14, O Jovem Devoto de Buda (Parte Três)
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Ao ver aquelas fileiras e mais fileiras de palavras escritas no chão, Yang Xiao ficou completamente atônito. Por um bom tempo, não soube o que dizer. Na verdade, nem ousava pensar em coisa alguma. Bastava-lhe pensar em algo, e aquele dedo escrevia exatamente o que lhe passava pela mente. Como aquilo era possível?
Depois de algum tempo, o menino finalmente parou de rir.
Baixou a cabeça, exausto, apoiando-se no pé da estátua de Buda, e fitou Yang Xiao sem expressão:
— Quem vem aqui?
Yang Xiao continuou imóvel, aturdido, sem sequer querer pensar.
O dedo permanecia fincado na areia, imóvel, mas Yang Xiao sentia que ele poderia se mover a qualquer momento, bastando que seu coração concebesse o menor pensamento.
Como Yang Xiao não respondia, o menino tornou a perguntar:
— Por que veio?
Yang Xiao olhou para o menino e, por instinto, pensou no Tratado do Talismã Sombrio do Supremo.
Imediatamente, o dedo escreveu na areia duas palavras: “Supremo”.
Mas Yang Xiao conteve à força o pensamento. Não emitiu som algum e, em vez disso, recuou dois passos.
Ao ver as duas palavras no chão, o menino soltou uma risada sinistra.
— Um taoista?
Yang Xiao continuou em silêncio.
— Por que tanta cautela? — perguntou o menino lentamente. Sentou-se de pernas cruzadas no chão e continuou: — Não importa quem você seja. Já que veio até aqui, deve ser ao menos um bodisatva. Não poderia conversar um pouco comigo? Faz muito tempo que não falo com ninguém.
Aquelas palavras tocaram algum ponto em comum no coração de Yang Xiao. Ele também não falava com ninguém havia muito tempo.
Um pensamento lhe ocorreu.
O dedo imediatamente começou a rabiscar na areia:
— Há quanto tempo você não fala com ninguém?
O menino olhou para o chão e ergueu três dedos.
— Três anos? — escreveu o dedo na areia, expressando a dúvida de Yang Xiao.
— Três dias — respondeu o menino.
Yang Xiao ficou em silêncio.
O dedo escreveu na areia:
— Três dias, e você acha que tem direito de reclamar? Vai morrer por ficar três dias sem falar? Por que está gritando como um fantasma? Você não sabe que já faz três anos que não falo com ninguém?
O menino observou o dedo continuar escrevendo sem parar e disse calmamente:
— Este é o Pagode do Céu Partido. Dentro dele, um ciclo de nascer e pôr do sol equivale a cinquenta mil trilhões de horas. Diga-me, bodisatva: quantas horas tem um dia no lugar de onde você vem?
Yang Xiao ficou paralisado.
Seu cérebro mergulhou num breve vazio.
O dedo no chão também parou de se mover. Permanecia profundamente enterrado na areia amarela, completamente sem palavras.
Um dia com cinquenta mil trilhões de horas... Que espécie de conceito era aquele?
Yang Xiao olhou para o céu. O sol abrasador lançava seus raios diretamente sobre a areia. Suspenso no firmamento, permanecia absolutamente imóvel.
Depois do torpor, dúvidas ainda maiores vieram em sequência.
Percebendo seus pensamentos, o dedo escreveu imediatamente:
— Quem é você? Por que está neste lugar?
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— Eu sou o Menino Devorador de Budas — respondeu o menino com um sorriso.
Yang Xiao olhou para ele. Ao pensar nas inúmeras estátuas de Buda destruídas espalhadas do lado de fora, sentiu um arrepio diante daquele sorriso.
— Por que você fica aqui? — continuou o dedo a escrever.
O Menino Devorador de Budas não respondeu. Aproximou-se de Yang Xiao, tocou sua mão e disse, embriagado:
— Bodisatva... você sabe... já estou aqui há três dias e três noites. Não fecho os olhos há três dias e três noites... Quando isso vai acabar?
Yang Xiao retirou lentamente a mão e recuou um passo.
O menino, porém, aproveitou o movimento para abraçar sua perna. Encostou o rosto à coxa de pedra de Yang Xiao e começou a roçá-lo contra ela.
— Bodisatva, leve-me com você. Bondoso bodisatva, se estiver disposto a me tirar daqui, servirei ao senhor por três dias e três noites. Três dias e três noites segundo o tempo do Pagode do Céu Partido...
