O Isqueiro Mágico (1)

Em vez de namorar, faça um desejo [Transmigração Rápida] Raposa Yang 3865 palavras 2026-07-31 03:06:14

A luz da manhã carregava o frescor remanescente da noite; mesmo ao tocar a pele, não aquecia demais. Os raios atravessavam as gotas de orvalho sobre as lâminas de relva, refratando pequenas manchas brilhantes, de um verde tenro e quase fosforescente. O vapor ainda pairava no ar quando uma borboleta recém-desperta, vagarosa, pousou sobre um botão semiaberto. O galho tremeu suavemente, o orvalho escorreu e caiu sobre um par de botas de couro já gastas, molhando-as de forma notável.

Assustada, a borboleta alçou voo abruptamente, quase colidindo com a aba do chapéu de quem ali estava. Mas a pessoa permaneceu imóvel, apenas observando a borboleta ligeiramente atordoada cruzar aquela pequena sombra, banhada pela luz alaranjada como um minúsculo anjo, antes de desaparecer.

Com um leve toque na aba do chapéu, o sol refletiu nos olhos de âmbar da visitante, transbordando um calor translúcido que logo se dissolveu na profundidade silenciosa da floresta.

O matagal bloqueava o caminho, permitindo que a luz do sol penetrasse apenas em pontos dispersos. Raízes grossas e retorcidas se entrelaçavam ao redor dos troncos ancestrais, como serpentes monstruosas tentando esmagar e partir as árvores. O dossel frondoso era tão denso que nem mesmo o sol podia dissipar o frio que parecia emanar do âmago dos ossos.

Um leve odor metálico flutuava no ar. Não se ouvia o canto dos pássaros. O visitante parou e ergueu levemente o queixo; até mesmo o som de seus passos cessou, deixando tudo em quietude.

No solo, ossos indistintos formavam um reflexo diminuto nos olhos límpidos de quem chegava, sem traço de tristeza ou alegria, apenas uma estranha ternura.

Foi então que o gato branco, macio e puro, deitado sobre seu ombro, falou: “Mestre, já passou alguém por aqui.”

A voz era clara, mas parecia não ecoar no espaço, sem perturbar nem uma folha.

“Foi a bruxa que trouxe os soldados aqui.” O nome do visitante, Desejo, desviou o olhar dos ossos e voltou-se para a árvore gigantesca à sua frente.

Idosa, assustadora, mesmo que alguém a encontrasse, não ousaria se aproximar facilmente. Sobre as raízes entrelaçadas ainda restavam marcas tênues de solas de sapatos que haviam tentado subir.

Os soldados vieram a mando da bruxa para buscar, nas profundezas do poço cavado na árvore, a caixa de pederneira, e assim ganhar uma fortuna. Mas não perguntaram à bruxa para que servia a caixa; apenas a mataram.

Desejo, por sua vez, viera ali para realizar o pedido de alguém. Impedir que o soldado obtivesse a caixa seria o modo mais rápido, mas agora ele já havia conseguido antes da chegada de Desejo.

“Mestre, o que faremos agora?” O gato branco cruzou suas patas macias, repousando com estabilidade no ombro do dono. “Voltamos?”

“Claro que não”, Desejo sorriu.

“Hã?” O gato questionou, pequeno e curioso.

Desejo apoiou-se no tronco nodoso à sua frente, os dedos longos pressionando o ponto onde as marcas estavam, e com facilidade escalou até o topo do tronco.

O vento uivava e, dentro de uma grande abertura oculta entre os galhos, o fundo parecia inalcançável, exalando um leve cheiro úmido e metálico.

Retirando a corda presa à cintura, Desejo atou-a firmemente a uma bifurcação sólida do tronco.

“Mestre, sem o avental xadrez azul da bruxa, aqueles três cães serão perigosos”, alertou o gato.

