Capítulo Três: O Herói e a Donzela — Um Resgate com Sabores Alterados
— Aquele carro preto era um Ghost? — Assim que o carro se afastou, todos da família Feng estavam surpresos.
— De-deve ser só parecido, não? — Feng Chu esfregou os olhos, sem convicção alguma. Alguém teria buscado aquele rapaz num Ghost? Impossível!
— Que Ghost coisa nenhuma! Pra mim, é só uma cópia da Zotye! — Feng Jingmin resmungou, cheio de desprezo.
— Isso, isso mesmo, aquele garoto é só um bastardo, que Ghost que nada!
— Mas... era realmente muito parecido! — alguém comentou.
— Ora, tio, tio-avô, vocês estão exagerando — Feng Tao sorriu. No início, também achara que era um Ghost, mas logo se deu conta de que estava imaginando demais. Onde Feng Yang conseguiria um carro desses?
Não podiam negar, o departamento de fita métrica da Zotye estava se superando ultimamente!
— Que Ghost que nada! Sem o suporte da família Feng, o que seria dele?
Essas palavras fizeram todos da família assentirem.
— Amanhã mesmo vamos anunciar oficialmente que ele foi expulso da família, e eu falo com o diretor Liu. Aquele moleque anda se achando demais, precisa levar uma lição!
...
— Professor, o senhor está...? — No interior do Ghost, Chen Yunsheng olhou surpreso para Feng Yang.
Depois que Feng Yang saíra no dia anterior, Chen Yunsheng refletiu sobre como poderia ajudar a família Feng. Pensou que, aproveitando aquele momento, seria adequado prestar condolências a Feng Tianwen.
Com sua posição de homem mais rico do norte de Jiang, sua presença certamente chamaria atenção e poderia dissuadir quem tivesse intenções contra a família Feng. Mas, assim que o carro parou, viu Feng Yang deixando a mansão.
— Não é nada — Feng Yang balançou a cabeça. Não era o caso de contar que fora expulso da família, ou com o temperamento de Chen Yunsheng, talvez ele virasse a casa de cabeça para baixo!
Apesar de toda a firmeza que mostrara na mansão, Feng Tianwen sempre cuidara bem dele: arranjou-lhe um trabalho, um noivado... De qualquer forma, ele sentia que ainda devia proteger a família.
Chen Yunsheng semicerrando os olhos, um homem experiente como ele percebia que havia algo errado com a saída de Feng Yang, mas não insistiu.
— Quer ir para minha casa?
— Não, por favor, me leve para o trabalho!
Ir para casa de Chen Yunsheng seria bom, mas chamaria atenção demais. No fim das contas, Feng Yang não passava de uma pessoa comum, no máximo um bastardo da família Feng. Mesmo Feng Tianwen, o patriarca, não se igualava a Chen Yunsheng, quanto mais ele. Aceitar a generosidade do anfitrião poderia levantar suspeitas.
Quem sabe quantos olheiros desses caras há em Jiangzhou?
Chen Yunsheng também não insistiu. Ordenou ao motorista que seguisse viagem, e após cerca de dez minutos, Feng Yang falou:
— Pode parar aqui, vou descer.
Um carro de mais de 600 mil euros como o Ghost chamaria muita atenção, e Feng Yang não gostava de ostentar. Entendendo isso, Chen Yunsheng pediu ao motorista que encostasse.
— Ah, não se esqueça da erva Três Vidas que pedi — disse Feng Yang ao sair.
Ao descer, ele já estava quase nos subúrbios; as ruas estavam desertas, quase sem vivalma. Caminhava quando, de repente, ouviu um grito de socorro.
Fixando o olhar, avistou, a poucos metros, numa viela, uma mulher de qipao encurralada contra a parede. O vestido era curtíssimo, restando uns dez centímetros abaixo da cintura, deixando à mostra uma vasta extensão de pele alva.
O rosto dela estava banhado de pânico. Diante dela, um brutamontes armado com uma faca se aproximava ameaçadoramente.
— Socorro, socorro!
— Grita, bela! Grita, à vontade! Quero ver quem vem te salvar! — o homem ria, a voz carregada de malícia.
Era ultrajante!
Os olhos de Feng Yang brilharam frios. Não era de se intrometer, mas aquela cena o indignou profundamente, e num segundo ele já estava em ação.
