4. Gostou do presente que lhe dei em retribuição?
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Ele voltou a sonhar.
Ainda era escuro. A diferença, daquela vez, era que ele ouvia um som: uma respiração longa e ritmada.
Por fim, Takaaki Morofushi deixou de considerar aquilo uma pista sobre o assassino. Pensou que o criminoso jamais adormeceria em sua casa; mesmo o subconsciente não seria capaz de simular algo tão absurdo.
Então, o que era aquilo? Apenas um pesadelo comum?
Mas os cigarros Jiloises existiam de verdade. Embora não fossem uma pista deixada pelo assassino, algo que ele desconhecia não deveria aparecer em seus sonhos.
Será que aquilo não era um sonho?
Takaaki Morofushi não conseguia falar. Queria despertar, ou acordar alguma outra pessoa, mas sua consciência só conseguia afundar na escuridão. A respiração longa e ritmada lhe transmitia uma sensação de segurança intensa, fazendo com que sua luta aos poucos cessasse. Em vez disso, passou a escutar com ainda mais atenção a respiração da outra pessoa.
Sete mil trezentas e vinte e sete vezes.
Na manhã seguinte, Takaaki Morofushi despertou revigorado.
Na noite anterior, ele havia contado cada respiração da outra pessoa: sete mil trezentas e vinte e sete.
Em circunstâncias normais, contar respirações durante a noite inteira deveria tê-lo deixado exausto. No entanto, sentia-se como uma terra castigada pela seca que enfim recebera uma chuva abundante; descansara melhor do que em qualquer um dos últimos dias.
Aquela respiração realmente transmitia tranquilidade. Sem saber por quê, ele ajustara o próprio ritmo ao da outra pessoa. Na escuridão, os sons das duas respirações alternavam-se, acompanhando-se mutuamente.
Seria bom se todos os sonhos fossem assim.
No dormitório da base, Jin Kurosawa encarava fixamente o próprio travesseiro.
Seu olhar feroz parecia ter perdido de repente o alvo, tornando-se vazio e confuso.
Havia desaparecido.
Aquela sensação de algo “vivo” surgira sobre seu travesseiro, mas desaparecera pouco depois de ele acordar.
Seria um fantasma?
Jin Kurosawa pensou que muitas pessoas certamente haviam morrido naquela base. Era inevitável que o ressentimento se acumulasse, e não seria estranho que alguns fantasmas se recusassem a partir.
A princípio, imaginara que o fantasma estivesse ligado ao saco de pancadas. Depois de destruir e substituir alguns deles, passou a acreditar que talvez o fantasma estivesse no chão sob o saco. E então… descobriu vestígios da outra presença no próprio dormitório.
Que nojo. Será que ele podia se prender ao travesseiro? Então a cama também estaria contaminada? E o cobertor, poderia ser possuído?
Irritado, Jin Kurosawa jogou toda a roupa de cama no chão, sentindo que nada mais estava limpo.
— Irmão mais velho, o que aconteceu?
O Número 172 dormia no beliche de cima de Jin Kurosawa. Ao ouvir o barulho, desceu imediatamente. O gordinho recolheu agilmente a roupa de cama e a dobrou, assumindo uma expressão servil.
— Não quero mais isso.
— Quer trocar por uma cama nova?
O gordinho já ia carregá-la para fazer a troca.
— Esquece. Fica com essa mesmo.
Por fim, ainda irritado, Jin Kurosawa apontou para um canto da cama, indicando que ele deveria deixar tudo ali.
Que diferença faria trocar? A outra presença já havia partido e ninguém sabia quando retornaria. Apenas trocar a roupa de cama certamente não seria suficiente para impedi-la.
Um fantasma…
Se ousasse lhe fazer mal, Jin Kurosawa o mataria, mesmo que fosse um fantasma.
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O dormitório era para oito pessoas. Os movimentos dos dois despertaram os demais, mas a hora da formação já se aproximava, e ninguém reclamou. Além disso, ninguém conseguiria derrotar Jin Kurosawa.