O coração de Yang Xiao se moveu. De repente, compreendeu por que havia chegado àquele lugar.
Bastou-lhe um pensamento, e o dedo escreveu imediatamente no chão:
— Você pode responder às minhas perguntas?
Ao ouvir isso, o menino assentiu com a cabeça tão depressa quanto uma máquina de escrever. Seus olhos brilhavam, e ele respirava com entusiasmo:
— Pergunte, bodisatva. Garanto que responderei a tudo. Sei de todas as coisas.
“Sei de todas as coisas”, pensou Yang Xiao. “Este sujeito está se gabando. Vou testá-lo.”
Mal o pensamento surgiu, o dedo já o havia escrito na areia:
— Quero fazer uma pergunta, mas não quero que você descubra quem realmente sou. Por isso, usarei uma pergunta completamente irrelevante para testá-lo.
Yang Xiao fitou, estupefato, aquela fileira de palavras no chão. Sob a luz ardente e ofuscante do sol, sentiu um frio percorrer-lhe as costas.
Seu pensamento havia durado apenas um instante, e aquela mão escrevera tudo. Se aquilo fosse um sonho, seria certamente o mais terrível dos pesadelos.
O Menino Devorador de Budas olhou para as palavras no chão e sorriu:
— Pergunte à vontade, bodisatva. Seja o que for que queira saber, eu responderei.
Yang Xiao já estava prestes a praguejar, mas ainda assim perguntou:
— Você sabe quem é Qingxuan?
Yang Xiao havia pensado cuidadosamente nessa pergunta. Primeiro, ela permitiria testar se o Menino Devorador de Budas estava mentindo. Além disso, relacionava-se à verdadeira identidade do enigmático velho taoista daquele templo. Por instinto, Yang Xiao sentia que ainda teria de lidar por algum tempo com aquele templo no mundo real. Se conseguisse descobrir seus segredos, teria muito mais confiança em seus planos futuros.
Ao ouvir a pergunta, o Menino Devorador de Budas soltou um som de desdém pelo nariz:
— Qingxuan, o Senhor Taoista. Já ouvi falar dele. Antes de o Venerável do Mundo entrar no repouso definitivo, ele ocupava o posto de Senhor Taoista na Corte Celestial. Não passava de um jovem.
Yang Xiao sentiu a cabeça zumbir.
A informação era grandiosa demais.
Ele nem pretendia perguntar algo importante. Como o menino se gabava de saber tudo, Yang Xiao apenas lançara uma pergunta obscura ao acaso. Jamais imaginara que uma questão tão simples quanto quantas pernas tem uma centopeia acabaria envolvendo um Senhor Taoista e a Corte Celestial — e que o menino ainda o trataria como um mero jovem.
Pelos céus, aquele velho taoista não passava de um sacerdote de um templo arruinado no meio de uma floresta desolada. Era amigo de infância de alguns demônios decadentes que sequer haviam conseguido assumir forma humana. Como poderia ter qualquer relação com algum Senhor Taoista celestial?
Inúmeros pensamentos atravessaram sua mente.
O dedo escreveu simplesmente na areia:
— Não acredito. Deve ser apenas alguém com o mesmo nome.
O menino soltou uma risada desdenhosa, exibindo uma expressão que dizia “acredite se quiser”, e respondeu com desprezo:
— Um nome desses pode ser repetido assim? Se lhe dessem esse nome, você ousaria escolhê-lo?
Yang Xiao ficou sem palavras.
Temendo que o dedo tornasse a escrever descontroladamente, interrompeu todos os outros pensamentos e perguntou apenas em sua mente:
— Você sabe por que o Tratado do Talismã Sombrio do Supremo não consegue abrir os portais?
O dedo escreveu instantaneamente a pergunta na areia.
O Menino Devorador de Budas, que antes parecia tão confiante, viu o sorriso desaparecer pouco a pouco. Como uma marionete desbotada, encarou Yang Xiao e perguntou:
— Hã?
Então o dedo apagou a pergunta e a escreveu novamente, desta vez em letras especialmente grandes.
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— Você sabe por que o Tratado do Talismã Sombrio do Supremo não consegue abrir os portais?
— A... abrir os portais? O que significa abrir os portais?
O Menino Devorador de Budas perguntou com hesitação. Seu rosto estava tomado pela confusão; ele claramente não fazia ideia do que Yang Xiao estava falando.
