Capítulo Um: Peço que deixe a família Feng
— Ei, você aí, mendigo! Estou falando com você!
Na Mansão Mar do Fumo, um guarda olhava para um jovem vestido com roupas baratas e gritava em alto e bom som. De imediato, todos os olhares se voltaram para aquele ponto. Era um rapaz de menos de vinte anos, vestindo uma camiseta vinho, uma calça jeans desbotada e sapatos de pano.
Embora parecesse pobre, não era realmente um mendigo; o guarda claramente estava zombando dele.
— Mais um louco querendo enriquecer! — comentou alguém.
— Veja só, os jovens de hoje em dia, não dá pra confiar!
Afinal, onde estavam? Na Mansão Mar do Fumo, lar do homem mais rico do Norte do Rio, Chen Yunsheng. Diariamente, inúmeros visitantes vinham tentar uma audiência com o senhor Chen, quase sempre pessoas de algum status ou com êxito nos negócios.
Mesmo assim, o senhor Chen raramente recebia alguém, e conceder conselhos era ainda mais raro. Então, como poderia um jovem pobre vir buscar orientação aqui?
— Saia daqui! — O guarda, vendo o rapaz se aproximar, franziu o cenho e estendeu a mão para empurrá-lo.
Nesse momento, um homem de meia-idade vestindo uma túnica tradicional surgiu do outro lado, notando a cena. Seu rosto mudou subitamente de expressão e, apressado, foi até a entrada.
— O que está fazendo? Não vai logo convidar o senhor Feng a entrar?
O guarda ficou boquiaberto, sem saber o que fazer, e o homem de túnica abriu a porta da mansão, ordenando:
— Leve o senhor Feng para ver o mestre!
O guarda ficou alarmado: hoje o senhor Chen havia dito que não receberia ninguém, e todos os poderosos do Norte do Rio estavam barrados do lado de fora. Como ele deveria levar aquele jovem para ver o magnata?
Rapidamente, o guarda conduziu o rapaz até o senhor Chen. Ao vê-lo, o velho de cabelos e barba brancos ficou visivelmente emocionado e se levantou de imediato.
— Os empregados não lhe fizeram nada, espero?
— Foi tranquilo, apenas alguns. — Feng Yang respondeu pausadamente, lançando um olhar significativo ao guarda, que imediatamente começou a suar em bicas.
Afinal, ele acabara de insultar aquele jovem, chamando-o de mendigo!
— O que houve? — O rosto do senhor Chen se fechou.
— Nada demais, alguns sabem bem o que fazer. — respondeu Feng Yang, suavemente, aliviando o guarda, que agora sentia uma gratidão imensa. Ele havia entendido bem o olhar de Chen: se o jovem falasse a verdade, estaria em apuros!
Ao sair do quarto, o guarda ainda estava atordoado. Quem era aquele rapaz, para receber tanta atenção do magnata?
Ele precisava descobrir tudo sobre ele o quanto antes!
— Mestre, sua lesão está curada? — Quando o guarda saiu, Chen Yunsheng não conseguiu conter-se e, ansioso, aproximou-se de Feng Yang.
— Praticamente. — respondeu Feng Yang, com o olhar atento.
— Cinco anos, cinco anos inteiros!
Cinco anos, para um cultivador, passam num piscar de olhos, mas para um homem comum, são uma eternidade. Cinco anos atrás, Feng Yang cortou seus três corpos, consolidou as três flores e alcançou o nível celestial. Mas no instante da ascensão, a calamidade caiu, destruindo suas flores do topo. Ele sobreviveu por um triz.
Durante todo esse tempo, sofria dores terríveis, seu corpo mais fraco que o de um homem comum. Agora, finalmente, estava prestes a se recuperar.
— Mestre, o senhor vai reunir os discípulos novamente? — perguntou Chen Yunsheng com expectativa.
— Não tenha pressa, ainda não é o momento. — Feng Yang acenou, desviando o olhar.
— Acabei de reorganizar meus meridianos, perdi muito poder, estou longe de competir com aquelas famílias. Suspeito que aquela calamidade, o raio da extinção das nove voltas, não era algo deste mundo.
— Mestre, então qual o motivo de sua visita? — Chen Yunsheng estava confuso.
— Vim por dois assuntos. Dentro de um ano, encontre a erva das três vidas para mim. Quando minha técnica atingir o sexto nível, reunirei as três flores, retornarei a Lingjing e ajustarei as contas!
