5 Ele viu.
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Quando o Número Treze voltou a provocar Jin Kurosawa, Jin recusou a ajuda do Número Um.
Os dois travaram uma luta e acabaram internados juntos na enfermaria.
— O que há para eu não gostar? Tenho tempo de sobra para ficar lutando com você. — O Número Treze estava deitado na cama ao lado e, ao ouvir aquilo, respondeu com desdém: — Já frequentei essas aulas muitas vezes. Você, Número Nove, nem sequer conseguiu aprender tudo uma única vez, não é? Quando chegar a avaliação final…
— Diga-me: se você se ferir e faltar à avaliação final, será eliminado diretamente? — Jin lançou o aviso com tranquilidade.
A expressão do Número Treze mudou bruscamente.
— Para mim tanto faz. Afinal, é você quem vive me perseguindo. Não consigo fugir, e também não quero fugir. Se eu tiver de morrer, certamente vou levar você comigo. — Jin encarou o Número Treze com indiferença; seu tom revelava completo desprezo pela vida de ambos.
— Você é realmente corajoso. Nunca ninguém se atreveu a falar comigo desse jeito.
— Nasci assim.
Eles estão brigando?
Takaaki Morofushi ouvira a conversa entre os dois, mas não conseguia distinguir quem era quem, muito menos sabia onde estava naquele momento.
Pelas vozes, os dois não deviam ser muito velhos, mas não era possível ter certeza. Afinal, a voz humana podia variar bastante; havia muitos adultos com vozes infantis e imaturas.
Jin Kurosawa de repente fixou o olhar no copo sobre a mesa de cabeceira.
— Para onde você está olhando? — O Número Treze estava bastante insatisfeito com a sua “distração”.
Jin não respondeu. Tinha certeza de que aquele copo havia “ganhado vida”.
Ele voltou, aquele fantasma.
— Você não percebeu? — perguntou Jin de repente.
— O quê?
Jin observou atentamente o Número Treze, certificando-se de que ele realmente não havia percebido nada.
Aquilo era estranho. Havia muitas pessoas perspicazes na base, e a capacidade do Número Treze não era inferior à sua. Em teoria, aquilo que ele conseguia descobrir também deveria ser percebido pelo outro.
Mas não.
Não apenas o Número Treze; nem mesmo o Número Um ou o instrutor Ganso-Cinza haviam notado.
Somente ele. Só ele havia percebido a existência do fantasma.
No fim das contas, aquilo devia ser um problema psicológico.
Jin respirou fundo e se esforçou para desviar o olhar, evitando encarar o copo.
— Admito que sua reação ficou além das minhas expectativas. Você conseguiu me divertir. — O Número Treze continuava a provocá-lo, com o ar de um gato brincando com um rato.
Jin não disse nada. Apenas moveu o pulso e, de repente, lançou-se violentamente contra o Número Treze.
Num instante, a enfermaria mergulhou no caos. Quando o médico ouviu o barulho e entrou, os dois já estavam com o rosto inchado e coberto de hematomas.
Quando o médico os separou, Jin exalava uma intenção assassina aterradora, enquanto o Número Treze ria — uma risada sinistra, semelhante a um “quiá, quiá”, assustadora ao extremo.
Jin, porém, de repente olhou para o copo sobre a mesa de cabeceira.
Ele havia desaparecido. O fantasma fora embora.
O Número Treze percebeu aquilo, desvencilhou-se bruscamente do médico, correu até a mesa de cabeceira, agarrou o copo e arremessou-o contra o chão. Os cacos de vidro se espalharam por toda parte.
O Número Treze voltou a rir, com uma crueldade venenosa na voz:
— Você se importa com este copo? Não existe mais. Ele se despedaçou.
— Você é doente. — Jin respondeu apenas com indiferença e, obedecendo às instruções do médico, voltou a se deitar.
A risada do Número Treze cessou de repente. Ele olhou, atônito, para Jin e depois para o copo, com uma expressão completamente perplexa.
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Quando terminou o intervalo do almoço, Kansuke Yamato acordou Takaaki Morofushi.
