Capítulo 9

Você é mais bonita que Pequim Alvorada de Setembro 3540 palavras 2026-07-31 03:29:41

Uma refeição inteira se passou num clima nem frio nem calor. A conversa foi, no máximo, correta; ficou muito longe de ser animada.

Li Li tentou várias vezes, em segredo, puxar assunto para Wei Qiuzi, mas sem grande efeito. A própria Wei Qiuzi também tinha plena consciência disso e, assim que terminou a sobremesa, pediu licença para ir embora com toda a educação.

Na hora de pagar, porém, quem não arcou com a conta foi Lu Linjia; o garçom trouxe o cartão de crédito de Han Ting.

Quando o cartão e a conta voltaram, Wei Qiuzi perguntou de repente:
— Dá para emitir recibo?

Depois olhou para Lu Linjia:
— Vocês precisam de recibo?

Lu Linjia balançou a cabeça e, pedindo opinião, olhou para Han Ting. Ele sorriu de leve.
— Não precisa.

— Então, obrigada. — Wei Qiuzi puxou um guardanapo, escreveu duas linhas e o entregou ao garçom. — Desculpe o incômodo.

Ji Xing sentiu-se inexplicavelmente constrangida; será que Qiuzi, já sem esperança, tinha resolvido desistir de vez? E, ainda assim, estava aproveitando recibos num lugar daqueles.

No intervalo em que a conta era resolvida, o celular de Han Ting vibrou. Zeng Di enviara uma foto: o carro dele na garagem subterrânea do hotel, acompanhada de uma mensagem: “Você está aí?”

Han Ting não respondeu.

Quando o garçom trouxe o recibo, os quatro se levantaram para sair.

Han Ting viu Zeng Di sentada junto à janela, com um longo vestido vermelho, olhando-o e sorrindo.

As moças já tinham mudado de direção e se afastado um pouco, sem perceber.

Han Ting as acompanhou até a porta do elevador e disse que havia encontrado um amigo, por isso não as acompanharia mais.

Wei Qiuzi sorriu:
— Tudo bem. Obrigada pela recepção hoje.

— Não há de quê. — Ele sorriu de leve e então disse a Lu Linjia: — Leve-as de volta.

Lu Linjia concordou.

Ji Xing ficou no elevador olhando para Han Ting. O olhar dele passou por seu rosto; quando os olhos dos dois se encontraram, ele assentiu de leve em despedida. As portas do elevador se fecharam.

Lá embaixo, Ji Xing disse que voltaria para a empresa para fazer horas extras; dava para ir a pé. Li Li disse que iria até a casa de Ji Xing para conversar um pouco, tentando deixar espaço para Wei Qiuzi. Mas Wei Qiuzi também quis ir com elas.

Lu Linjia não insistiu e foi embora sozinho.

Todos diziam, por educação, que se veriam da próxima vez, mas ninguém trocou contatos.

Quando os outros se foram, Li Li olhou para Wei Qiuzi, irritada:
— O que foi isso? Dei a você uma chance e você nem deixou o cara te acompanhar?

Wei Qiuzi forçou um sorriso:
— Deixa pra lá. Eu sinto isso; ele não gosta de mim.

— Uma única vez não decide nada. Se achou que ele é bom, vai atrás. Pelo menos crie oportunidade.

— Esquece. O homem é bonito e jovem; vai saber se, no fundo, não está reclamando de mim por eu ser feia e velha.

Ji Xing viu que o sorriso de Qiuzi já estava ficando duro no rosto e lançou um olhar para Li Li, pedindo que se calasse.

Mas Li Li era do tipo que falava sem filtro e não conseguia se segurar:
— Falar assim não tem graça nenhuma. Se quer arranjar namorado, então não seja covarde. Ainda por cima eu larguei o trabalho inacabado para vir te dar coragem.

— Pronto, não foi em vão. — Ao dizer isso, Wei Qiuzi enfiou um monte de coisas na mão de Li Li e disse a Ji Xing: — Você não precisa, então não vou te dar.

Depois, enrolou o cachecol e foi embora.

Li Li baixou a cabeça e viu: eram mais de dez recibos, cada um de mil.

Ji Xing era da área técnica, não tinha muitas confraternizações e não precisava de recibos. Li Li era diferente; trabalhava com marketing e, para manter o relacionamento com clientes, além de levar pessoas para jantar, ainda precisava dar presentes. Só que presentes não tinham um canal razoável de reembolso, e, com o tempo, ela acabava tendo de pagar do próprio bolso. No meio e no fim do ano, era justamente quando mais faltavam recibos.

