2 Caixa de Fósforos (2)

Em vez de namorar, faça um desejo [Transmigração Rápida] Raposa Yang 3564 palavras 2026-07-31 03:06:14

Subir do fundo do buraco era um pouco mais difícil do que descer escorregando; até a corda ficava mais tensa do que quando ele descia.

O sistema avaliava a tensão, calculando que, se o hospedeiro levasse uma trouxa cheia de moedas de cobre, havia mesmo a possibilidade de a corda arrebentar no meio da subida.

No fim da corda, Xuyuan agarrou um galho e se içou. Depois de se firmar, desatou a corda da cintura e da árvore, e então desceu ao chão pelas raízes retorcidas.

[O que devemos fazer com o cachorro amarrado?] ponderou o sistema.

Embora gatos e cachorros vivessem sempre em pé de guerra, ficar amarrado devia ser muito desconfortável; além disso, era fácil acabar dando ocasião a que outros se aproveitassem do lugar.

[A corda vai arrebentar depois de ele se debater por mais um tempo.] Xuyuan enrolou a corda. [Ou, quando o dono da caixa de fogo o invocar, alguém virá soltá-lo.]

[Mas assim ele não vai perceber que alguém passou por aqui?] perguntou o sistema, um tanto preocupado.

Até entre parentes podia haver briga por causa de um tesouro, quanto mais entre estranhos.

[Não importa. Nesta era não há vigilância.] Xuyuan pôs a corda sobre o ombro e sorriu. Com folhas caídas como apoio, apanhou do chão a cabeça que a bruxa deixara cair e a colocou, junto com os ossos, no buraco irregular. Depois cobriu tudo com folhas e terra.

Pelos vestígios deixados na árvore, a última visita havia ocorrido há menos de três dias. Embora os ossos da bruxa já tivessem se tornado brancos, aquilo não parecia um processo natural; talvez tivesse sido obra de animais necrófagos.

Xuyuan se levantou e saiu daquela floresta silenciosa, seguindo de volta pela trilha por onde a luz do sol lhe feria um pouco os olhos.

A cidade não ficava muito longe dali, mas, na boca do povo, aquele era um bosque habitado por bruxas. Naquela época, elas representavam o mal e o demônio, e pouca gente queria se aproximar. O soldado passava por ali porque estava a caminho da aposentadoria e voltava para casa; só que, agora, não precisava mais retornar.

A pequena aldeia carecia de lugares onde gastar moedas de ouro; até comprar um pouco de tecido era difícil. Se quisesse uma vida melhor, voltar à cidade era a única escolha inevitável.

Seguindo pela vereda esburacada, tomada de ervas daninhas, a estrada se alargou um pouco ao avistar-se a muralha, mas continuava cheia de covas e de pegadas de cavalos e de passos. Só ao chegar mais perto é que se via a imensa muralha, erguida com majestade; o fosso a contornava e corria em torno dela. Quando já era possível ver os soldados guardando o portão, o caminho se transformava em cascalho, havia mais gente por perto, e, ao mesmo tempo, o cheiro também se tornava muito mais complexo.

A gata alva e macia, deitada sobre seu ombro, já pressionara a patinha contra o próprio nariz. Xuyuan lançou um olhar para a água do fosso, tocou de leve o nariz com um dedo e então se pôs no fim da fila.

A fila não era longa, apenas o custo de entrar e sair da cidade fazia o processo demorar um pouco.

Esperar na fila era entediante; sobretudo quando, no fim dela, ainda era preciso pagar. Isso bastava para que os que ali esperavam encontrassem algum assunto interessante para discutir. Antes talvez fosse outra coisa, mas, desta vez, o tema era o homem especialmente alto e bonito na fila.

— Aquele é um nobre ilustre? — Um olhar avaliador pousou em Xuyuan, mas se recolheu depressa quase no mesmo instante, e a voz baixíssima perguntou ao companheiro:

— Não. Os nobres desta cidade vestem roupas caríssimas. — O companheiro também falou em voz baixa. — Elas têm desenhos muito bonitos, não sei quantas moedas de ouro custam. Ele deve ser...

A pessoa lançou um olhar ao redor, especialmente sobre Xuyuan, e especulou:

— Talvez seja um caçador, e hoje talvez não tenha conseguido nada.

