10º Capítulo

Graça da Fênix Xiyun 5217 palavras 2026-07-31 03:08:12

Pei Jun retornou ao gabinete imperial e emitiu um decreto para reabilitar o velho censor, restaurando-o em seu posto original; os demais seguidores de Jiang Bin deveriam ser decapitados ou exilados conforme o merecimento, e toda a ordem foi estabelecida em um único documento imperial.

Feng Ning entrou junto e colocou uma tigela de suco de ameixa azeda sobre uma mesa ao lado, esperando que Pei Jun o degustasse. Após finalizar os despachos, Pei Jun entregou o decreto ao escriba Han Yu e, ao ver Feng Ning ajoelhada diante dele, perguntou:

— O que houve?

Feng Ning fez uma reverência solene e disse:

— Sua Majestade, esta serva cometeu um erro e causou-lhe transtornos.

Pei Jun riu com uma mistura de irritação e divertimento, passando a mão instintivamente por algo que não encontrou em sua palma, e então pousou-a suavemente sobre a mesa imperial.

Feng Ning sentiu sua culpa se aprofundar.

Ele olhou para sua expressão derrotada e perguntou:

— O que você fez de errado?

Ela engoliu em seco e não conseguiu responder.

O olhar de Pei Jun tornou-se penetrante:

— Quem te ensinou que sentir-se culpada por ser cobiçada é um erro seu?

Feng Ning ficou atônita. Desde a morte de sua mãe biológica, sua madrasta a manteve confinada nos aposentos internos por oito anos, proibindo-a de ver qualquer homem exterior, exceto os administradores da casa e o professor particular. Certa vez, ao ouvir risadas masculinas no salão das flores, ela espiou pela janela e foi severamente repreendida pela madrasta, que a acusou de desonra e de seduzir homens.

A pequena Feng Ning, magoada, não ousava protestar. No começo, realmente acreditava que sua madrasta agia por seu bem; só mais tarde compreendeu que era para evitar um encontro com o herdeiro do Marquês de Yongning, que planejava tomar seu noivado. Condenada a anos de confinamento, sua mentalidade arraigada não mudava facilmente. Apenas agora, com o despertar provocado por Pei Jun, percebeu que não estava errada.

Ela não era culpada; os mal-intencionados é que o eram.

— Agradeço a benevolência de Vossa Majestade. Esta serva recebeu sua lição.

Pei Jun deu uma risada seca. Sua capacidade de compreensão não era tão ruim assim.

Quanto ao rosário budista, foi ele quem decidiu descartá-lo; nada tinha a ver com Li Feng Ning. Pei Jun jamais se demorava com assuntos insignificantes.

— Pessoas boas são facilmente enganadas. Aprenda com Liang Bing: lembre-se, neste mundo, além de você mesma, ninguém é confiável.

Ele acenou com a mão, cansado, e disse:

— Pare de ficar aí parado e vá embora.

Ele não gostava de ver mulheres chorando; isso lhe dava dor de cabeça.

Feng Ning guardou tudo em seu coração, entendendo mais ou menos que tipo de moça ele gostava. Seu peito apertou, e ela fez mais algumas reverências antes de sair do gabinete imperial.

Ao retornar aos aposentos no lado oeste, encontrou Liang Bing, que voltara após ser punida. Pei Jun era assim: admirava o caráter de Liang Bing, mas não tolerava que ela quebrasse as regras. O Departamento da Corte aplicou-lhe dez golpes de vara, não muito severos, e ela voltou ao trabalho, apoiando-se na cintura.

Feng Ning, comovida, tratou de providenciar uma almofada macia para ela e pediu aos eunucos que trouxessem gelo para os pés machucados.

Liang Bing, vendo a expressão abatida de Feng Ning, murmurou, apoiando a testa na mão:

— É porque não gosto dele, não por sua causa. Não leve isso a sério.

Sua voz soava igual à de Pei Jun: durona por fora, mas sincera no fundo.

