Capítulo Três: Renascimento Surpreendente Primeira Parte
O vento outonal traz frescor, marcando a idade de ouro do ano, quando chega a estação das colheitas. Nessa época, sempre há alegria e um aroma de felicidade no ar.
Neste dia, o céu estava claro e ensolarado, e a Festa da Colheita de Jiyang, no continente de Qizhou, estava prestes a começar.
Curiosamente, normalmente, quando o outono se aproxima, as famílias estão ocupadas colhendo seus grãos, batendo arroz, sem tempo para pensar em festividades. Porém, no continente de Qizhou, existe uma tradição peculiar: não se sabe quem criou essa regra, mas, após a abundante colheita, todas as casas devem primeiro dedicar um dia à veneração do Deus Qi antes de iniciar a colheita dos cereais.
Essa tradição tem suas origens em um evento estranho de alguns séculos atrás. Naquele tempo, quando todas as famílias do continente de Qizhou preparavam-se para homenagear o Deus Qi, algo terrível aconteceu. As estátuas do Deus espalhadas por todo o continente explodiram repentinamente, transformando-se em névoa e dissipando-se ao vento. E naquele mesmo dia, a terra tremeu violentamente, mergulhando os habitantes em pânico.
O medo provocou caos, e assim, o continente de Qizhou caiu numa era de trevas, onde o massacre e a crueldade imperavam, e não havia justiça nem mal, apenas uma escuridão sanguinária. Esse período ficou conhecido entre os habitantes como a Era Negra, onde o homem matava o homem sem distinção.
Ninguém sabe quanto tempo passou, talvez cem anos, até que o horror começou a se dissipar lentamente. Não se sabe quem foi, mas, em meio ao medo e à violência, alguém decidiu não venerar, e, ao invés disso, celebrou o festival, tocando tambores e soltando fogos de artifício, trazendo alegria à celebração. Isso surpreendentemente funcionou, estabilizando seu espírito.
Assim, a notícia se espalhou rapidamente, e aos poucos, o continente foi salvo, superando aquela época de pânico e sangue, conhecida por todos como o período de trevas e terror.
A Festa da Colheita, então, foi preservada como um milagre!
A tradição permaneceu, mas agora o festival ocorre apenas dois ou três dias após o fim do trabalho agrícola.
Jiyang!
Aqui também, todos os anos, quando chega esse festival, as famílias ao redor da Montanha Tianfeng, por centenas de quilômetros, estão tomadas pela alegria da colheita.
Grandes proprietários, pequenos agricultores ou até mesmo os camponeses mais pobres, todos se encontram com sorriso no rosto, trocando gentilezas nesta época.
Crocitar! O som de pequenos passos ecoa pela estrada!
À frente, uma jovem de treze ou quatorze anos vira-se e grita: “Vovó Wu, apresse-se! Se demorarmos, não veremos a grande peça de teatro da Vila Li!” Sua voz ansiosa parecia apressar quem vinha atrás.
“Pra que tanta pressa, menina Yunzhu! A peça ainda vai começar,” respondeu, com um sorriso, uma mulher de cerca de cinquenta anos.
“Mas eu estou ansiosa!” Yunzhu parou, olhando para a vovó Wu.
Nesse momento, vovó Wu alcançou-a, ficando lado a lado com Yunzhu, caminhando juntas.
“Vovó Wu, o que está acontecendo com a irmã Ru? Uma peça tão boa e ela não vem, nem sai de casa para celebrar o festival.”
Vovó Wu, sorrindo, respondeu: “Você não entende, menina. Ru está de mau humor ultimamente, fui eu que pedi para ela ficar em casa e descansar.”
“Ah! Então foi a senhora, que coisa,” disse Yunzhu, rindo alto e correndo à frente.
“Menina sem modos,” resmungou vovó Wu, mas logo voltou ao seu estado alegre, apressando-se atrás da garota.
No grande templo da Vila Li, o som do antigo guqin ressoou, seguido pelo estrondo dos tambores, e a peça de teatro teve início.