— Pare agora! — Ao gritar, Feng Yang acelerou o passo. Após canalizar suas energias, seu nível já era suficiente para percorrer aquelas dezenas de metros num piscar de olhos.
— O que pensa que está fazendo?! — O brutamontes se atrapalhou ao vê-lo avançar, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Feng Yang golpeou-lhe a nuca com a mão.
Com um baque surdo, o homem caiu no chão, desacordado.
A mulher, por sua vez, estava paralisada, boquiaberta, olhando para Feng Yang, incrédula.
Ficou em choque?
Feng Yang franziu as sobrancelhas. Só então percebeu o quanto ela era bonita, traços delicados, sobrancelhas finas, e naquele momento de vulnerabilidade, despertava uma ternura espontânea.
Curiosamente, aquela mulher lhe parecia estranhamente familiar, como se já a tivesse visto em algum lugar.
— Moça, não é aconselhável andar por aí vestida de modo tão... provocante — comentou, fitando discretamente o qipao. Não era questão de se meter. Cada um se veste como quiser, até mesmo sem roupas, ele nada teria a dizer.
Mas as mulheres deveriam saber se proteger, não dar margem para gente mal-intencionada.
Hoje ela teve sorte de encontrar por ele; em outras circunstâncias, talvez se arrependesse amargamente, e não existe remédio para arrependimento.
— Você, você... — Recuperando-se do susto, a mulher olhou para Feng Yang com um olhar estranho.
Sem pensar muito, Feng Yang relaxou as feições, pegou a gola da própria camisa e, num gesto rápido, arrancou todos os botões.
— Preciso ir. Siga por essa rua, a uns trezentos metros há um posto policial.
Ao dizer isso, tirou a camisa e a colocou sobre os ombros da jovem. No mesmo instante, o olhar dela se tornou ainda mais intrigante e os lábios esboçaram um sorriso.
— E se eu disser que estou gravando um filme? Irmãozinho, você vai aparecer na televisão!
O quê?
Feng Yang ficou atônito. Logo ouviu passos apressados atrás de si e, ao olhar de soslaio, viu que vários se aproximavam, inclusive alguém carregando uma câmera.
Aparentemente... cometera uma grande tolice. Havia um táxi parado ali perto; sem hesitar, Feng Yang entrou rapidamente.
No mesmo instante, um grupo de pessoas alcançou o local. À frente vinha um homem gordo e ofegante.
— Mas que droga, quem era aquele idiota?! — esbravejou o gordo, vendo o táxi sumir ao longe, visivelmente irritado.
Estavam gravando uma cena! Tinham conseguido a atriz mais famosa do país, e agora um “bom samaritano” estragara tudo!
— Não... não sei, senhor — respondeu um jovem, sem graça.
— Cadê o assistente de direção? Quero saber como ele fez o isolamento do set!
— Senhor Wang, foi o senhor mesmo que disse para não isolar. Assim ficaria mais realista... — respondeu timidamente um rapaz alto e magro.
— Não isolar, não isolar! — O gordo perdeu a paciência, pegou o roteiro das mãos de alguém e bateu na cabeça do assistente.
— Pois é, não isolar... olha só no que deu! Fui confiar nessa ideia maluca e agora esse desconhecido arruinou a cena!
— Que situação mais constrangedora... — dentro do táxi, Feng Yang riu de si mesmo. Pensara que estava impedindo um crime em pleno dia, mas apenas se meteu onde não devia.
Ainda bem que Chen Yunsheng não estava por perto, ou morreria de rir. Quem diria que o primeiro ato de sua nova vida como cultivador seria esse fiasco?
— Bom, ninguém deve ficar sabendo disso — murmurou, cerrando os olhos. Mas, de repente, seu semblante mudou.
— Droga, minha camisa!
No mesmo instante, no cruzamento, a mulher de qipao caminhava graciosamente até o tal diretor Wang, exalando confiança.
— Não precisa regravar, achei ótimo como ficou. Cadê o roteirista? Quero que ele mude o roteiro!
Diante dessa declaração, todos os presentes ficaram boquiabertos.
Sem dar atenção ao grupo, a mulher se virou e caminhou até um Porsche vermelho estacionado ao longe. Ao mesmo tempo, tirou do bolso da camisa um crachá.
— Feng Yang, Televisão de Jiangbei.
Que garoto interessante. Mas estragar a cena da irmã e fugir assim? Não vai ficar barato. E ainda dizer para não se vestir de forma provocante? Ora, irmã não esquece fácil...