Trazia uma adaga na cintura e uma corda pendurada no ombro, mas nada carregava nas mãos; talvez nem o almoço do dia tivesse garantido.

— Ele é mesmo bonito. Quem diria que não era um nobre. — Suspirou outra pessoa. — Será que vai se casar com alguma nobre?

— Não. Mas o rosto dele agradará muito aos nobres; talvez até possa tornar-se um de seus amantes...

— Então talvez em breve ele consiga vestir roupas muito valiosas.

As frases murmuradas nem sempre eram completamente audíveis, e o que não chegava aos ouvidos era resumido e transmitido pelo sistema.

[Hospedeiro, estão elogiando sua beleza.] resumiu a pequena gata.

Xuyuan soltou uma leve risada. O sorriso era quase tão deslumbrante quanto o sol e fez até o soldado que cobrava a entrada erguer os olhos e lançar mais de uma olhada.

— A entrada custa cinco moedas de cobre. — disse o soldado, fitando o homem que se aproximava. No íntimo, pensava que aquele ali estava prestes a ter sorte, pois realmente tinha um rosto muito agradável, bonito o bastante e, surpreendentemente, sem agressividade alguma. Se não fosse pela túnica um tanto gasta que vestia, até pareceria um nobre disfarçado de plebeu; e, mesmo que não fosse, as damas ainda assim se sentiriam felizes em parar para admirá-lo.

— Os que passaram antes pagaram três. — disse Xuyuan, olhando para os que já haviam entrado.

— Desculpe, para você o preço aumentou. — O sorriso no canto da boca do soldado carregava certa maldade.

Atrás dele, os que aguardavam na fila exclamaram e se agitaram um pouco, mas logo se calaram diante das armas empunhadas pelos guardas.

— Muito bem. — Xuyuan virou a cabeça para olhar uma vez mais, tirou do punho mais duas moedas de cobre e as colocou sobre a mesa da entrada.

O soldado que barrava o caminho, ao ver a gata branca tentando arranhá-lo, abriu passagem com um sorriso.

— Pode entrar.

— Obrigado. — Xuyuan assentiu, puxou a corda e atravessou o portão.

[Hah...!] e a gata em seu ombro ainda soprava contra o soldado que já recebia outro pagamento da entrada. [O diabo é fácil de lidar; difícil mesmo são os capetinhas!]

[É mesmo. Parece que ser bonito não me faz economizar dinheiro.] disse Xuyuan, olhando para a cidade movimentada diante de si, com um sorriso.

O sistema recolheu o olhar e voltou a tapar o próprio nariz.

[Mas eu continuo muito irritada!]

Ninguém conseguia tirar vantagem da gatinha, muito menos do hospedeiro que a acompanhava.

[Não fique irritada; pelo menos, conseguimos entrar os dois.] Xuyuan ajustou a aba do chapéu e observou a disposição das janelas do segundo andar nas casas ao longo da rua, avançando com cuidado para evitar encostar em algum “pântano” ou receber uma “gentileza” caída do céu. Elas também eram uma das principais fontes do cheiro daquela cidade, e eram ainda piores do que o fundo daquele poço profundo.

[Não dá. Se continuar assim, vou desmaiar. Hospedeiro, força.] A gata, tonta, cambaleando sobre o ombro, mostrou-se muito pouco solidária e virou um punhado de pontos luminosos, desaparecendo do ombro de Xuyuan.

Não é à toa que o hospedeiro era o hospedeiro; ela só podia ser o sistema. De fato, eram coisas de outro nível.

Os passos de Xuyuan vacilaram por um instante, mas ele seguiu em frente e, afinal, atravessou a área residencial. Parou diante de uma padaria e, ao sentir o aroma de farinha de trigo, sua respiração pesou por um momento.

[Hospedeiro, você vai morar na cidade para sempre?] soou a voz do sistema em sua mente.

Ela já estava preparada para, caso o hospedeiro escolhesse a cidade, passar a viver de longa permanência no espaço do sistema, porque gatos eram limpos por natureza, e cada sopro daquele ar era uma contaminação para o pelo felino.