Yang Xiao ainda não tivera tempo de pensar, e o dedo já rabiscava furiosamente na areia:
— E ainda diz que sabe de tudo? Nem uma pergunta tão simples consegue responder. Está se fazendo de grande mestre por quê?
Yang Xiao ficou paralisado. O dedo era rápido demais. Aqueles pensamentos evidentemente haviam lampejado apenas por um instante no fundo de sua mente, mas foram imediatamente capturados.
O dedo estava ligado à mente de Yang Xiao. Por isso, as palavras que escrevia tinham um tom direto e coloquial, típico de épocas posteriores. O Menino Devorador de Budas talvez não soubesse exatamente o que significava “grande mestre”, mas compreendeu claramente a intenção de Yang Xiao.
No instante em que entendeu a intenção, o Menino Devorador de Budas soltou um grito. Como se tivesse sofrido a mais humilhante das afrontas, agarrou o próprio rosto e berrou furiosamente:
— Eu não sou taoista! Nunca li esse tal Tratado do Talismã Sombrio do Supremo! Fui aprisionado aqui por três dias e três noites; não faço ideia de quanto tempo passou lá fora, nem de quantas novas artes surgiram! Mas, se tiver nome e linhagem, que método existe que eu não conheça? Comi Budas demais! Conheço todas as leis! Conheço todas as leis!
Ele rugiu para Yang Xiao, com o rosto contorcido:
— Você! Recite o Tratado do Talismã Sombrio do Supremo! Basta recitá-lo! Basta me deixar vê-lo uma vez! No instante em que eu o ler, saberei a razão!
Yang Xiao, porém, continuava recuando. A expressão do menino era assustadora de verdade. Além disso, aquele dedo demoníaco capturava, sem deixar escapar um único fio, todos os pensamentos de sua mente. Ao perceber que o menino não sabia a resposta, Yang Xiao decidiu partir.
De qualquer modo, já confirmara que provavelmente podia visitar lugares diferentes dentro daquele sonho monstruoso. No pior dos casos, encontraria outro lugar onde perguntar. Aquele lugar e aquele dedo eram estranhos demais; Yang Xiao não queria permanecer ali nem por mais um minuto.
Enquanto pensamentos intrincados atravessavam sua mente, o dedo deixou apenas duas palavras na areia:
— Até logo.
O Menino Devorador de Budas viu as duas palavras. Não compreendeu os caracteres, mas entendeu a intenção.
No instante em que percebeu o significado, começou a uivar desesperadamente:
— Não!
Voltou à aparência enlouquecida do primeiro encontro e passou a rolar freneticamente pelo chão, arremessando areia para todos os lados.
Yang Xiao permaneceu indiferente e se preparou para partir. O Menino Devorador de Budas percebeu o que estava acontecendo e lançou-se contra ele em disparada, gritando:
— Não vá embora! Bodisatva, não vá! Eu vou me comportar! Recite o texto, deixe-me vê-lo uma vez! Deixe-me olhar uma vez para esse tal Tratado do Talismã Sombrio do Supremo! Basta uma olhada e eu saberei! Eu vou me comportar, eu vou me comportar!
Naturalmente, Yang Xiao não se deixaria abalar por palavras.
— Se não quer responder, faça outra pergunta! Faça outra pergunta, por favor! Pergunte sobre o budismo, sobre o taoismo! Pergunte sobre poderes sobrenaturais! Pergunte pelos segredos da Corte Celestial! Pergunte sobre o massacre dos Budas e a destruição das leis! Pergunte qualquer coisa! Eu lhe contarei tudo, tudo! Não vá embora!
Usando mãos e pés, ele rastejou e avançou até Yang Xiao, abraçando sua perna de pedra e mordendo-a com força. Enquanto mordia, fitava Yang Xiao com os olhos arregalados:
— Você não vai conseguir fugir! Não vai conseguir fugir! Buá, rá, rá, rá... Você não vai conseguir fugir...
Yang Xiao apenas observou friamente o Menino Devorador de Budas. Sua visão começou a se turvar rapidamente. A areia que cobria o céu, a miragem, o menino de expressão feroz, as estátuas de Buda danificadas e desmoronadas — tudo se tornou extraordinariamente nebuloso.
Até desaparecer por completo.
...
...
O frio da noite gelada substituiu o calor enlouquecedor e a luz ofuscante.
Ele havia retornado aos galhos daquela floresta densa.
Pela primeira vez, Yang Xiao sentiu que a noite fria e silenciosa era tão acolhedora.
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