4. Decisão da Fusão do Caminho (Parte Três)
Embora Yang Xiao não soubesse por que havia dormido por quase meio mês, talvez por causa da hibernação ou por algum outro motivo, ele não conseguia se aprofundar nisso. Era como a névoa cinzenta do sonho; por mais extravagantes e inacreditáveis que fossem aquelas conversas, Yang Xiao não via como poderia ter alguma relação com uma coruja faminta e desamparada.
A carne de leopardo já havia acabado, e o inverno ainda não terminara. Yang Xiao planejava aproveitar a escuridão para patrulhar seu território e verificar se havia ratos saindo para se alimentar. Para manter a forma antes que o tempo esquentasse, a caça diária era indispensável.
Ele saltou das copas das árvores e começou sua patrulha na neve, como de costume.
Porém, antes que Yang Xiao pudesse voar muito longe, um som estridente de grasnados cortou o ar. Ele levantou a cabeça, imediatamente abaixou o corpo e mergulhou profundamente entre os galhos da floresta densa. Desta vez, o mergulho não era para caçar ratos, mas para se esconder.
Paf!
Ele pousou em um galho mais baixo, e suas penas se eriçaram inevitavelmente.
“Gá—Gá—”
No céu, várias sombras negras enormes circulavam.
Eram as mesmas abutres que ele havia visto antes. No rigor do inverno, em vez de ficarem no ninho dormindo, tinham invadido o território de Yang Xiao.
Ainda mais irritante foi o fato de que um dos abutres o atacou de surpresa no ar. No mundo animal, não há leis para proteger ninguém; um ataque repentino significava uma tentativa de matar.
Isso deixou Yang Xiao extremamente alerta.
Os abutres planaravam e pousaram nos galhos.
Um deles levantou o traseiro e deixou uma longa mancha de fezes no tronco da árvore.
Seus olhos negros e estreitos fixavam Yang Xiao, escondido entre os arbustos abaixo, sem piscar.
Ao ver aquele ato repugnante, Yang Xiao apertou os olhos.
Era um sinal claro de marcação de território.
Mas aquele era claramente seu território, e tal ação, para Yang Xiao, era uma humilhação flagrante. No entanto, isso era apenas uma emoção humana interferindo; racionalmente, ele sabia que esses animais não entendiam de humilhação. O abutre apenas transmitia uma mensagem: aquele território agora pertencia a eles.
Diante dessa mensagem, Yang Xiao não hesitou. Ele abriu as asas e desapareceu rapidamente por baixo, sem deixar vestígios.
“Gá—Gá—”
Os abutres atrás dele soltaram gritos triunfantes.
Yang Xiao não respondeu, voando entre a floresta densa, sem olhar para trás. Num instante, ele era um coruja de sucesso, dono de seu território e morador do buraco na árvore, alimentando-se de carne de leopardo; no instante seguinte, tinha perdido seu território para os abutres e se tornado uma coruja errante e derrotada.
Quanto à resistência...
Ele nem sequer cogitou essa possibilidade.
Agora, ele estava completamente fora de competição com aqueles abutres. Território perdido era território perdido; a única estratégia era preservar a própria vida.
No entanto, durante o voo, Yang Xiao começou a se sentir confuso.
Ele ainda se lembrava de quando se tornou independente, explorando as redondezas. Naquela época, o território que mais o atraía era uma floresta próxima a um rio que cortava a mata. A água corrente tinha muitos peixes, e à noite diversos animais iam beber ali. Para uma coruja, aquele lugar era simplesmente perfeito.
Mas ao chegar, foi imediatamente expulso por um enorme abutre, quase morrendo. Se não tivesse passado voando baixo pelos arbustos, teria perecido.
Após mais de um ano de desvios e dificuldades, finalmente encontrou um pequeno território naquela floresta de folhas caducas, embora fosse muito inferior ao do rio.
Não só era pobre em recursos, como a caça se limitava a ratos e insetos. Foi ali que ele derrotou um coruja idoso e conquistou seu espaço.
Embora poucas vezes os tivesse visto, tinha certeza de que a família dos abutres vivia à beira do rio. Ele não entendia por que aqueles abutres preferiam invadir seu território em vez de ficar na valiosa terra do rio.
Se fosse apenas um jovem abutre procurando território, até faria sentido — ele mesmo já fizera isso. Mas eram abutres grandes, ferozes e fortes. Por que eles estariam cansados do rio e queriam trocar por uma terra pobre no meio do nada?
Pensar nisso fez Yang Xiao rir internamente.
Esses animais provavelmente não eram tão complexos quanto ele imaginava.
Apesar disso, Yang Xiao voou em direção ao rio. Independente do motivo da invasão, certamente ali havia territórios vagos. Se os abutres realmente estavam cansados do rio, não se importaria de trocar de lugar com eles.