— Takaaki, você finalmente acordou! — Ao vê-lo despertar, Kansuke enfim suspirou aliviado; sua voz chegou a adquirir um leve tom de choro.
— O que aconteceu?
— Eu tentei acordar você várias vezes, mas não despertava! — Kansuke estava desesperado. Se Takaaki não acordasse logo, ele chegaria a pedir que alguém chamasse o professor.
Takaaki apertou a ponte do nariz e o tranquilizou:
— Desculpe. Eu estava dormindo profundamente.
— Desde que você esteja bem…
— O que poderia ter acontecido comigo? Não se preocupe. — Takaaki sorriu para Kansuke.
O sorriso de Takaaki dissipou a sombra no coração de Kansuke. Só então ele relaxou por completo e voltou a se sentar em seu lugar.
O sinal para o início da aula tocou.
Sentado em sua carteira, ouvindo a voz do professor, Takaaki estava, algo raro, distraído.
Não fora um pesadelo. Acontecia naquele mesmo dia, naquele exato momento. Takaaki finalmente percebera isso.
Não era apenas um sonho. Talvez fosse… uma viagem através do tempo e do espaço?
Não era o corpo que atravessava, mas a alma. Quando adormecia profundamente, sua alma viajava para outro lugar.
Ele não sabia onde era, nem se ainda se encontrava no mesmo mundo. Takaaki Morofushi não sabia absolutamente nada. Mas justamente aquele desconhecido despertava seu interesse e fazia com que desejasse espiar, ainda que uma única vez, o outro lado daquele “sonho”.
Ao chegar em casa, Takaaki terminou a lição e entrou no escritório para reconstituir tudo o que acontecera no sonho, escrevendo e desenhando em um caderno.
Adormecer significava atravessar.
Depois da travessia, por não conseguir enxergar, tudo diante de seus olhos ficava mergulhado em trevas.
Ele ouvira a conversa do outro lado: cigarros, treinamento, avaliação final.
E também…
Takaaki escreveu solenemente dois números no caderno: Número Nove, Número Treze.
Em seguida, desenhou uma seta dupla entre os dois e escreveu acima dela: “rivais, inimigos”.
Mas aquilo ainda estava longe de ser suficiente.
Takaaki analisou tudo com seriedade, mas sabia que possuía pouquíssimas informações. Naquele dia, afinal, ouvira a voz do outro pela primeira vez.
Seus olhos brilharam e ele escreveu mais uma frase no caderno:
A diferença de horário não é grande.
Na verdade, não era a primeira vez que ouvia a voz do outro. Havia muitas noites seguidas em que escutava sua voz — ou melhor, sua respiração regular.
Quando adormecia e atravessava para lá, o outro também estava dormindo; era daí que vinha aquela respiração uniforme.
No entanto, ouvir a respiração do outro todas as noites não lhe fornecia informação alguma. Dormir durante o dia poderia causar preocupação nas pessoas, mas e se ele se deitasse mais cedo? Se conseguisse dormir antes, talvez pudesse encontrar o outro ainda acordado.
Sem saber por quê, Takaaki ficou excitado. Para ele, aquilo era uma experiência extremamente nova e chegou a amenizar, por breves instantes, a tristeza pela morte de seus pais.
Nos dias seguintes, Takaaki passou a levar uma rotina extremamente regular: estudava direito durante o dia e, à noite, assim que terminava as lições, adormecia. Cuidava mais da saúde do que um idoso.
Por fim, ele conseguiu esperar.
Pouco depois das oito da noite, Takaaki adormeceu e atravessou para o “outro mundo”.
A luz ainda estava acesa. Só então Takaaki percebeu, atordoado, que a escuridão dos dias anteriores talvez se devesse apenas ao fato de o outro já ter apagado a luz.
Takaaki não conseguia se mover. Só podia observar o pequeno mundo diretamente à sua frente: o cobertor cinzento, porém quente; a estrutura de ferro da cama, pintada com uma camada rudimentar de tinta verde; e…
Um rosto que se aproximou de repente.
