Capítulo Dezoito: Desculpe, mas eu tenho!
Mesmo já tendo partido, ainda assim deixou uma impressão tão forte nos dois porteiros que, se Feng Yang soubesse disso, provavelmente apenas sorriria com indiferença. Ele não se importava com pessoas tão insignificantes; na verdade, nem mesmo a família Feng lhe interessaria, a menos que insistissem em cavar a própria cova. Afinal de contas, foi graças a Feng Tianwen que, quando estava gravemente ferido, pôde ser resgatado — uma dívida de gratidão imensa!
Caminhou um pouco pela rua, sentindo o calor, foi até uma loja comprar uma garrafa de água e a bebeu com gosto, aproveitando para sentar-se à beira da calçada por alguns instantes.
Enquanto isso, do outro lado da rua, duas figuras femininas se aproximavam lentamente. Uma delas, à esquerda, usava saltos altos azul-celeste, uma minissaia preta de cerca de vinte centímetros e, acima, uma camisa de renda branca, tudo combinado com um rosto de traços levemente altivos. Contudo, naquele momento, a dona daquele rosto franzia a testa, lançando um olhar de desaprovação para a amiga ao seu lado.
— Jiuyue, por que você quis me arrastar para a rua num dia tão quente? Vou acabar ficando bronzeada!
Enquanto reclamava, vasculhava cuidadosamente a bolsa pendurada no braço direito até encontrar um espelho, no qual passou a se examinar com apreensão.
Ao ver a cena, a moça à direita, vestida com uma blusa de alças que deixava o umbigo à mostra, botas de couro e exibindo pernas brancas e bem torneadas, sorriu com malícia.
— Ora, só quis te tirar de casa para espairecer um pouco. Ouvi dizer que você terminou com o jovem Feng recentemente, não foi?
— Jovem Feng? Que nada! — Li Mingyue franziu ainda mais o cenho e respondeu com desdém. — Naquela época, só porque Feng Tianwen o protegia, achei que ele poderia ser o futuro chefe da família Feng. Mas agora vejo que não passa de um vira-lata!
— Pois é, Mingyue, eu disse que você não devia ter aceitado aquele noivado. Agora que está tudo bem, vamos às compras? Acabou de abrir uma loja de roupas nova que eu quero te mostrar...
Qiu Jiuyue falava animada, mas ao notar que Li Mingyue parecia distraída, olhando para longe, sua curiosidade a levou a seguir o olhar da amiga — e, assim que viu, ficou boquiaberta.
— Mingyue, não é ele...?
Antes que pudesse terminar, Li Mingyue já atravessava a rua decidida.
— Ora, ouvi dizer que você foi expulso da família Feng recentemente, não é?
Ao chegar do outro lado, fixou o olhar em Feng Yang, e um sorriso se desenhou nos lábios.
— É você? — Feng Yang, que já ouvira passos se aproximando, não deu muita importância, absorto que estava em seus pensamentos sobre alquimia. Só ao levantar o olhar percebeu que a figura diante de si era ninguém menos que sua ex-noiva, Li Mingyue.
— Ora, Feng Yang, desde que saiu da família Feng, não tem nem o que comer? Acabou recorrendo ao lixo para sobreviver? — zombou Li Mingyue.
Lixo? Feng Yang ficou surpreso. Li Mingyue devia estar delirando. De onde ela tirou isso?
— Quer que eu te arrume um emprego? Afinal, já fomos noivos, e te ver assim pode fazer as pessoas pensarem que não tenho bom gosto — acrescentou ela, com um olhar cada vez mais carregado de desprezo.
No fundo, Li Mingyue sentia-se aliviada por ter rompido o noivado no salão fúnebre da família Feng. Pensava que, se não tivesse feito isso, agora seria difícil se livrar dele.
— Você está doente! — Feng Yang se levantou, respondeu friamente e jogou no lixo a garrafa de água que segurava. Agora entendia: por estar vestido de forma simples e com uma garrafa vazia nas mãos, Li Mingyue interpretara tudo errado.
Mas não podia negar: ela era realmente mesquinha, atravessando a rua só para zombar dele.
— Ei, Feng Yang, que atitude é essa? Mingyue só quer te ajudar — reclamou Qiu Jiuyue, chegando perto, o rosto claramente descontente.
— Não preciso que vocês duas se preocupem comigo — respondeu Feng Yang, esforçando-se para conter a raiva.
— Então é assim? Quer dizer que eu, Li Mingyue, fui boa demais com você? — insistiu ela.
— Sumam! — Feng Yang não quis mais discutir. Suas palavras eram mais afiadas do que um canto. Falar em arrumar-lhe um emprego era só pretexto para debochar. Elas nem desconfiavam que, momentos antes, ele havia acabado com a família Feng no Hibisco!
— Olhe só, ainda se acha! — Qiu Jiuyue riu com desdém e continuou:
— Aposto que agora você se arrepende de Mingyue ter rompido o noivado. Do jeito que está, só vai conseguir uma mulher comum para dividir a vida. Ah, quase esqueci — disse, batendo na própria testa, como se se lembrasse de algo. — Hoje em dia, há milhões de homens solteiros na China. Você, com certeza, é só mais um deles.
A observação fez Li Mingyue cair na risada.
— Mas não desanime. Quem sabe aparece alguma desmiolada que queira você!
— De quem você está falando? — Uma voz fria interrompeu, atraindo a atenção de todos.
Seguindo o olhar geral, uma mulher usando um vestido tradicional chinês aproximava-se. Esse tipo de roupa exige uma silhueta perfeita, e a cada passo ela exalava uma elegância hipnotizante, dando a impressão de que o traje fora feito para ela. Sua beleza era extraordinária; até Li Mingyue ficou momentaneamente fascinada.
— Vocês disseram que meu namorado vai acabar sozinho? — Perguntou a mulher, ao chegar ao lado de Feng Yang, tomando seu braço com naturalidade e um leve sorriso nos lábios.
O semblante de Li Mingyue e Qiu Jiuyue mudou drasticamente. Especialmente Qiu Jiuyue, que há pouco zombara dizendo que Feng Yang só poderia ficar com uma mulher comum, sentiu-se humilhada. A mulher diante delas era de beleza e elegância incomparáveis, com um charme sutil que até as duas ficaram encantadas. Mais do que isso, sua presença era tão imponente que parecia difícil até respirar.
Para ser franca, qualquer pessoa ali, com um mínimo de discernimento, admitiria que a mulher de vestido tradicional era de um nível muito superior.
— Hum, existe mesmo alguém cega o suficiente para querer viver na pobreza ao lado dele! — resmungou Li Mingyue, sentindo-se agora descartada por Feng Yang.
— Já podem ir embora — disse Feng Yang, retirando o braço delicadamente, mas com firmeza.
Irritada, Li Mingyue replicou:
— Ora, e daí que você conseguiu uma namorada? Uma mulher linda dessas deve dar muito trabalho e gastar muito dinheiro. Você não tem um tostão, é só um pobre coitado!
— E o que tem? — Antes que terminasse, a mulher ao lado de Feng Yang respondeu, sorrindo de canto. — Meu namorado realmente não tem dinheiro para me sustentar, mas sinto muito: eu tenho, e posso sustentá-lo.
Ao dizer isso, levantou as chaves do carro e apertou um botão. Imediatamente, os faróis de um Porsche vermelho brilharam à curta distância.