17. A farsa do sobrenatural (I)
Yang Xiao permaneceu imóvel sobre o tronco da árvore. Não se sabe quanto tempo se passou até que ele finalmente se recuperou do choque causado pelo aparecimento do Menino Devora-Buda. Ele sacudiu o corpo e, com dificuldade, alçou voo a partir do tronco.
O dedo imediatamente se ergueu, arqueando-se sobre o tronco, como uma larva grudenta que o seguia incessantemente.
Yang Xiao voava sem rumo, e só ao amanhecer encontrou um tronco onde pousou para descansar. Mesmo sem olhar, sabia que não importava para onde voasse, aquele estranho dedo cinza permanecia firmemente a seu lado.
Assim como ele frequentemente seguia outras pessoas.
Quanto ao princípio que regia aquele dedo, por que ele nunca se cansava, Yang Xiao não tinha a mínima ideia. Tentativas de se livrar dele eram inúteis. Não importava em qual árvore pousasse, se estivesse caçando ratos ou cobras d’água, ou mesmo descansando em algum canto remoto, ao despertar da noite, ele garantia que aquele dedo estaria lá, ao seu lado.
...
Foram dias até que Yang Xiao aceitasse essa realidade.
Ele tinha um dedo a mais — embora não fosse um dedo dourado, mas cinza — ainda assim, era um dedo.
Aceitando isso, ele parou de se importar com aquele dedo irritante e com o motivo de ele sempre o seguir. Seu maior desejo, naquele momento, era transformar-se em forma humana e iniciar o caminho do cultivo. Quanto ao dedo, contanto que não lhe fizesse mal, Yang Xiao preferia ignorá-lo.
Embora tivesse sido muito assustado pelo Menino Devora-Buda, Yang Xiao também aprendeu com ele o motivo pelo qual não conseguia abrir seus meridianos e cultivar.
Aquela criança, embora enlouquecida, tinha um pedido e, ao partir, instruiu Yang Xiao a salvá-lo na Torre dos Céus Quebrados após alcançar o cultivo. Yang Xiao não acreditava que o menino o tivesse enganado quanto a isso.
Mas onde encontrar os ingredientes medicinais para completar o corpo dos Cinco Elementos?
Pensando nisso, Yang Xiao voltou seu olhar para o dedo cinza que acabara de receber.
Nos últimos dias, ele já tinha alguma noção sobre aquele dedo cortado: ele não servia para nada prático, mas era o melhor em escrita. Tudo o que ele pensava, por mais secreto que fosse, não escapava da percepção daquele dedo.
Porém, para conseguir os ingredientes dos Cinco Elementos, a comunicação com outras pessoas era indispensável. Como ele não sabia falar, o único meio de se comunicar restava aquele dedo.
Quase que no instante em que pensou nisso, o dedo se ergueu como um mouse extremamente sensível.
Yang Xiao observou o dedo por um momento, então estendeu a garra do pé, segurando-o.
O dedo tremia incessantemente, como se estivesse excitado.
Mas aquele tremor e a sensação de contorção davam arrepios a Yang Xiao.
Depois de algum tempo, o dedo se acalmou. Segurando-o, Yang Xiao deu um salto e voou em direção à montanha dos fundos.
Em pouco tempo, chegou ao local onde dois discípulos do Templo dos Cervos Sagrados meditavam sentados de pernas cruzadas e pousou num galho.
...
No entanto, naquele momento, a caverna estava vazia.
Yang Xiao achou estranho. Aqueles dois sempre mostravam muita paciência, passavam os dias entre refeições e meditações. Por que hoje teriam saído tão despreocupados?
Enquanto refletia, de repente sons de tambores e gongos vieram do pátio diante do templo.
...
Yang Xiao imediatamente alçou voo, batendo as asas até o pátio, onde viu a cena.
Uau.
A entrada do templo estava animada, com uma comitiva de dezenas de pessoas tocando trombetas e flautas, enchendo o ar de música incessante. Vestiam roupas vermelhas e verdes, parecendo uma celebração de casamento, cheia de alegria. Mas os protagonistas da festa não eram noivo e noiva, e sim uma dúzia de crianças com aproximadamente onze ou doze anos.
Um velho taoísta do templo, segurando um pincel de seda, com uma expressão serena e sábia, sentava-se numa cadeira de madeira de lótus amarelo na frente do templo.
Os dois discípulos permaneciam atrás do velho, com os olhos focados, tranquilos e concentrados.
Quando a música parou, um homem vestido com uma túnica de seda saiu da comitiva e fez uma reverência ao velho taoísta sentado.
— Mestre Lù, estas são as crianças mais talentosas das aldeias vizinhas. Agradecemos por o senhor não nos rejeitar e abrir as portas do templo. Hoje é realmente um grande dia.
...
Então era esse velho taoísta que recrutava discípulos.
Yang Xiao pensou que era normal. Se não recrutasse ninguém, logo o templo ficaria vazio. Três discípulos se foram e até o menino aprendiz desaparecera.
Mas ele já havia explorado todas as redondezas, mais de cem li ao redor, e não encontrou ninguém. Não fazia ideia de onde aquelas pessoas teriam surgido.
...