Ninguém sabia que feitiço havia sobre o avental azul da bruxa, que fazia os cães comportarem-se docilmente sentados sobre ele. Ninguém sabia, tampouco, como o soldado conseguira erguer um cão de olhos tão grandes quanto torres e colocá-lo sobre o tecido.

Se pudesse levantá-los, não precisaria da caixa para vencer o mundo, casar-se com a princesa e tornar-se rei.

Talvez tenha apenas enfiado o avental sob o cão, ou talvez o avental fosse encantado com uma magia de força. Mas Desejo não tinha nem avental nem magia; ao entrar no pequeno mundo, era quase um humano comum, sem materiais para magia ou dinheiro... Sim, a falta de dinheiro era desesperadora, até para ele.

“A fortuna está onde reside o perigo”, riu Desejo ao terminar o nó. Testou a firmeza, prendeu a corda no cinto e, descendo pouco a pouco, deslizou pelo poço profundo.

“O mestre tem razão”, concordou o gato, espiando com cautela.

À medida que desciam, a luz sumia aos poucos, até que as botas tocaram o chão úmido e o cheiro de ferrugem invadiu o nariz. O gato apertou o focinho com as patinhas e pressionou uma delas de leve no nariz de Desejo, sem medo de cair: “Que cheiro horrível!”

Desejo desatou a corda da cintura e, usando a luz de centenas de velas presas aos lados do grande corredor, examinou o espaço. Era amplo, sustentado por muitas colunas arredondadas que se perdiam na profundeza. A luz das velas projetava sombras sobre as ricas esculturas das paredes e colunas, luxuosas e antigas, mas não disfarçava as manchas negras secas que sobravam ali. Já não atraíam moscas, mas o cheiro persistia.

“Miau”, Desejo chamou, inspirando fundo.

“O que foi?” O gato respondeu animado; servir ao mestre era seu dever.

“Eu não consigo respirar”, Desejo exalou, resignado.

“Ah, desculpe!” O gato recolheu as patas, colocando uma sobre a outra. “Mas o cheiro aqui é mesmo terrível.”

“Não é tão ruim.” Desejo recuperou o fôlego e avançou pelo corredor, soltando outra corda da cintura.

O mestre certamente se adaptaria a esse tempo, pensou o gato.

O som dos passos e da respiração ressoava pelo corredor, até pararem diante de uma porta alta em arco, grandiosa e ornamentada, com colunas e arcos que lhe conferiam imponência. Era a primeira entrada e o ponto de cheiro mais forte.

Desejo pousou a mão sobre a porta; o silêncio foi tão profundo que até o gato sobre seu ombro largou as patinhas e fixou os olhos de cristal na fresta que se abriu.

O pó escorregou suavemente da fresta. Quando a porta foi empurrada, a luz das velas penetrou, iluminando entre as pernas peludas e colossais de uma besta monstruosa. Seu pelo era liso, cada fio definido; o peito largo e forte. As almofadas das patas, enormes, poderiam lançar uma pessoa longe com um golpe. Os olhos, do tamanho de xícaras, encararam com ferocidade, presas à mostra, corpo já erguido.

O gato, de imediato, eriçou-se todo, as orelhas baixas como asas de avião. “Morrer, morrer, morrer!” Um cão tão grande estava além das forças do mestre.

Mas, nesse instante, a corda voou das mãos de Desejo, laçando o focinho do cão, apertando-o de súbito.

O cão lutou por instinto, tentando arrancar a corda, pronto para matar o “inseto” atrevido, mas sentiu um puxão no pelo. O braço humano, esguio, contornou-lhe a cabeça e deu várias voltas.

A vontade de sacudir aquele “inseto” era instintiva, mas ao tombar, as patas dianteiras e traseiras foram presas juntas, apertadas por algo invisível, impedindo-o de se levantar!

O monstro tentou, em vão, se livrar da corda, mas quanto mais se debatida, mais apertava. O cão sentiu-se vítima de magia; não acreditava que um cão de guarda tão formidável pudesse ser amarrado por um mero humano.

“Mestre, você é incrível!”, elogiou o gato, os pelos finalmente baixando.