Na vez em que saíram para beber, Li Li já tinha reclamado: naquele ano, tinha mais de dez mil de despesa do próprio bolso e estava quase enlouquecendo.

Wei Qiuzi tinha até escrito no guardanapo para o garçom emitir vários, porque, na empresa de Li Li, o valor reembolsável por recibo de alimentação não podia passar de mil.

Li Li ficou parada na rua, boquiaberta, olhando aqueles mais de dez recibos na mão, demorou alguns segundos para reagir e então correu atrás de Wei Qiuzi.

Caminhou ao lado dela e resmungou baixinho:
— Agora o limite por recibo já subiu para dois mil, sabia?

— Então me devolve! — Wei Qiuzi tentou pegar de volta, mas Li Li os enfiou depressa na bolsa. — Já deu para alguém, existe essa de querer de volta?

Ji Xing continuou em silêncio; na cabeça dela, era como se tivesse levado uma pancada: aquela refeição custara mais de dez mil? Quase o salário de meio mês dela.

O vento frio soprava, e as três avançavam lado a lado, sem dizer nada, seguindo pela avenida iluminada, enquanto os carros rugiam sobre o viaduto.

Só quando o fluxo de veículos lhes bloqueou o caminho é que pararam, quase ao mesmo tempo, na beira da calçada, fitando distraídas o entroncamento e os prédios de escritórios do outro lado do viaduto.

Passado um bom tempo, Ji Xing assentiu com firmeza e disse:
— Eu sou pobre. Preciso ganhar dinheiro.

Li Li lançou-lhe um olhar leve:
— Eu já tinha chegado a essa conclusão faz tempo. Só você descobriu isso hoje?

Ji Xing virou o rosto; a luz dos faróis correu pelo seu perfil e ela sorriu, com uma ponta de autodepreciação:
— Sempre achei que eu era de elite, mas, no fundo, não passo de uma funcionária comum, me matando de trabalhar para virar classe média. Elite? Ainda está muito longe.

— Me digam, como pode haver uma distância tão grande entre as pessoas? É isso que chamam de classe?

Li Li não soube responder e virou-se para Qiuzi:
— Chefe Wei? Você fala.

Qiuzi puxou uma lufada do ar frio da noite e suspirou:
— A gente não pode ficar parado no meio da avenida? Está frio demais!

As três desceram na estação de metrô e atravessaram pelo túnel subterrâneo até o outro lado da rua.

Dentro da estação, muitos trabalhadores voltando para casa depois de um dia atarefado esperavam na fila da segurança para pegar o metrô.

As roupas deles eram, ora simples e apropriadas, ora limpas e bem cuidadas, ora elegantes e pensadas com esmero; nos rostos, havia expressões relaxadas, ansiosas, tranquilas ou abatidas. Alguns ouviam música com fones, outros olhavam o celular e enviavam mensagens; uns conversavam, outros riam.

Era assim a maior parte dos funcionários comuns desta cidade: gente que não podia pagar um jantar de dez mil, correndo atrás de salários de alguns milhares, às vezes de dez mil por mês.

Ao atravessar entre eles, o humor de Ji Xing, sem que percebesse, amainou um pouco.

Quando saíram do túnel e chegaram ao lado norte da rua, o viaduto e o hotel ficaram para trás.

O vento frio bateu em cheio e clareou a mente.

No meio do caminho, encontraram uma banca que vendia batata-doce assada, e Ji Xing correu para comprar.

Li Li franziu a testa:
— Acabamos de jantar!

Não conseguiu impedi-las; Ji Xing e Qiuzi já estavam ao redor do forno, escolhendo as batatas:
— Não quero as gordas, quero as finas; as finas é que são gostosas.

Depois de comprar as batatas-doces, entraram numa cafeteria à beira da rua, pediram três cafés e ainda pegaram pratos e pequenas colheres emprestados do garçom para comer a batata.

Li Li disse que não queria, que ia emagrecer.

Ji Xing não insistiu; comeu satisfeita e perguntou:
— E então, o que vocês acham daquele Han Ting?

Li Li desamarrou o cachecol Burberry que estava no pescoço:
— O que quer dizer “o que acho”?

— Eu achei ele muito bom. Combina com você. — Wei Qiuzi se intrometeu. — Você não tem interesse nele?

— Homens daquele tipo são difíceis de resistir, para qualquer mulher — disse Li Li. — Mas eu só admiraria. Não teria outros pensamentos. Um homem desses, de cara, já dá para ver que é complicado.

— É mesmo? — Ji Xing e Qiuzi mostraram dúvida.

