12 A Caixa de Fósforos (12)
Página (1/3)
Acompanhados por um caminho ladeado de flores de linho, um homem e um gato logo deixaram os limites daquela propriedade. O gatinho seguia extremamente feliz, sentindo que o céu voltara a ser azul e a água, límpida, até tornar a avistar o fosso que corria cheio de águas imundas, as muralhas altíssimas e o chão coberto de cascalho.
Quando Desejo pôs os pés na estrada diante do portão da cidade, o gato em seu ombro desapareceu outra vez, deixando uma justificativa bastante convincente:
【Tenho medo de que meus dados sejam contaminados.】
Depois de se acostumar com riachos cristalinos e ar fresco, o contraste provocado pelo retorno à cidade foi ainda mais brutal do que antes.
Por um instante, Desejo chegou a sentir a mesma dor de cabeça que Gru tivera ao sentir o perfume das rosas. Mas foi apenas por um instante; logo entrou na cidade como se aquilo fosse perfeitamente natural.
À tarde, era inevitável que as pessoas carregassem certa sonolência. Algumas se reuniam nas tavernas; outras descansavam sentadas à beira da estrada e, de passagem, comentavam sobre assuntos de seu interesse a respeito do belo jovem que caminhava por ali.
Em comparação com aqueles que ainda procuravam um lugar para se estabelecer, a situação de Mairon era muito melhor. Ele tinha sua própria loja e até empregara vários criados para trabalhar em seu lugar. Tudo de que precisava naquela tarde era recostar-se numa cadeira, beber vinho, comer algumas maçãs assadas, observar o movimento das pessoas e pensar no que gostaria de jantar.
Com os olhos semicerrados, escutava as pessoas sentadas junto à entrada da loja conversarem em voz baixa. Não conseguia evitar um certo orgulho ao pensar que, naquela cidade, o que menos valia era a beleza — e que, a menos que um homem fosse belo a ponto de ser impossível desviar os olhos dele, tampouco entraria facilmente no campo de visão das damas nobres. O padrão de exigência delas era realmente alto.
A cordialidade que demonstravam para com ele se devia, na maioria das vezes, apenas às especiarias. Não tinham o menor interesse em sua conversa ou em sua alma. Aquela era, sem dúvida, a única frustração digna de menção em sua vida de sucesso. Mas ninguém era perfeito...
Mairon ainda mantinha os olhos semicerrados quando, em meio à névoa de seu torpor, viu a figura alta que acabava de entrar na loja e despertou por completo.
A beleza dependia do julgamento de cada pessoa. As jovens nobres não amavam necessariamente os mesmos cavaleiros ou aristocratas. Mas, quanto ao jovem que entrara em sua loja, Mairon podia afirmar à primeira vista que ele seria recebido com entusiasmo fervoroso pelas damas da nobreza, tal como os aristocratas veneravam os cantores e artistas. Pessoas excelentes sempre eram profundamente admiradas.
O jovem que entrara pareceu notar seu olhar. Seus olhos dourados se voltaram para ele, carregando uma doçura semelhante à da água, e um sorriso discreto surgiu em seus lábios. Era até difícil sentir inveja dele.
— Nobre senhor, que especiarias deseja? — perguntou cordialmente o criado, que separava alguns temperos.
O homem recém-chegado lançou-lhe apenas um olhar antes de retirar a atenção e pousá-la sobre o criado de aparência absolutamente comum.
Mairon se inclinou por cima do encosto da cadeira e virou-se para observá-lo. Para ele, aquele movimento era extremamente difícil, mas valia a pena. O jovem possuía pernas longas o bastante para despertar inveja por toda uma vida. Embora vestisse uma túnica meio gasta e não parecesse rico, seu rosto e seu sorriso eram suficientes para enlouquecer qualquer dama nobre.
— Vim vender algumas coisas — disse Desejo.
Mairon podia ver seu perfil delicado. A voz tinha um timbre agradável e magnético, tão suave quanto o próprio homem, como se pudesse derreter o coração de quem a ouvisse.
— Sinto muito, nós aqui...
O criado falava nervosamente sob o olhar atento do patrão, temendo cometer algum erro.
Mas não conseguiu terminar, pois foi interrompido:
— Ora, rapaz, o que deseja vender?
Desejo voltou o rosto ao ouvir a voz e sorriu para o homem que se erguia com dificuldade, apoiando-se no corrimão.
— Algumas coisas que certamente lhe interessarão.