“Vovó Wu, eu disse para apressar! Olhe, já começou,” disse Yunzhu, ofegante.
“Menina, pra que pressa?” vovó Wu continuava caminhando, resmungando.
“Como não? Já não há lugar!” Yunzhu, sem ver o palco, ficou ainda mais ansiosa.
“Calma, menina, fique na ponta dos pés e verá! Venha comigo,” disse vovó Wu, puxando a mão de Yunzhu, atravessando a multidão, desviando e abrindo caminho até o interior.
O tempo passou rapidamente, e logo encontraram um lugar especial, numa tábua estreita sobre um declive, ligeiramente saliente. Uma ponta da tábua estava suspensa, a outra apoiada sobre terra e encaixada na parede lateral, sob o telhado.
Aquele lugar não era adequado para um homem adulto, pois seria perigoso, e mesmo uma mulher adulta correria riscos, por isso ninguém se atrevia a sentar ali.
Yunzhu percebeu que estava vazio e imediatamente se apressou, contente: “Vovó Wu, você dentro, eu fora!”
“Calma, calma! Menina louca! Eu entro primeiro, depois você,” vovó Wu segurou Yunzhu e, após limpar a terra, sentou-se.
Yunzhu, sem cerimônia, sentou-se rapidamente, enquanto vovó Wu resmungava: “Menina, devagar! Não tem noção!” O som do guqin voltou, e a peça de teatro prosseguiu.
A música e o estrondo dos tambores animavam o público, que ovacionava com entusiasmo. Yunzhu, fascinada, acompanhava com murmúrios de aprovação.
“Vovó Wu, mal consegui ver o início! Como sabia desse lugar?” Yunzhu, cheia de curiosidade e um pouco de ciúmes, virou-se para vovó Wu.
“Menina, eu conheço essa montanha Tianfeng há anos! Já vi de tudo por aqui. Pergunte no vilarejo Wu, todos sabem que vovó Wu é a melhor parteira da região...”
Vovó Wu resmungou e continuou: “Conheço esse lugar desde jovem, todo ano venho aqui, mas ano passado alguém ocupou. Este ano, não sei se foi sorte ou outra razão, está vazio.”
Após um suspiro, acrescentou: “Assistir à peça? O início é só um aperitivo, o essencial é o meio e o final. Hehehe,” e riu.
“Sim, vovó Wu, você é incrível!” Yunzhu virou-se, fazendo uma careta.
“Menina danada,” vovó Wu riu alto, mergulhando em alegria indescritível.
Ao som dos tambores, a peça chegou ao meio, já próximo ao meio-dia, enquanto todos se divertiam.
Nesse momento, houve uma pequena mudança no céu, despercebida por muitos: parecia uma bola de luz, ou talvez não. Era tão discreta e veloz que se fundiu instantaneamente ao mundo.
Ouviu-se um estrondo, e o continente de Qizhou tremeu ligeiramente, abalando todos os seres deste mundo.
A tremor foi rápida, sumindo tão rápido quanto veio, seguida por um som súbito, como um resmungo, que desapareceu.
Apesar de breve, para o público, foi marcante. Alguns, assustados, ajoelharam-se em seus lugares e no altar do templo, implorando por clemência divina.
A peça parou.
“Ó Deus do Céu, proteja-nos! O que está acontecendo? Será que as lendas eram verdadeiras?” Vovó Wu segurou Yunzhu, que quase caiu, e orou trêmula.
Yunzhu, assustada, ficou sem palavras.
Então, alguém tocou o tambor novamente, despertando os presentes.
Em meio à multidão, alguém gritou: “Não virei um demônio! Deus do Céu nos protege, haha!” Após esse grito, os agradecimentos ao céu ecoaram, cada vez mais intensos.
Vovó Wu e Yunzhu, ainda abaladas, também oraram em silêncio.
“Yunzhu, ao voltarmos, devemos agradecer novamente ao Deus do Céu.”
“Sim, vovó Wu!” respondeu Yunzhu. A peça recomeçou, continuando até que o sol se pôs, tingindo o céu de vermelho.