22. Dessensibilização
Página (1/3)
— Urgh!
Morofushi Takaaki vomitou de repente.
— Cof, cof... Urgh!
Ele vomitou sem parar dentro do quarto, com a sensação de que até o fel estava prestes a sair.
Aquela carne... aquela carne era...
— Urgh!
Toc, toc.
Alguém bateu à porta.
— Takaaki, o que aconteceu?
— Não... Urgh!
— Vou entrar.
Morofushi Jinkō abriu a porta e levou um susto ao ver Takaaki vomitando. Correu até ele.
— Takaaki, o que foi?
Takaaki acenou repetidamente com as mãos. Naquele momento, não ousava abrir a boca, com medo de voltar a vomitar assim que dissesse qualquer coisa.
— Beba um pouco de água.
Jinkō imediatamente lhe trouxe água morna.
Takaaki tomou um gole, mas pouco depois tornou a vomitar.
Jinkō levou-o ao hospital naquela mesma noite. No entanto, depois dos exames, não encontraram problema algum.
Takaaki sabia disso muito bem. Em silêncio, ouviu o médico explicar a situação ao tio, enquanto aquela extensão vermelha de sangue tornava a surgir diante de seus olhos.
Sentiu vontade de vomitar outra vez.
Dessa vez, porém, conseguiu conter-se à força.
— Tio, eu estou bem.
Depois de reprimir com dificuldade a náusea, Takaaki puxou a roupa de Jinkō e explicou:
— Não foi porque comi alguma coisa estragada.
— Então por que vomitou?
Takaaki baixou a cabeça.
Jinkō agachou-se diante dele e ergueu o rosto para fitá-lo nos olhos.
— Você não pode me contar? Está com uma aparência péssima.
— Não, eu só...
— Quero que venha morar comigo em Tóquio.
Takaaki recusou de imediato:
— Eu não quero...
— Mas eu estou preocupado.
Jinkō interrompeu-o e falou com seriedade:
— Se eu não tivesse ficado, você teria tentado suportar tudo sozinho, não teria? Você é apenas uma criança. Não precisa viver sendo tão forte. Como seu tio, é minha obrigação cuidar de você.
Takaaki fitou o tio atônito, mas baixou os olhos, cheios de resistência.
— Seu corpo não tem problema algum. O problema está na sua mente, não é?
Takaaki abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada.
Jinkō continuou:
— Na verdade, o doutor Kōya acredita que você talvez tenha sofrido dois golpes terríveis. Um deles foi a morte do seu irmão mais velho e dos outros. Eu sei que você nunca conseguiu deixar isso para trás. Mas qual foi o outro? O doutor Kōya não queria que eu tocasse na sua ferida, mas, vendo como você está agora, não posso deixar de perguntar. Takaaki, alguém maltratou você nesse período?
... Não.
Takaaki manteve os olhos baixos. Ninguém o havia maltratado.
Ele apenas... passara por coisas que uma pessoa comum jamais enfrentaria em toda a vida, a tal ponto que, se contasse, pareceria estar inventando uma história.
Não queria falar.
Takaaki não desejava contar a ninguém nada do que vivera no “sonho”.
— O doutor Kōya tinha razão. Você realmente não me contaria. Perguntar só serviria para aumentar sua dor.
Jinkō voltou a se levantar.
— Mas eu vou levá-lo embora daqui.
Página (1/3)
Página (2/3)
— Não faz diferença — disse Takaaki de repente.
— O quê?
— Nada do que aconteceu comigo tem relação com Nagano.
Takaaki ergueu a cabeça e olhou esperançosamente para o tio. Não queria deixar Nagano.
— Takaaki, você precisa entender que isso não é bom para a sua recuperação.
— Então o senhor não acredita no que estou dizendo?
Jinkō franziu a testa. Admitia que Takaaki sempre fora uma criança muito madura e racional, mas, quando uma criança assim se tornava obstinada, era ainda mais difícil lidar com ela.
De repente, percebeu que talvez não fosse tão fácil levar Takaaki de volta a Tóquio.
— Sangue. Eu só tenho medo de sangue.
Depois de dizer isso, Takaaki apertou os lábios até que empalidecessem.