O homem que se levantara vestia uma longa túnica de seda que lhe cobria diretamente os tornozelos. As mangas largas eram ajustadas nos punhos, e uma correia de couro cingia-lhe a cintura. Embora faltassem desenhos e ornamentos em suas roupas, a fivela do cinto era dourada. O traje amplo fazia seu corpo parecer um tanto corpulento, mas o sorriso em seu rosto era afável e benevolente. Se ele não tivesse permanecido encarando Desejo desde o instante em que este entrara, talvez fosse possível acreditar naquela expressão.
【Cuidado, hospedeiro. Ele está olhando para você desde que entrou, como se quisesse vendê-lo.】
O gatinho possuía uma visão completa de tudo ao redor e não deixaria escapar nenhuma pista.
【Está bem.】
Desejo concordou.
Página (2/3)
— Admiro sua confiança — disse Mairon, erguendo a barra da túnica enquanto se aproximava.
Quando parou diante do jovem e precisou erguer o rosto para olhá-lo, sentiu mais uma vez a enorme diferença provocada pela aparência do outro.
Deus era sempre justo. Toda maçã tinha uma imperfeição. A dele era a aparência; a do jovem, a riqueza. E, naquela cidade, a riqueza era mais importante do que a beleza.
Por mais bonito que fosse, o rapaz ainda precisava ir à sua loja para vender alguma coisa e sustentar a própria vida.
— O que deseja vender?
— O senhor tem autoridade para decidir? — perguntou Desejo com um sorriso.
— Naturalmente — respondeu Mairon com orgulho. — Eu sou o proprietário desta loja.
— Nesse caso...
Desejo colocou a caixa de madeira sobre o balcão e abriu-a lentamente. Duas fileiras de pequenos recipientes delicados estavam dispostas em seu interior. Mesmo naquela loja impregnada de especiarias, o aroma intenso das rosas espalhou-se imediatamente pelo ambiente.
A expressão de Mairon mudou sutilmente. Ele estendeu a mão e retirou uma das caixinhas. Mesmo segurando-a fechada, sentia o perfume fluir sem cessar. Quando a abriu e contemplou a pasta de tom amarelo-leitoso em seu interior, inspirou profundamente e quase teve a sensação de estar vagando por um mar de flores.
— O que é isso?!
Uma mercadoria assim certamente alcançaria um preço astronômico entre os nobres!
— Pomada de rosas — explicou Desejo, observando-o cheirar repetidamente o produto.
— Como conseguiu algo assim?
Mairon olhou para o jovem diante dele como se tivesse encontrado uma montanha de ouro.
Como comerciante de especiarias, naturalmente já havia negociado óleos essenciais caros. Mas as condições necessárias para extraí-los eram extremamente rigorosas, e eles sempre continham todo tipo de impureza. A pasta diante de seus olhos era diferente: parecia uma porção de manteiga deliciosa, de uma pureza inacreditável. Além disso, era pequena e fácil de transportar. Os nobres poderiam abrir discretamente a caixinha a qualquer momento e aplicar o produto nos pulsos sem que ninguém percebesse.
— Veio do outro lado do mar — disse Desejo, acrescentando elogios: — Trata-se de um país muito rico e poderoso, com um exército formidável e perfumistas extraordinários. Gastei toda a minha fortuna para obter essas pomadas e atravessei inúmeras dificuldades para trazê-las até a cidade de Tansang. Quanto pode pagar por uma caixa?
Mairon segurou a caixinha sem se atrever a tocar na pomada. Cada porção merecia ser leiloada. Se a danificasse, arrepender-se-ia pelo resto da vida. Mas...
— Cof, cof... — Mairon limpou a garganta e sondou: — Meu caro, sei que teve muito trabalho para trazer essas especiarias, e elas realmente têm grande valor. Que tal uma moeda de ouro por caixa?
Embora as pomadas fossem extremamente valiosas, para construir uma fortuna sólida era necessário lucrar o máximo possível. Mairon começava a lamentar ter demonstrado tamanha surpresa antes; caso contrário, talvez pudesse ter reduzido ainda mais o preço.
Enquanto seus pensamentos giravam, assim que terminou de falar, o jovem tomou a pomada de suas mãos sem cerimônia, fechou a tampa e guardou-a de volta na caixa de madeira.
— Ora, meu rapaz, o que está fazendo?! — Mairon pressionou a caixa. — Se não estiver satisfeito, posso pagar duas moedas de ouro por caixa. Esse é definitivamente o preço máximo.
【Hospedeiro, duas moedas de ouro por caixa!】
O gatinho já ficara chocado com uma moeda de ouro e não imaginava que algo ainda mais surpreendente pudesse acontecer. Aquilo equivalia praticamente a ouro puro!