Naquele lugar chamado base, os punhos eram a lei.
Antes do café da manhã, todos se reuniam e davam três voltas ao redor do campo para aquecer.
A pista tinha dois mil metros. Quando haviam ingressado na base, meses antes, bastava uma volta; agora, eram três. Meia hora depois do início da corrida, a refeição era servida. O tempo para comer também era de apenas meia hora. Se não terminassem de correr em uma hora, passariam fome naquela manhã.
No início, todos reclamavam. Com o tempo, porém, deixaram de dizer qualquer coisa. Apenas abaixavam a cabeça e avançavam o máximo que podiam, esforçando-se para não ficar sem comer.
O gordinho estava sempre entre os últimos. Levava quase cinquenta minutos para terminar e, ao chegar ao refeitório, devorava a comida sem ousar perder tempo falando.
Alguém se sentou à mesa deles.
O gordinho lançou um olhar e encolheu o pescoço, como se tivesse levado um susto, enterrando ainda mais a cabeça.
— Vá comer em outra mesa — disse Jin Kurosawa.
Como se tivesse recebido um perdão, o gordinho pegou a tigela e os talheres e correu para a mesa ao lado.
— Você não está mesmo pensando em protegê-lo, está? — perguntou o Número 13, acompanhando a partida do gordinho com um sorriso malicioso.
— Isso não é da sua conta.
— Não é da minha conta? Ontem você ainda permitiu que o Número 172 me desafiasse abertamente.
Jin Kurosawa já havia quase terminado de comer. Ao ouvir aquilo, lançou ao Número 13 um olhar desdenhoso. Além de o Número 13 nunca ter se importado com a vida dos subordinados, no dia anterior haviam sido os homens dele que tinham provocado a situação.
O Número 13 sorriu, evidentemente entretido, e examinou Jin Kurosawa com ar provocador.
— Parece que descobri um brinquedo interessante.
Com um estalo, a adaga foi cravada com força na mesa. A madeira imediatamente se abriu num buraco.
O indicador de Jin Kurosawa pressionou de leve a extremidade do cabo, enquanto ele encarava o Número 13 com frieza.
O sorriso do Número 13 se alargou ainda mais. Seu corpo era magro e vigoroso, e seus olhos sombrios lembravam uma serpente venenosa oculta na relva, causando desconforto só de olhar para ele.
Jin Kurosawa não gostava do Número 13. Diziam que ele adorava brincar com as pessoas, e muitos haviam acabado mortos por causa de seus jogos.
Jin Kurosawa não gostava dele, mas tampouco chegava a odiá-lo. Afinal, gente boa não sobrevivia naquela organização.
— Vejo você na aula de combate.
O Número 13 piscou para Jin Kurosawa com um sorriso, num tom carregado de significado.
Assim que o Número 13 partiu, o Número 172 voltou às pressas, ainda segurando a tigela, e disse nervoso:
— Irmão mais velho, o que vamos fazer? Ele certamente está de olho em você.
Jin Kurosawa, porém, não se importou. Apenas abriu a película da salsicha com uma lâmina e deu uma mordida.
Repor as forças, enfrentar os desafios: Jin Kurosawa apenas repetia o que precisava fazer.
Na aula de combate, os alunos praticavam em duplas.
Quando Jin Kurosawa procurou alguém para formar dupla, todos ao redor se afastaram, sem querer ter qualquer relação com ele.
Jin Kurosawa olhou novamente para o Número 13. O outro o observava com um sorriso, convidando-o em silêncio.
— Irmão mais velho, eu e você…
O Número 172 tentou ajudá-lo.
— Número 172, venha cá.
O instrutor Ganso Cinzento, um homem corpulento, estava à margem do campo. Normalmente apenas observava, mas naquele momento entrou pessoalmente na área de treino e disse friamente:
— Eu vou ensiná-lo.
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O rosto do Número 172 empalideceu. Ele avançou com dificuldade, quase arrastando os pés.
— Além de mim, você não vai encontrar outro parceiro para treinar hoje.