Chen Yunsheng ficou radiante, juntando as mãos em reverência. Ele esperava por essas palavras há muito tempo.
— Sim, senhor!
— Há mais uma coisa: Feng Tianwen faleceu. Ajude a cuidar da família Feng.
— Mestre... já que reorganizou os meridianos, por que não fica por aqui? Assim seria mais prático para quaisquer necessidades. — hesitou Chen Yunsheng.
— Já fui filho bastardo por cinco anos, não vou me importar com mais esse tempo. — Feng Yang sorriu, despreocupado.
— Na época, foi o velho Feng quem me arrastou do monte quando estava gravemente ferido. Prometi proteger a família Feng.
— Sim, senhor! — Chen Yunsheng se curvou.
...
— Irmão Tao, será que devemos mesmo fazer isso? — No pátio da família Feng, alguns jovens de camisa estavam reunidos. O menor deles olhou para o rapaz de aparência delicada no centro, e os que carregavam cobertores e potes também voltaram o olhar.
Ao ouvir o questionamento de Feng Chu, Feng Tao respondeu:
— Qual o problema? Se algo acontecer, eu assumo. O velho morreu, e aquele Feng Yang não tem mais quem o proteja!
Com essas palavras, ele fez um gesto:
— Joguem tudo fora!
— O que estão fazendo? — Nesse momento, uma voz ecoou. Feng Yang aproximou-se.
— Ora, Feng Yang, chegou na hora certa. De hoje em diante, saia da família Feng!
Feng Tao disse friamente ao vê-lo.
— Está me expulsando?
— Que pergunta idiota! — mal Feng Yang terminou, Feng Chu resmungou.
— Olhe para si, não sei o que o velho pensava, ao permitir que você voltasse à família. Onde você se parece com um Feng?
— Não é você quem decide. O velho disse que sou da família Feng, então sou.
— Besteira! Você é um bastardo, talvez nem isso. — Feng Tao começou a bradar, mas mal terminou, foi agarrado pelo pescoço.
— Feng Yang, o que está fazendo?
— Solte o irmão Tao!
Os membros da família Feng ficaram desnorteados; ninguém esperava que Feng Yang agisse assim.
— Se não fosse pelo velho, já teria acabado com você! — A mão de Feng Yang apertava com força, dificultando a respiração de Feng Tao, cujo rosto ficou amarelado. Feng Yang olhava com frieza, e Feng Tao começou a sentir medo.
— O velho mal foi enterrado e vocês já estão brigando? Querem que ele saia do caixão?
— Saio da família Feng quando quiser; se não quiser, ninguém me expulsa!
Um bando de inúteis!
Com um movimento, jogou Feng Tao ao chão, lançou um olhar frio aos demais e saiu andando. Todos pensavam que ele era filho bastardo de Feng Tiancheng, mas ninguém sabia que, na verdade, não tinha vínculo algum com a família Feng.
Cinco anos atrás, após falhar no ritual, Feng Tiancheng o salvou. Para se recuperar e pagar a dívida, Feng Yang ficou na família como filho ilegítimo.
Feng Tiancheng sabia bem: se Feng Yang partisse, a família Feng estaria perdida!
Entre os jovens da terceira geração, nenhum compreendia o que realmente importava.
— Irmão Tao!
— Está bem?
Os jovens ajudaram Feng Tao a levantar-se.
— Saiam daqui, bando de inúteis! — gritou Feng Tao, irritado. Feng Yang era muito estimado por Feng Tiancheng, que até planejava torná-lo herdeiro. Isso o apavorava, por isso, após a morte do velho, quis expulsar Feng Yang.
Mas falhou, e não estava preparado para o confronto.
— Irmão Tao, ninguém imaginava que aquele rapaz, tão quieto, tivesse tanta força... — lamentou Feng Chu. Normalmente, Feng Yang parecia frágil, ninguém esperava tamanha firmeza hoje.
— Irmão Tao, quer que eu chame alguns para dar uma lição nele? — sugeriu Feng Chu novamente.
— Não precisa. — Feng Tao cortou, com desdém nos olhos.
— Aquele garoto acha que vai continuar desfrutando do luxo da família Feng? Ridículo! — cuspiu, e prosseguiu:
— Ele deveria olhar para si mesmo. Com esse jeito, ainda quer disputar a posição de herdeiro comigo?
A verdade é que Feng Yang só tinha proteção enquanto o velho estava vivo. Agora, como bastardo, que direito tem de se impor diante de mim?