Sangue? Jinkō pensou. Será que era por causa daquele dia...? Quando abrira sozinho a porta de casa, encontrara sangue por todo o chão e os corpos dos pais.
Mas qual teria sido o segundo golpe?
— Seja lá do que você tenha medo, não me sinto tranquilo deixando você aqui sem ninguém para cuidar de você.
— Preciso melhorar o quanto antes — murmurou Takaaki.
Jinkō sentiu-se aliviado. Quando um paciente desejava melhorar e cooperava ativamente com o tratamento, isso certamente seria benéfico para sua recuperação.
Takaaki realmente não conseguia aceitar a si mesmo como estava. Naquelas condições, não só era incapaz de tranquilizar o tio, como também não podia sequer ir até o Número Nove. Se recuasse apavorado toda vez que visse sangue, como poderia acompanhar o Número Nove? E como se tornaria um policial no futuro?
Aquilo não podia continuar. Precisava acostumar-se o quanto antes.
— O transtorno de estresse pós-traumático pode ser tratado por meio de dessensibilização. Com medicação e exercícios voluntários de exposição gradual, posso me adaptar mais depressa — murmurou Takaaki.
— Sim.
— Então, tio, o senhor pode comprar um peixe para mim?
Depois de consultar o doutor Kōya por telefone, Jinkō aceitou o pedido de Takaaki e levou-o temporariamente para casa.
— Amanhã. Amanhã comprarei um para você. Hoje, descanse bastante. Você pode depender um pouco mais dos adultos.
Jinkō acariciou-lhe suavemente a cabeça.
Takaaki respondeu baixinho, mas já planejava como se tornar completamente insensível àquilo.
Comeu alguma coisa leve e dormiu inquieto naquela noite. No dia seguinte, Jinkō realmente foi ao mercado das redondezas e voltou com um peixe para ele.
Olhando para o peixe ainda vivo em suas mãos, Takaaki respirou fundo e pediu uma faca a Jinkō.
— Espere. O que pretende fazer? — perguntou Jinkō, hesitante.
Takaaki pegou a faca e, encontrando o ponto certo, fez um corte no ventre do peixe.
O sangue jorrou. O peixe vivo, tomado pela dor, saltou para o chão. Takaaki também pareceu congelar no lugar, os olhos fixos no animal. Seu olhar entorpecido parecia fundir-se com os olhos igualmente imóveis do peixe.
Jinkō avançou depressa, arrancou-lhe a faca das mãos e repreendeu-o em voz alta:
— Está se forçando demais, Takaaki!
Ele comprara o peixe embora já tivesse imaginado o que Takaaki pretendia fazer, mas não esperava que o menino fosse tão ousado.
— Eu vou matar este peixe. Posso mostrar a você as escamas manchadas de sangue.
Jinkō apoiou Takaaki e conduziu-o para a frente, oferecendo uma alternativa.
De volta à sala, depois de lavar as mãos, Takaaki começou a recuperar o calor do corpo. Ainda assim, balançou a cabeça e recusou:
— Não. Eu quero fazer isso com as minhas próprias mãos.
— Para você, no estado em que está, isso é estímulo demais.
— Mas eu quero fazer com as minhas próprias mãos...
— Por que tanta pressa?
Jinkō irritou-se um pouco e, com o rosto severo, repreendeu-o:
— Não busque a velocidade, nem se deixe seduzir por pequenos ganhos. Quem busca a velocidade não alcança o objetivo; quem se deixa seduzir por pequenos ganhos não realiza grandes feitos. Você já deve ter lido os Analectos. Não entende esse princípio?
Takaaki baixou os olhos para as próprias mãos. Elas já estavam limpas, mas ainda havia respingos de sangue em sua roupa. Só de olhar para eles, seu coração acelerava e uma sensação de rigidez tomava conta de seu corpo.
É claro que entendia aquele princípio.
Mas não podia esperar.
Página (2/3)
Página (3/3)
Se avançasse pouco a pouco, quanto tempo ainda levaria até conseguir adaptar-se completamente? O Número Nove continuava na ilha deserta, e seu tio tirara licença do trabalho para voltar e cuidar dele. Takaaki simplesmente não dispunha de tanto tempo.
Respirou fundo e fez uma profunda reverência diante do tio, com a maior solenidade.