O velho taoísta estendeu a mão e tocou o ar, ajeitando a barba com um sorriso gentil:
— Abrir as portas do templo celestial é difícil, e o mistério profundo, raro de ver. Encontrar-se hoje é um destino. Contudo, o templo é pequeno e não pode acomodar muitos discípulos. Aqueles com mais de doze anos e que possuam quatro dos Cinco Elementos serão aceitos como discípulos; com menos de doze anos e três elementos, poderão ser registrados como meninos aprendizes.
O velho balançou o pincel, exalando uma aura celestial, dizendo:
— O bem vai embora, o mal chega.
— Presente! — responderam os dois discípulos.
— Vocês dois vão preparar um altar e avaliar a raiz óssea dessas crianças. Quem for adequado será aceito no templo; os que não forem, receberão uma quantia em prata e serão enviados de volta para suas casas — ordenou o velho taoísta com tranquilidade.
Os irmãos Mal e Bom trocaram um olhar e responderam em uníssono com humildade:
— Sim, mestre.
...
Yang Xiao escutava as palavras do velho do alto da árvore e pensava que o Menino Devora-Buda realmente não o havia enganado. Os critérios para ingressar eram rígidos: quatro dos Cinco Elementos para discípulos, apenas um para ele, provavelmente não teria chance.
No entanto, ele não desejava se tornar discípulo daquele velho taoísta. Quanto ao cultivo, Yang Xiao tinha outros planos.
Ele saltou suavemente, voando para baixo do galho e seguiu os irmãos Mal e Bom.
...
Os dois irmãos retiraram alguns jovens da comitiva e os levaram para a montanha dos fundos do templo.
Mal tirou alguns talismãs do bolso, os segurou entre os dedos e os lançou ao vento. As folhas começaram a queimar, e ele apontou para frente.
— Vão.
As folhas flutuantes caíram sobre uma clareira na montanha dos fundos do templo, e imediatamente o solo se ergueu, formando montes artificiais com armadilhas de fogo e armadilhas de areia movediça.
...
Aquelas crianças do campo nunca tinham visto nada parecido e começaram a bater palmas e pular de alegria.
...
Yang Xiao, no alto da árvore, observava a cena e pensava que os dois irmãos tinham alguma habilidade mágica. Certamente aquilo era fruto do Dom do Selo Oculto. Se ele pudesse se transformar em humano, certamente tentaria desenhar alguns talismãs também.
...
Diante da euforia das crianças, Mal e Bom trocaram um sorriso e disseram:
— Vocês farão uma prova aqui. O primeiro a passar será o novo discípulo do templo; o segundo e terceiro serão meninos aprendizes.
— Uma vez dentro do templo, vocês estarão livres das amarras do mundo mortal. O velho imperador não poderá mais cobrar impostos de suas famílias. Esforcem-se, esta é uma oportunidade única.
Após as palavras, as crianças já estavam ansiosas, batendo as mãos e se preparando para o desafio.
Mal ignorou a excitação das crianças e fez um sinal para Bom com os olhos.
Bom entendeu e o acompanhou até um local escondido.
Sob a sombra escura de uma árvore, Mal falou preocupado:
— Mu Qing, Yao Yuntong e Wen Xiong desapareceram, e até um dos meninos aprendizes sumiu. Irmão Bom, temo que não seja seguro ficarmos aqui por muito tempo.
O Careca disse baixinho:
— Não me conformo, irmão. Procuramos na Floresta dos Imortais por quase dez anos e não encontramos o Tesouro dos Imortais. Realmente é frustrante.
— Nem fale em Tesouro dos Imortais. Eu acreditaria mais num Tesouro de Fantasmas — Mal balançou a cabeça — Esta floresta está cada vez mais impura... Se esse velho taoísta tivesse algum poder imortal, já teria mostrado até agora.
— Ele não tem nada de imortal. Esses truques enganam os mortais, mas não a nós. É só um pequeno feiticeiro no nível do décimo segundo estágio da energia, que conseguiu um corpo humano por influência demoníaca. Não tem poder imortal algum — disse o Careca, desprezando.
Depois, ele falou preocupado:
— Não ligo muito para o desaparecimento de Yao Yuntong. Eu sempre o achei arrogante demais. Mas e o menino aprendiz? Será que... não foi comido por esse velho taoísta?
— Se foi, foi. Para mim, esses jovens vieram para morrer. Se não forem aceitos, tudo bem. Mas se forem, levando em conta o estado semi-louco desse velho taoísta, duvido que sobrevivam um ano — respondeu Mal.
— O que devemos fazer então? — Bom perguntou preocupado — Não seria melhor mandá-los embora mais cedo? Isso também seria um mérito, não seria?
— Pah! — Mal bateu de leve na testa de Bom.
— Mérito? Se o templo desmoronar, quem mede mérito? — Mal respondeu irritado — Para mim, se o velho quiser aceitar, que aceite muitos. Só assim ele se enche e a gente pode agir nas sombras. Nessa vida, ninguém age por mérito. Até o Buda cobra dinheiro pelas oferendas.
Bom concordou:
— Verdade...
Mal teve uma ideia e disse:
— Ele não especificou quantos meninos vai aceitar. A decisão está em nossas mãos. Os chefes das aldeias estão ansiosos para mandar seus filhos para o templo. Podemos abrir uma caixa de méritos para arrecadar pratas e aceitar uns quinze ou vinte. Assim o velho fica bem alimentado e não será em vão todo o nosso esforço ao longo dos anos. Pelo menos tiramos alguma vantagem.
Bom coçou a cabeça, pensou por um instante e sorriu:
— Muito bem.