10 Caixa de Fósforos (10)
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O quarto que Gru arranjou ficava um pouco afastado da fileira de casas baixas, em uma área isolada. De fora, o ambiente parecia agradável; flores silvestres cresciam nos cantos das paredes, e a hera cobria toda a parede dos fundos, conferindo uma sombra fresca mesmo sob o sol direto.
No entanto, ao abrir a porta, apesar de mesas, cadeiras e cama estarem completos, as manchas sobre a madeira tornavam difícil perceber há quanto tempo estavam ali. A cama baixa tinha uma camada de linho um pouco escurecido, e no chão ainda havia restos de palha e pelos de animais espalhados.
— Senhor Brand, espero que se sinta confortável aqui — disse Gru com entusiasmo.
— Obrigado pela acomodação, mas acho que preciso dar uma arrumada — respondeu Xu Yuan com um leve sorriso, refletindo por um momento — para não trazer o cheiro daqui para o senhor, o que poderia irritá-lo.
Gru não se ofendeu com as palavras, ao contrário, sorriu: — Sua devoção ao senhor é admirável, não é de se estranhar que ele confie tanto em você. Fique à vontade, mas cuidado para não entrar no curral ou na colmeia.
Este já era o melhor quarto da propriedade, fora o do próprio senhor, e não imaginava que o nobre proprietário oferecesse alojamentos ainda melhores para seus servos; certamente era um homem generoso.
— Certo, obrigado pelo aviso — respondeu Xu Yuan, sorrindo e despedindo-se de Gru antes de fechar a porta.
A construção, típica da época, tinha um telhado pontiagudo e espaço amplo, suficiente para algumas vacas entrarem sem aperto. Havia uma janela por onde o vento entrava, trazendo não só o aroma fresco da grama, mas também o cheiro de carne curada e peixe salgado pendurados para secar.
Xu Yuan fechou a janela, mas o gato pendurado em seu ombro segurava-se firme, sem vontade de descer ao chão: “Acho que este lugar é pior que uma estalagem.”
“Pelo menos o espaço é grande e gratuito.” Xu Yuan olhou ao redor, levantou o linho da cama, tocou-o e então o puxou completamente para fora.
“Essas pessoas claramente não gostam de limpeza”, resmungou o pequeno gato diante das manchas por toda parte.
Gatos são criaturas extremamente limpas, que se lambem todos os dias, mas nos últimos dias, os humanos encontrados tinham um odor que parecia indicar meses sem banho, exceto algumas mulheres que eram mais asseadas.
“Alguns acreditam que limpar a lama do corpo pode permitir que vírus entrem pelos poros.” Xu Yuan dobrou o lençol e o pôs de lado, depois juntou a palha da cama em um fardo, amontoando-a no canto do chão. “É uma questão de costume local.”
O gato perguntou: “Então, por que você não dorme direto no chão?”
“Se puder ficar mais confortável, prefiro.” Xu Yuan pegou o linho, junto com um sabonete meio sujo que estava na mesa, e saiu.
O sol brilhava forte, mas já se aproximava a hora da refeição. Algumas pessoas que antes trabalhavam nos campos desapareceram, e o aroma da comida cozida podia ser percebido de longe, fazendo com que ninguém prestasse muita atenção em Xu Yuan.
A irrigação era fácil ali, e o riacho próximo tinha água clara, com pedrinhas visíveis no fundo.
Entretanto, quando Xu Yuan mergulhou o linho na água, esta rapidamente se turvou de forma visível a olho nu.
O gato ficou desconcertado, sentindo aquilo como uma agressão aos olhos e a cada nervo do corpo. Observou seu dono lavar o pano com destreza, depois desceu do ombro para o gramado atrás, preferindo ignorar o que via.
Preferia dormir na palha ou no curral a ficar naquele linho sujo!
Embora leve, o gato ainda podia ser sentido ao se afastar de Xu Yuan, e a água fresca do riacho e o mato eram muito mais confortáveis para o animal do que a construção humana.
— Cuidado para não cair no riacho — disse Xu Yuan, ao ver o gato farejando a água na margem.
— Sei disso — respondeu o gato, lambendo a água e começando alegremente a explorar a vegetação.
Xu Yuan não se preocupou e continuou lavando o linho até que sua cor original reaparecesse.
Quando a água parou de pingar, ele se levantou e perguntou: — Vamos voltar juntos?
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A voz animada do gato indicava que havia encontrado algo interessante: — Você vai primeiro, mestre.
— Está bem. — Xu Yuan voltou com o pano e, ao procurar a corda para estender roupas na frente da casa, ouviu uma voz do quarto ao lado.
— Senhor Brand, para onde foi? — Gru soava um pouco embriagado e sonolento da tarde — Não o achei em lugar nenhum.
Xu Yuan se virou e viu Gru apoiado na janela, acenando para ele. Nas mãos, segurava um jarro de bebida, e mesmo com a barba cobrindo o rosto, dava para notar suas bochechas coradas — claramente havia bebido bastante.
— Fui ao riacho — respondeu Xu Yuan, parando perto da corda e pendurando o linho limpo — O que queria comigo?
Gru parecia confuso, pensou um pouco e falou: — Ah, sim, queria convidá-lo para o almoço... Não o encontrei, então deixei um pão na sua mesa.
— Obrigado, da próxima vez vou me lembrar do horário — respondeu Xu Yuan sorrindo.
— Que tal uma cerveja alegre? — Gru levantou o copo com um convite caloroso.