— O que está fazendo?
— Tio, por favor. Enquanto o senhor ainda estiver aqui, talvez eu precise usar métodos mais agressivos para me adaptar depressa. Espero que não tente me impedir. Com o senhor ao meu lado, acredito que nada de mal me acontecerá.
— Posso continuar aqui com você o tempo que for preciso — disse Jinkō imediatamente.
— Não. Ainda assim, quero melhorar o quanto antes.
Jinkō sentiu uma dor de cabeça. Sempre achara Takaaki extremamente maduro, mas, quando uma pessoa madura decidia seguir obstinadamente o próprio caminho, era realmente difícil detê-la.
Naturalmente, a tentativa de matar o peixe no primeiro dia fracassou. Naquela noite, quando Takaaki adormeceu, Jin Kurosawa tomou cuidado para que ele não entrasse em contato com nada ensanguentado, e o menino conseguiu dormir bem.
No segundo dia, tentaram matar outro peixe.
Takaaki segurou a faca e esforçou-se para superar aquele obstáculo, mas não conseguiu ir além da metade.
O suor frio brotou-lhe na testa. Seu corpo inteiro pareceu cair num abismo de gelo. Quando Jinkō o abraçou, teve a sensação de estar segurando um bloco de gelo.
Terceiro dia. Quarto dia...
Somente no quinto dia Takaaki conseguiu, pela primeira vez, preparar um peixe inteiro.
O peixe já estava morto. Era apenas um peixe, mas ele levara mais de duas horas para matá-lo.
As roupas de Takaaki estavam completamente encharcadas de suor frio. Respingos de sangue haviam se espalhado por toda parte, chegando até mesmo ao seu rosto. Quando passou a mão sobre ele, acabou transformado numa verdadeira máscara manchada.
Aquilo era, sem dúvida, um avanço extraordinário. Jinkō tratou o peixe com alegria e, durante a refeição, Takaaki teve uma reação bastante tranquila. Parecia já ter se acostumado.
— Você realmente me surpreendeu.
Jinkō serviu-lhe outra tigela de sopa de peixe e disse, satisfeito:
— Se eu estivesse no seu lugar, provavelmente não conseguiria me adaptar tão depressa.
— Eu também não me adaptei completamente. Afinal, era apenas um peixe.
Takaaki sorriu e disse a si mesmo, no fundo do coração, que aquilo era apenas um tigre.
Naquela noite, todos haviam matado apenas um tigre, um tigre que nada tinha a ver com ele.
Como se finalmente tivesse voltado à vida, Takaaki enfim conseguiu respirar aliviado. Então começou a perguntar pelo irmão mais novo:
— Tio, o senhor não voltou para casa estes últimos dias. Será que Kage vai desconfiar de alguma coisa?
— Não. Eu disse a ele que precisava viajar a trabalho.
Jinkō jamais poderia contar a Kage o que havia acontecido. Isso apenas faria o menino se preocupar sem necessidade.
— A afasia dele melhorou?
— Ainda não há sinais de melhora. Estou pensando em transferi-lo para outra escola.
Takaaki ficou atônito. Logo depois, assumiu uma expressão séria e perguntou:
— Estão maltratando-o?
Jinkō não respondeu, mas o silêncio já dizia tudo.
Um aluno recém-transferido, além de ser um “garoto mudo”, como poderia não sofrer maus-tratos numa escola onde ninguém o conhecia?
Takaaki ficou muito preocupado. Enquanto a afasia de Kage não melhorasse, provavelmente continuaria sendo tratado com frieza mesmo depois da transferência.
— Amanhã, que tal tentarmos outra coisa? — sugeriu Jinkō, mudando o assunto à força. Não queria que Takaaki se preocupasse demais. Uma criança não deveria carregar a responsabilidade por outra.
— Então o senhor poderia comprar uma galinha?
Takaaki fingiu não entender a intenção do tio e perguntou com um sorriso.
— Está bem. Com certeza.
O assunto não voltou à mesa de jantar, mas, à noite, impediu Takaaki de dormir.
... Kage.
Seu irmão talvez estivesse enfrentando uma onda de perseguição e humilhação, enquanto ele não conseguia fazer nada para ajudá-lo.
Página (3/3)