[Não.] Xuyuan caminhou em direção à padaria e deu uma resposta clara.

— Bom dia, prezado cliente. O que deseja? — O dono, sentado no interior da loja, recebeu-o com entusiasmo. — Hoje temos queijo fresco e pão saído do forno. Se vier acompanhado de nossa cerveja de malte exclusiva, ficará excelente.

— Quero um pão de centeio. — disse Xuyuan, com um sorriso leve.

— Certo, duas moedas de cobre. Espere um instante. — O sorriso do dono desapareceu visivelmente, e ele se virou para buscar o pão de centeio.

— Estou disposto a pagar uma moeda de cobre a mais. Por favor, não encha o pão com terra ou teias de aranha. — disse Xuyuan, sorrindo.

Seu tom era ameno, mas o dono, que cortava o pão, parou por um instante. Em seguida, entregou-o com um sorriso:

— Como assim? Quem faria uma coisa dessas? Somos todos comerciantes honestos. Aqui está o seu pão, pode levar.

Embora fosse um forasteiro, não parecia tão miserável assim; além disso, sua cabeça não era vazia como a presa dentro do laço dele.

— Obrigado. — Xuyuan pagou três moedas de cobre e pegou o pão.

— Só pão é seco demais. Quer um pouco de cerveja de malte? A nossa é a melhor da rua. — acrescentou o dono por impulso.

— Agradeço a gentileza, mas não precisa. — Xuyuan saiu com o pão, levou-o à boca e deu uma mordida para aliviar o estômago já um tanto vazio.

[Hospedeiro, como está o sabor?] perguntou o sistema, curioso.

Embora parecesse escuro, pelo menos tinha aparência fofa.

[Um pouco ruim.] respondeu Xuyuan, sentindo a textura seca e áspera.

Embora o dono da padaria não fosse honesto, havia ao menos uma coisa sobre a qual não mentira: estava realmente seco demais.

Mesmo assim, Xuyuan continuou comendo o pão, mordida após mordida.

O sistema pensou consigo que talvez não fosse tão ruim assim; pelo menos não a ponto de tornar a deglutição impossível para o hospedeiro: [Hospedeiro, posso provar um pouco?]

[Claro.] Xuyuan rasgou um pequeno pedaço da extremidade do pão e o entregou à gata, que reaparecera sobre o ombro.

Embora houvesse muitos transeuntes e muitos olhos também se demorassem em Xuyuan, a fome fazia com que muita gente andasse apressada, sem tempo para prestar atenção ao quão notável era o rosto de alguém. Ao mesmo tempo, também precisavam tomar cuidado para que o lojista não acrescentasse algo impróprio à comida, e ainda vigiar, por instinto, a possibilidade de haver alguma “gentileza” surgindo até mesmo no bairro das padarias.

Encontrar um ângulo cego por um instante não era difícil; o pequeno pedaço de pão ser fisgado pela pata até a boca do gato também levou só um instante. E, claro, cuspir aquilo de volta levou outro instante.

[Pff, pff, pff!] A gata sobre o ombro eriçou todo o pelo, tentando falar, mas o gosto azedo e seco lhe enchia a boca, obrigando-a a cuspir sem parar.

[Nunca comi nada tão horrível!]

[Meu Deus, isso é uma punição para as minhas papilas gustativas. Eu preferia comer terra a tentar esse alimento de novo!]

A pequena gata saltava de um lado para o outro no ombro, repetindo sem cessar o quão cruel fora o tratamento recebido. Mas, ao se virar, o que viu foi que o hospedeiro já havia comido quase todo o pão: [Hospedeiro, como você ainda consegue comer?! Você não tem paladar?!]

[Não se pode desperdiçar comida.] disse Xuyuan, engolindo a última mordida. [Pelo menos está limpo.]

[Ah...] O sistema soltou um som e parou de se eriçar, agachando-se.

Havia, de fato, uma diferença essencial entre sua resistência e a do hospedeiro. Talvez os sistemas gustativos fossem diferentes; embora aquele pão não fosse apenas um pouco ruim, mas péssimo, o hospedeiro certamente não estava fazendo isso de propósito.

Afinal, o olfato de um gato era muito mais aguçado do que o de um humano; talvez o paladar também fosse.