“Ao abrir a porta, há sempre um instante de hesitação.” Desejo passou por cima das almofadas caídas, os olhos do cão gigantesco acompanhando cada passo até o baú no centro da sala. Retirou da cintura um punhal e, com destreza, abriu a tampa.

O soldado levou tempo para pôr o cão sobre o avental azul, e esse breve instante de hesitação permitiu a Desejo imobilizar o animal. Se tivesse enfrentado de frente, morreria ou se feriria seriamente.

Apesar de ser um cão devorador de homens, foi o humano quem invadiu seu território e tentou roubar seu tesouro.

Sob a luz das velas, moedas de cobre reluziam, empilhadas em quantidade. Se fossem todas levadas, seria uma fortuna considerável.

“Mestre, as moedas de ouro estão atrás da terceira porta”, lembrou o gato.

Já que chegaram até ali, claro que buscariam o mais valioso.

“Não consigo vencê-los”, disse Desejo, esvaziando a bolsa na cintura e colocando moedas de cobre dentro.

O cão, até então atento, começou a se debater furiosamente, mas estava exausto e só conseguia emitir sons abafados.

O gato olhou de soslaio para o animal e, balançando o rabo, disse: “A fortuna está onde reside o perigo.”

“O homem sábio conhece seus próprios limites”, Desejo encheu a bolsa e prendeu-a à cintura. O peso fez o cinto ceder, quase descendo até as pernas.

Ajustou o cinto, retirou algumas moedas e colocou-as no capuz do manto, outras despejou nas botas altas. A bolsa ficou bem mais leve, e ao pendurá-la de volta, já não arrastava o cinto ao chão.

“Ah, se eu pudesse tocar nos objetos deste mundo”, lamentou o gato.

No pequeno mundo, o gato não podia manipular objetos; não podia nem mesmo buscar uma moeda para o mestre e só via todo aquele ouro apodrecer.

“Não se preocupe, pão e leite não faltarão”, consolou Desejo, fechando o baú. Afagou o gato que roçou a orelha peluda na palma de sua mão.

“É verdade, o mestre é o melhor!”, elogiou o gato, voz fina e delicada, como se moedas não tivessem importância.

Desejo virou-se para o cão, que, após tanto esforço, agora estava quase calmo. Quando os olhos, enormes como xícaras, encontraram os dele, ficaram ferozes de novo. O corpo enorme debateu-se, levantando poeira, cada movimento parecia praguejar o humano vil.

Mas, nos olhos do cão, a figura que antes estava junto ao baú foi se aproximando lentamente... Era um desafio! Era uma provocação!

O cão lutou ainda mais, mas não conseguiu se soltar. Só pôde ver o “inseto” humano estender-lhe a mão. Talvez fosse para lhe arrancar os olhos, talvez algo pior...

Mas a mão apenas acariciou seu pelo, deslizando suavemente, trazendo uma sensação inesperada de conforto.

Os olhos de xícara se abriram um pouco mais. Neles, via-se o sorriso delicado e o olhar dourado de âmbar do homem; havia ali uma ternura mais suave que qualquer vento que passasse naquele corredor, sem provocação alguma. Os dedos que percorriam o pelo eram quentes, uma sensação inédita.

A voz de Desejo, também, era suave, com uma calma e melodia que nenhum outro humano trouxera ali, quase fazendo o cão adormecer: “Obrigado.”

“Mestre, acho que se você agradecê-lo, ele ficará mais irritado”, comentou o gato.

Se alguém invadisse sua casa, amarrasse-o, roubasse sua ração e ainda dissesse “obrigado”, ele certamente arranharia a cara do invasor, dizendo “de nada!”

“Não, ele não é um gato”, respondeu Desejo, retirando a mão e indo em direção à saída, fechando a porta sob o olhar úmido do cão.

“Parece que o mestre está me ofendendo”, o gato tentou entender a lógica.

“É um elogio”, Desejo sorriu.