eliminação significava apenas a morte.

O gordinho continuou a insistir: — Cada ciclo do Projeto Broto dura um ano. Após a avaliação de fim de ano, o contingente é recomposto para trezentas pessoas. Para sair da base, é preciso se graduar, o que exige a aprovação de três instrutores da base.

As informações do gordinho eram de fato úteis, mas Jin considerava que ainda não era o suficiente.

— O Número Um e o Número Treze fazem parte do primeiro grupo a entrar no projeto. Os números de identificação do primeiro grupo foram definidos de acordo com o resultado da primeira avaliação. — O gordinho engoliu em seco e sussurrou ainda mais baixo: — O Número Um era o mais forte na época, e com certeza ninguém consegue vencê-lo agora. Ele sempre foi o melhor.

Jin apagou o cigarro e caminhou em direção ao garoto que acabara de roubar a comida do gordinho.

— Devolva.

O outro hesitou por um momento e depois se enfureceu: — Número Nove, não se meta onde não é chamado! Meu chefe é o Número Treze!

Jin desferiu um soco violento no abdômen do adversário e, em seguida, desferiu-lhe um chute que o arremessou longe. A comida roubada espalhou-se pelo chão.

Os olhos do gordinho brilharam. Ele correu imediatamente para recolher os alimentos do chão e os ofereceu a Jin com as mãos estendidas, como uma oferenda.

Jin continuou sem aceitar a comida, mas aceitou tacitamente a lealdade do garoto.

De repente, Jin sentiu algo e ergueu a cabeça, deparando-se com um olhar provocador — era o Número Treze.

Os dois se encararam à distância sem dizer uma palavra. O choque entre a indiferença de um e o divertimento sarcástico do outro atraiu a atenção das pessoas ao redor, que logo desviaram os olhos com medo.

O Número Treze ergueu a mão, juntou o indicador e o médio, e fez um gesto de degola no pescoço, articulando com os lábios: *Você está morto.*

Uma hostilidade silenciosa envolveu Jin instantaneamente, fazendo até mesmo o gordinho ao seu lado tremer de pavor.

Jin apenas soltou um estalo de desdém e, do mesmo modo silencioso, articulou com os lábios: *Babaca.*