Feng Ning sorriu entre lágrimas e lhe ofereceu um copo de chá gelado:

— Você foi punida, deveria voltar ao Palácio Yanxi para descansar. Por que voltou para trabalhar?

Liang Bing sentou-se cuidadosamente, já com documentos abertos, sem levantar a cabeça:

— Yang Wan pediu licença. Não há quem possa sair do palácio, e eu não posso ir. Além disso, foi minha própria escolha e assumo a responsabilidade.

Era uma moça extremamente forte e determinada, o que impressionou Feng Ning. Sentou-se ao seu lado e perguntou:

— Então, veja, há algo em que eu possa ajudar?

Liang Bing olhou para ela friamente:

— Como está sua caligrafia?

Feng Ning sorriu sem jeito:

— Mais ou menos.

— Então não é boa — respondeu Liang Bing, jamais elogiando alguém. Indicou que Feng Ning pegasse uma grande caixa no armário à esquerda, contendo duas pilhas de documentos.

— O volume fino à esquerda é o livro de contas enviado pelo Ministério da Fazenda; o grosso à direita são os recibos de prestação de contas dos seis departamentos e vinte e quatro divisões do palácio. Você deve conferir um por um para evitar fraudes.

Feng Ning recebeu os papéis com seriedade. No começo, esbarrava em dificuldades, perguntava a cada página, mas logo pegou o jeito e conferia rapidamente.

Quando a noite caiu, Zhang Peipei veio substituí-la, mas Feng Ning relutava em ir embora.

Ela estava praticando caligrafia.

— Por que de repente você está ocupada com isso? — Zhang Peipei apertou sua bochecha.

Feng Ning envergonhou-se:

— A irmã Liang disse que minha caligrafia é ruim, quero melhorar.

Zhang Peipei puxou-a para levantar e a empurrou para fora:

— Vá praticar. Na escrivaninha perto da janela leste, tenho uma cópia do “Estela Misteriosa da Torre” de Liu Gongquan. Pratique copiando.

Feng Ning esfregou os olhos cansados e finalmente se rendeu.

Todos os dias, o imperador recebia alimentos que não consumia e os distribuía como prêmios. Feng Ning lembrou-se de Yang Yusu no Palácio Yanxi e pediu a Liu Hai que preparasse dois pratos que ela gostava, colocando-os numa caixa de comida para enviar.

A comida imperial era incomparável à da grande cozinha. Yang Yusu saboreou uma lagosta vermelha há muito não vista.

— Ning Ning, parece que você está se saindo bem no Palácio Yangxin. Até o Grande Intendente lhe concedeu essa lagosta?

Feng Ning, recostada ao lado dela, sorriu timidamente:

— O Eunuch Liu é muito amável.

— E o imperador? — perguntou Yang Yusu.

Feng Ning pensou em Pei Jun, sentindo um leve aperto no peito:

— Sua Majestade é exigente e acha que sou lenta.

Yang Yusu riu, arrancando uma perna de lagosta e molhando-a na mostarda para oferecer a Feng Ning:

— Se ele te acha lenta, mas ainda não te expulsou do Palácio Yangxin, é porque gosta de você.

Feng Ning corou:

— Não é verdade... O imperador ameaçou me expulsar, mas eu fui persistente e fiquei.

Yang Yusu conhecia as dificuldades nos aposentos internos da família Li e falou seriamente:

— Você não pode sair do palácio agora. Se não puder permanecer como consorte no palácio, ao menos conquiste um título para voltar com honra.

Feng Ning sorriu sem responder.

Dois dias depois, Pei Jun finalmente recebeu um memorial com felicitações, que destacava os pontos cruciais da controvérsia sobre o grande ritual, apontando falhas de Yang Yuanzheng e outros, alegando que a vontade do antecessor mencionava apenas a “sucessão ao trono”, sem especificar a continuidade da linhagem imperial, dando margem para manobras políticas de Pei Jun. O memorial também criticava a administração decadente do reinado anterior, listando diversas políticas e seus méritos.