O Número 13 caminhou até Jin Kurosawa, concedendo-lhe a honra de sua presença, e disse em tom zombeteiro:
— Se admitir a derrota, eu pegarei leve. Que tal?
O olhar de Jin Kurosawa se tornou frio, mas ele não respondeu.
Na base, a diferença entre a força dos instrutores e a dos alunos era enorme. Em geral, eles não ousavam matar um aluno sem motivo, pois certamente seriam repreendidos. Já os massacres entre os próprios alunos nunca eram problema de ninguém.
Jin Kurosawa tinha certeza de que, mesmo se o Número 13 o matasse durante o treino, o instrutor Ganso Cinzento, que nunca simpatizara com ele, não faria o menor esforço para impedir.
Cobras e ratos do mesmo covil; todos cúmplices.
Jin Kurosawa respirou fundo e decidiu aceitar o desafio do Número 13. Se o outro queria atacá-lo, teria de pagar um preço alto.
— Número 1, venha treinar comigo.
A voz veio de trás.
Jin Kurosawa ficou surpreso e então também sentiu alívio. Caminhou a passos largos até o Número 1.
O Número 13 cerrou os punhos, mas nem sequer olhou para o Número 1. Simplesmente agarrou outra pessoa para treinar.
Ao fim da aula, Jin Kurosawa havia aprendido muito com o treino ao lado do Número 1. Já a pessoa escolhida pelo Número 13 foi espancada até ficar incapacitada. Provavelmente passaria meses na enfermaria. Mesmo que conseguisse participar da avaliação de fim de ano, certamente não obteria um bom resultado e, muito provavelmente, seria eliminada.
O Número 172 também fora castigado pelo instrutor Ganso Cinzento e saiu mancando, mas felizmente não sofrera nada grave, apenas ferimentos superficiais.
Na hora do almoço, Jin Kurosawa sentou-se à mesma mesa que o Número 1, algo que raramente acontecia. Ele nunca gostara de se apoiar em qualquer grupo, mas isso não significava que fosse um ingrato sem coração.
— Antes que eu interviesse, você pretendia enfrentá-lo de frente, não é? — perguntou o Número 1.
Jin Kurosawa mordeu um pedaço de sushi e respondeu:
— Foi ele quem veio me provocar.
— Se ele voltar a provocá-lo, venha falar comigo. No momento, ele apenas se interessou por você. Depois de algum tempo, isso passa.
Jin Kurosawa ergueu os olhos para o Número 1 e retrucou:
— Está dizendo que só posso evitá-lo?
O Número 1 percebeu a relutância de Jin Kurosawa e suspirou, falando com sinceridade:
— Sei que você não está satisfeito, mas eu e ele entramos na primeira turma. Estamos treinando aqui há quase cinco anos, enquanto você ainda não completou nem seis meses.
Jin Kurosawa entendeu o que ele queria dizer e respondeu em voz grave:
— Às vezes, quanto mais tentamos não arrumar problemas, mais eles vêm nos procurar.
— Preserve-se e acumule forças.
O Número 1 não disse mais nada. Apenas deu um tapinha no ombro de Jin Kurosawa.
Depois que o Número 1 se afastou, Jin Kurosawa segurou a tigela e lançou um olhar na direção do Número 13.
O Número 13 parecia ter escolhido de propósito a mesa em frente à dele. Ergueu imediatamente a mão e o cumprimentou em silêncio, cheio de provocação.
Acumular forças?
Um forte espírito de rebeldia surgiu nos olhos de Jin Kurosawa.
Ele não faria isso.
Por vários dias seguidos, Takaaki Morofushi adormeceu ao som da respiração de Jin Kurosawa, e seu estado mental melhorou cada vez mais.
Então, certo dia, durante o intervalo para o almoço na escola, Takaaki Morofushi sentiu que havia mudado de lugar. A respiração uniforme e prolongada desaparecera, substituída pela voz fria e juvenil de um rapaz.
— Gostou do presente de retribuição que lhe enviei, Número 13?
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