Desejo não soltou a caixa, mas também não tentou puxá-la à força. Apenas baixou os olhos para o comerciante, que a segurava com ambas as mãos, e sorriu.
— Senhor, se não demonstra nenhuma sinceridade, posso procurar outra loja. Há nove lojas de especiarias em Tansang, e seus proprietários ficariam muito felizes em usar esse produto para elevar ainda mais seus negócios.
Mairon ouviu aquelas palavras suaves, mas firmes, e engoliu em seco.
Precisava admitir que o jovem tinha razão. O valor daquelas pomadas não estava apenas na pureza e na praticidade, mas também na raridade. Os nobres gostavam de coisas únicas. Ele não precisaria vender as dez caixas apenas em Tansang; poderia levá-las a outros países e cidades. Bastaria gastar algum dinheiro com transporte para conquistar o favor de muitos aristocratas e abrir canais comerciais ainda maiores. A riqueza que isso traria seria incalculável.
Página (3/3)
Talvez ele fosse realmente um aventureiro dos mares, e não apenas um ignorante dotado de um belo rosto.
— Está bem, está bem... — Mairon respirou fundo, arrependido de ter subestimado o jovem. Suportando a dor da perda e pensando nos lucros futuros, declarou: — Posso oferecer no máximo dez moedas de ouro por caixa. Não posso pagar mais do que isso.
Desejo baixou os olhos, revelando certa hesitação. Depois de um longo momento, respondeu:
— Está bem. Dez moedas de ouro, então.
Assim que ouviu a resposta, Mairon soltou um suspiro de alívio. Tentou puxar a caixa de madeira, mas não conseguiu. O jovem também não demonstrou qualquer intenção de soltá-la.
— Espere um instante. Vou preparar as moedas.
Mairon soltou lentamente as mãos, compreendendo que, sem apresentar o ouro, a mercadoria não chegaria até ele.
— Está bem.
Desejo fechou a caixa e também a soltou.
Mairon fez um gesto para o criado, que ainda parecia aturdido, e subiu ao segundo andar. Desejo permaneceu imóvel junto ao balcão, enquanto o criado saiu dos fundos e bloqueou a entrada.
【Hospedeiro, será que eles vão tentar tomar tudo à força?】
O coração do gatinho, abalado pelas cem moedas de ouro, voltou a apertar-se.
【Fique tranquilo. Não vale a pena ir para a prisão por cem moedas de ouro.】
Aquela loja de especiarias operava em grande escala. Para pessoas ricas, quando um problema podia ser resolvido com dinheiro, não havia necessidade de recorrer à violência. Se Mairon pretendesse roubá-lo, não teria mencionado cem moedas de ouro. Além disso, os lucros posteriores gerados por aquela mercadoria seriam muito superiores àquela quantia.
Como esperado, pouco depois, passos apressados soaram na escada. A figura corpulenta surgiu carregando uma bolsa de dinheiro e colocou-a sobre o balcão.
— Pode contar.
Desejo estendeu a mão, pegou a bolsa, abriu o cordão e retirou uma moeda de ouro. Examinou-a por alguns instantes e então a sopesou na palma.
— É capaz de determinar o peso apenas fazendo isso? — perguntou Mairon, curioso.
— Sou.
Desejo recolocou a moeda na bolsa, ergueu-a inteira e sorriu.
— A quantidade está correta. O senhor é um comerciante honesto.
— Sou conhecido como Mairon, o mais honesto — declarou ele, maravilhado com a habilidade do jovem. Não faltava sequer uma moeda, e o rapaz diante dele também era um comerciante extraordinário. — Se tiver mais alguma coisa para vender no futuro, por favor, considere-me sua primeira opção.
— Certamente, honesto senhor Mairon.
Desejo retirou algumas moedas de ouro e, como antes, guardou-as na manga. Em seguida, amarrou o restante junto à cintura e sorriu.
— Aguardo ansiosamente nossa próxima parceria.
Virou-se e saiu com a mesma leveza nos passos e na expressão que demonstrara ao chegar. Não havia nele o menor sinal de euforia por ter acabado de obter uma fortuna. Se não tivessem visto com os próprios olhos, ninguém imaginaria que aquele jovem carregava tantas moedas de ouro consigo.
— Ora, que sujeito sortudo — murmurou Mairon, levando a mão ao peito muito depois de a silhueta do jovem desaparecer.
Como ele conseguia chamá-lo por aquele tratamento íntimo com uma voz tão suave e brincalhona? Seu coração, já preenchido pelo dinheiro, quase estremecera com aquilo.