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Era um rapaz, provavelmente da mesma idade que ele. Tinha traços muito delicados, e os belos cabelos prateados já estavam um pouco compridos, mas eram penteados com suavidade. À primeira vista, era fácil confundi-lo com uma garota.
Seus olhos, porém, eram frios. Verdes como os de um lobo, fitavam-no sombriamente e lhe davam a sensação de estar completamente desnudado, como se todos os seus segredos tivessem sido descobertos.
Os olhares dos dois se encontraram. Takaaki não ousou sequer respirar. Será que fora descoberto?
No instante seguinte, porém, o rapaz virou-se de lado e lançou a cabeça diretamente contra ele.
Assustado, Takaaki fechou os olhos. Sentiu o impacto, mas era macio e não doía. Só então percebeu, estupefato, que talvez tivesse atravessado para o travesseiro do rapaz.
— Apaguem as luzes.
Depois daquela ordem, a visão de Takaaki mergulhou novamente na escuridão.
Era o Número Nove. Takaaki reconhecera a voz do rapaz.
Tum. Tum. Tum.
O coração de Takaaki batia acelerado. Aquele dia realmente lhe pregara um grande susto. Quando fora encarado, sentira de verdade que seus pensamentos haviam sido completamente descobertos.
Mas como aquilo seria possível? Ninguém imaginaria que havia alguma coisa sobre um travesseiro. Além disso, ele não era um fantasma.
O estado de espírito de Jin Kurosawa também estava longe de ser tranquilo.
Naqueles últimos dias, o fantasma vinha cada vez mais cedo.
No início, quando descobrira sua presença no dormitório, era de manhã. Depois, prestara atenção de propósito e percebera que o fantasma costumava aparecer sempre depois das onze da noite. Mas, durante aquele período, o horário havia mudado para antes das dez. Naquele dia, chegara pouco depois das oito.
Que coisa estranha. Aquele sujeito estava de olho nele? Precisava aparecer ao seu lado de qualquer maneira?
Quando estava no orfanato, Jin ouvira dizer que, ao encontrar coisas como fantasmas, era melhor não demonstrar que conseguia vê-las; caso contrário, o fantasma poderia começar a persegui-lo.
Mas, ainda há pouco, ele e o fantasma haviam trocado olhares.
Jin sentiu um arrepio percorrer o corpo. Não tinha medo de fantasmas, mas a sensação de ter sua privacidade invadida o deixava extremamente desconfortável. Naquele dia, voltara a encarar o fantasma. Será que, dali em diante, ele passaria a persegui-lo ainda mais? Seria o pior cenário possível.
Ele nem sabia se conseguira enganar o fantasma ao fingir que não o vira e simplesmente virar-se para dormir.
Tum. Tum. Tum.
As batidas do coração continuavam, uma após a outra.
A respiração que Jin se esforçara para acalmar foi gradualmente se desordenando. Seus olhos estavam vazios e sem brilho.
Ele estava… ouvindo as batidas do coração do fantasma?
Na manhã seguinte, quando Jin acordou, o fantasma já havia deixado seu travesseiro, como acontecera tantas vezes antes.
Jin soltou lentamente o ar, mas ainda não ousou relaxar. Examinou todo o dormitório com atenção, assustando os companheiros, que fugiram em disparada.
— Irmão mais velho, o que aconteceu? — perguntou o baixinho gorducho com cautela, encolhendo o pescoço, como se temesse apanhar.
— Não é da sua conta.
Jin desviou o olhar, certo de que o fantasma havia ido embora de vez.
No campo de treinamento, o Número Treze não voltou a criar problemas.
Depois de os dois terem ido parar juntos na enfermaria e, mais tarde, brigado algumas vezes ali dentro, pareciam ter entrado em um cessar-fogo tácito e temporário. Afinal, nenhum dos dois queria realmente ser eliminado.
Dessa vez, porém, embora o Número Treze não tivesse provocado Jin, o instrutor Ganso-Cinza já não escondia sua hostilidade.
— Número Nove, venha até aqui. Eu serei seu parceiro de treino. — Ganso-Cinza, a Vodca, tirou o casaco, movimentou os braços e exibiu os sólidos bíceps.
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