Curiosamente, ele voou por um bom tempo até chegar perto do rio sem encontrar nenhum pássaro para provocá-lo. Os animais eram muito sensíveis a invasores em seus territórios; normalmente, uma simples passagem já atraía uma cacofonia de gritos.
Mas desta vez, silêncio absoluto. Isso o deixou desconfiado.
Quando estava a cerca de uma milha do rio, elevou-se e pousou em um pinheiro frondoso, imóvel.
Como coruja, sua visão noturna era excepcional. Parado no tronco, girou a cabeça silenciosamente em 180 graus, observando cada detalhe em um raio de centenas de metros.
No entanto, não encontrou nenhuma anormalidade.
O rio continuava o mesmo, a floresta densa também, mas os animais haviam desaparecido estranhamente. Embora fosse inverno e o rio estivesse congelado, aquele silêncio era incomum.
Será que, durante seu sono, algo incompreensível havia acontecido na floresta?
Yang Xiao permaneceu na árvore, pensando sem parar. Se algum abutre viesse expulsá-lo, aceitava, pois isso seria normal. Mas a ausência total de som indicava algo errado.
Concluiu que aquele lugar tinha problemas e que não deveria permanecer ali por muito tempo.
Quando estava prestes a voar, ouviu um estrondo agudo vindo do rio — um rugido poderoso, semelhante ao de uma fera gigantesca, impressionante e ameaçador.
Yang Xiao se assustou. Ele já ouvira rugidos misteriosos na floresta antes, mas sempre distantes. Desta vez, o som estava perigosamente próximo.
Se estivesse longe, teria voado em pânico. Mas como estava perto, preferiu ficar imóvel, temendo que uma decolagem o denunciasse e resultasse em morte rápida.
O rugido se aproximava cada vez mais.
Yang Xiao prendeu a respiração, tenso.
De repente, o rugido cessou abruptamente, dando lugar a uma voz clara e repreensiva:
“Já basta, já basta, irmão mais velho... para de tocar, está me enlouquecendo.”
“Irmã mais nova, não é por vontade que toco, mas o que temos que fazer não pode ser visto por ninguém,” respondeu um homem, com carinho.
Yang Xiao, no alto da árvore, estremeceu e sentiu uma onda enorme em seu interior. Em três anos, era a primeira vez que ouvia alguém falando ali. Embora em sonhos tivesse conversado com aquela névoa estranha, jamais soube se aquilo fora real.
Mas agora, aquela voz era inegavelmente verdadeira, ressoando bem próximo.
Embora o tom e o idioma fossem completamente diferentes de qualquer dialeto que conhecera em sua vida anterior, Yang Xiao compreendia claramente a troca entre os dois.
Porém, a emoção durou pouco. Logo suas penas se aquietaram, e sua mente se tornou fria. Não importava quem fossem ou o que dissessem; ele era apenas uma coruja noturna, e seu destino estava selado. Ele não era mais humano.
Dois indivíduos saíram lentamente da floresta perto do rio: um homem e uma mulher. A mulher brincava, tentando pegar um instrumento musical estranho das mãos do homem, que a segurava pelo braço e não queria entregar. Eles empurravam-se e discutiam à beira do rio.
“Minha boa irmã, este é um tesouro para atravessar o reino das profundezas, não posso entregá-lo tão facilmente.”
Dizendo isso, ele fez um gesto quase para beijá-la.
“Que nojo.”
A mulher o cutucou, tímida.
Depois, falou seriamente: “Não aqui! Não pode!”
“Minha irmã, quem vai aparecer neste lugar ermo?” O homem protestou, aproximando-se.
“Se aqueles monstros da montanha virem, será ruim.”
Ela advertiu: “Este lugar é cheio de miasma e guardado por linhagens demoníacas. Pode ser que alguma criatura adquira consciência...”
“Rooar!”
O homem soprou no estranho instrumento, que emitiu um som aterrorizante.
Depois, rindo, disse à mulher: “Veja só, irmã, sob a minha flauta encantadora, não só essas criaturas selvagens, mas até cultivadores iluminados ficariam apavorados.”
Ele falava descontraído, passando as mãos pela mulher com um ar galanteador.
“Que nojo, quem é que acredita que um cultivador iluminado viria a este lugar...”
“E se não formos nós?”
Disse, lançando-se sobre ela.
A mulher relutou, mas logo cedeu, e os dois começaram a se acariciar sobre as pedras junto ao rio.
Yang Xiao, no topo das árvores, ficou maravilhado com a cena.
Pensava que o rugido vinha de uma fera terrível, mas era o som de um casal apaixonado. Só que, em pleno inverno, no meio da noite, eles estavam ali, no meio do nada, ignorando completamente o frio.
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