— Acreditem no meu olhar. Esse homem é extremamente profundo, e não de um jeito comum. Vocês não perceberam? Em toda a refeição, não conseguimos arrancar dele nem uma informação. Nem sequer uma opinião pessoal ele expressou.

Ji Xing pensou um pouco e viu que era verdade.

Li Li, por profissão, costumava sondar o fundo das pessoas e até lançava frases bastante radicais para provocar discordância e fazer o outro revelar o que pensava de verdade, mas Han Ting não mordeu a isca. Quem acabou engolindo o anzol, toda boba, foi Ji Xing, despejando um monte de coisas. E ele se esquivou tudo com um simples “penso o mesmo”.

Só então Ji Xing percebeu: diante de Han Ting, ela tinha parecido uma idiota.

— Além disso — continuou Li Li —, pessoas excepcionalmente brilhantes são todas extremamente egoístas. Claro, esse “egoísta” não é um termo pejorativo. Só que eu já sou egoísta o bastante; se ainda encontro alguém mais egoísta do que eu? Nem pensar.

Ji Xing refletiu mais um pouco e entendeu, em linhas gerais, o que ela queria dizer.

Quanto mais excelente a pessoa, mais forte sua consciência de si, e mais difícil se torna ceder e se moldar aos outros. Mas, na geração jovem de agora, os temperamentos são mais diversos do que nunca; quem não cresce cheio de espinhos, com personalidade à flor da pele? Naturalmente, os que se encaixam de modo perfeito talvez sejam poucos.

Qiuzi suspirou:
— Então é isso… encontrar a pessoa certa para si é mesmo difícil demais.

Virou-se para Ji Xing:
— No fim das contas, a sortuda aqui é você.

— É mesmo. — Ji Xing não conteve um sorriso largo e disse ainda: — Mas você também não precisa ficar triste. Você é tão boa, vai encontrar alguém.

Qiuzi suspirou de leve:
— Na verdade, eu não exijo muito. Registro, casa, dinheiro... isso tudo não importa. Desde que a conversa flua e ele seja bom para mim, basta.

Olhou para Li Li:
— Não ria de mim por eu ser sem ambição. Eu só quero um namorado e companhia; eu realmente espero uma vida a dois. Ficar sozinha é solitário demais. Repetir todos os dias a ida no metrô e voltar para casa tarde da noite, sem saber qual é o sentido de viver assim… Eu não quero me tornar apenas um pano de fundo frio nesta cidade. Também quero a minha própria história. Li Li, sinceramente, você não se sente sozinha?

— Sinto solidão, mas também não quero namorar. — Li Li pegou, sem pensar, a colherzinha para comer a batata-doce e disse: — Tola… tristeza e solidão não se resolvem namorando.

Qiuzi ficou pensativa.

Li Li acrescentou:
— E, para mim, manter um relacionamento estável entre homem e mulher consome energia demais. É cansativo. Eu ainda prefiro ficar solteira, livre e sem peso. Eu só quero trabalhar bem e ganhar mais dinheiro. Quando se tem dinheiro suficiente, a vida ganha mais liberdade e mais escolhas. Homem não me dá segurança nem felicidade; dinheiro dá. E tem de ser dinheiro que eu mesma ganhei.

— Eu também. — Ji Xing levantou a colherzinha em concordância.

— É o quê? — disse Li Li. — E aquele Shao Yichen não existe?

— Ele existe. — Ji Xing sorriu. — Mas eu nunca pensei em depender dele, nem em virar parasita. Eu quero ser esse tipo de pessoa que, ao namorar, se entrega por inteiro, mas que, mesmo que um dia termine com o homem, não sente que o mundo acabou.

— Aham, você só fala bonito. — Qiuzi a desprezou. — Na época da escola, quando brigava e ameaçava terminar, chorava como se fosse morrer.

— Agora eu sou independente, de verdade! — Ji Xing protestou, corada; depois pensou melhor e achou que aquilo não estava certo. — Não, não, não. A gente não vai terminar. Vamos ficar sempre juntos.

— Tsc, tsc, começou de novo.

— Ei, estou falando sério, muito sério.

Ela estava realmente certa. Certa de que ela e Shao Yichen ficariam juntos para sempre. Naquele tempo, a segurança e o amparo que aquele amor lhe dava, a confiança e a firmeza que ele lhe dava, eram sem precedentes. E, mais tarde, ela nunca voltaria a ter aquilo.

As pessoas costumam confiar demais no que têm; ela achava que, no futuro, teria muito amor.

Só que, naquele momento, não imaginava que, muitos anos depois, sempre que o assunto fosse amor, lhe restaria apenas o silêncio.