— Desculpe, tenho coisas a fazer. Quando a negociação estiver concluída, com certeza brindaremos juntos — falou Xu Yuan.
— Tudo bem — disse Gru, sem se importar, levando o jarro para dentro, mas bateu a cabeça e resmungou bêbado: — Malditas janelas! Ah! Esta é a bebida mais saborosa do mundo!
Xu Yuan sorriu e entrou em seu quarto. Na mesa havia uma bandeja de madeira com um pedaço de pão, alguns feijões e até um pedaço de carne seca — para a região, uma refeição bastante decente.
Comeu o pão e os feijões sentado à mesa, mas a carne seca estava tão dura que talvez só pudesse ser usada para afiar os dentes.
Seguindo o princípio de não desperdiçar comida, entregou o pedaço de carne para o ganso que queria explorar o quarto de Gru, ganhando um afago no pescoço da ave como recompensa.
Após o almoço, os campos se encheram novamente de trabalhadores, e o ronronar alto de Gru podia ser ouvido em seu quarto. Xu Yuan pegou um pote de barro, lavou-o no riacho e voltou para limpar a cama, a mesa e as cadeiras.
Alguns observavam seus movimentos, mas poucos compreendiam para que um nobre se dedicava a buscar água e limpar móveis.
— Talvez seja um hábito da nobreza — comentou alguém arrancando ervas daninhas para outro.
— Quem diria que os criados dos nobres também seriam tão ocupados.
— Ele é um homem bonito, deve ser muito popular entre as criadas.
— Talvez também seja cortejado pelas damas nobres.
— Acho que não, as damas nobres só se casam com outros nobres.
A conversa animada não chegava aos ouvidos de Xu Yuan, pois o sistema que ele podia ouvir, que filtrava sons distantes, se divertia na floresta.
O sol mudava gradativamente o ângulo da luz. Xu Yuan voltou com palha seca para forrar a cama limpa, deixando o chão quase impecável, exceto por alguns fios na esquina. O vento fresco entrava pela porta e o odor estranho do quarto começava a desaparecer, ajudado pelo fato de que quase toda a carne curada pendurada fora compartilhada com Gru.
À noite, com o som dos insetos, a luz da vela que escapava pela fresta da porta acompanhava o espírito livre do gato, que ao entrar no quarto sentiu uma pontinha de culpa: “Mestre, estou de volta…”
Ele não era um familiar muito responsável, brincando até escurecer para só então voltar. Com outro mestre, talvez já tivesse sido substituído.
— Se divertiu? — perguntou Xu Yuan ao gato, que parecia absorver o frescor da noite.
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O gato parou, olhou para os olhos suaves e sorridentes do dono e assentiu: — Sim, me diverti.
— Que bom — respondeu Xu Yuan, desviando o olhar para continuar seu trabalho.
O dono não estava zangado! O gato imediatamente se acalmou, subiu pelas calças até o ombro e, curioso, perguntou: — Mestre, o que está fazendo?
— Fazendo alguns recipientes — respondeu Xu Yuan, usando uma lâmina afiada para esculpir a madeira com facilidade, criando a curva desejada.
— Um recipiente tão pequeno? — O gato desceu até a mesa, esticou a pata e comparou o tamanho: cabia mais ou menos uma palma de gato.
— Este tamanho já basta — sorriu Xu Yuan.
O gato espiou algumas vezes, resistiu à vontade de tocar a mão em movimento e apoiou o almofadinha da pata num pedaço enrolado de serragem.
Pequenas coisas que não causam impacto no mundo ainda são acessíveis para o gato. Xu Yuan decorou o pequeno recipiente com flores, e ao ouvir o ronronar do gato, levantou o olhar para vê-lo em sua “caça” às serragens — começava com o vento que levantava as partículas e terminava ao agarrá-las entre as patas e morder, repetindo o processo incansavelmente.
A simplicidade de espírito tem suas vantagens; ao contrário dos humanos complexos, eles encontram alegria facilmente.
— Atchim! — o gato espirrou, espalhando serragem por toda parte.
...
O silêncio se instalava na propriedade à medida que a noite avançava e os insetos diminuíam o som. Xu Yuan acendeu uma vela, fechou a janela e trancou as estrelas lá fora antes de se deitar.
O gato, surpreso, pisou no linho sobre a palha: “Já está seco?!”
— Sim, o sol ajudou — respondeu Xu Yuan, limpando as mãos da serragem e repousando sobre a palha empilhada.
O sol e o vento foram generosos, e o linho, fino e respirável, secou completamente antes do anoitecer.
— Oh... — o gato olhou o linho sob as patas, hesitou entre dormir ou não e, decidindo, deitou-se.
Enquanto ele não falasse, ninguém saberia que não queria dormir ali, nem mesmo o dono.
A palha aquecida pelo sol guardava aquele aroma acolhedor; embora o linho permitisse que um pouco do cheiro passasse, ainda era muito mais confortável do que dormir diretamente nela — mérito do dono que lavou o lençol com suas próprias mãos!
Xu Yuan se levantou um pouco, olhou para o gato enrolado ao seu lado, apagou a vela e disse: — Boa noite.
— Boa noite, mestre — respondeu o gato, adormecendo com o cheiro fresco e acolhedor do dono.
Pelo jeito, o mestre tomou banho no riacho, e o gato, que detesta água e banhos, podia se identificar com aqueles humanos que também não gostam de se lavar...
Já quase dormindo, o gato abriu os olhos de repente e levantou-se.
Ele era, afinal, um gato que não gostava de limpeza?!