Pei Jun considerou aquilo um tesouro e imediatamente convocou o ministro para o palácio. Após um diálogo com os conselheiros, elevou-o ao posto de Vice-Ministro do Pessoal.

Claro que o gabinete imperial rejeitou o decreto, pois na Dinastia Dajin, os decretos do imperador precisavam da aprovação do gabinete para vigorar oficialmente; caso contrário, eram apenas ordens imperiais com menor prestígio.

É aqui que se revela a astúcia do jovem soberano: ordenou a Yang Wan que levasse o decreto ao Palácio Cining.

A imperatriz viúva, detentora do selo imperial, cuidaria do assunto.

No Palácio Cining, a imperatriz viúva esperava que Zhang Peipei se tornasse imperatriz, enquanto Yang Yuanzheng apoiava sua própria neta na disputa. Os dois, antes cooperativos, divergiam nesse ponto. Ao ver Yang Wan, a imperatriz viúva não hesitou e carimbou o memorial para ser enviado ao gabinete.

O gabinete poderia rejeitar, mas como era a imperatriz viúva, o imperador e ela emitiram o decreto em conjunto. Se os ministros insistissem em oposição, seria uma quebra de protocolo. Yang Yuanzheng hesitou, e os demais ministros começaram a aconselhar. Assim, o decreto foi finalmente expedido ao Ministério do Pessoal, e Wang Qizhen nomeado Vice-Ministro do Pessoal.

O caso de Jiang Bin havia envolvido vários ministros, liberando várias vagas, e o novo Vice-Ministro foi fundamental para colocar partidários do imperador em cargos-chave.

Assim, Pei Jun, passo a passo, começou a controlar a situação política.

Nos últimos dias, com Yang Wan ausente e Liang Bing ferida, Feng Ning acumulava tarefas, correndo para a cozinha imperial preparar refeições, depois ajudando Liang Bing a organizar documentos no aposento ocidental. Com o calor, a ferida de Liang Bing inflamou um pouco, e Feng Ning providenciou um médico imperial. Apesar do cansaço e sofrimento, ela mantinha um sorriso — uma jovem resiliente e laboriosa.

Ninguém não gostava dela.

Mas a inexperiência cobrava seu preço: ao transcrever documentos, Feng Ning errou um valor, fazendo com que um oficial do Ministério da Fazenda trabalhasse a noite toda para revisar. Descobriu-se que o erro estava nos documentos do Palácio Yangxin. Pei Jun ficou furioso; ele não tolerava erros. Segundo as regras, Feng Ning deveria ser punida com vara ou expulsa do Palácio Yangxin.

Ela ajoelhou-se, contendo as lágrimas e implorou:

— Majestade, por favor, puna-me com a vara.

Ela não queria deixar o Palácio Yangxin.

Pei Jun franziu a testa lendo o memorial e não respondeu.

Liu Hai, que não queria ver a jovem tão delicada ser punida, ajoelhou-se diante dos pés de Pei Jun, suplicando:

— Majestade, considere a minha lealdade e poupe a senhorita Feng. Ela tem estado muito ocupada...

Pei Jun o interrompeu friamente:

— Ocupação é desculpa?

— Se não tem capacidade, não assuma o trabalho. Aqui é o centro do império, não se admite erros.

Liu Hai não teve o que responder.

Liang Bing, ao saber, correu até lá e ajoelhou-se ao lado de Feng Ning, afirmando com firmeza:

— Majestade, se alguém deve ser punida, sou eu. Essa era minha responsabilidade. Feng Ning apenas me ajudava, e o erro foi dela.

Liang Bing e Yang Wan eram as funcionárias mais capazes perante o imperador; expulsar Feng Ning era impossível. Restava apenas a punição física.

Mas Liang Bing acabara de levar dez golpes e Feng Ning chorou:

— Não pode ser. Seu corpo ainda não está recuperado. Se alguém deve apanhar, que seja eu.

Antes que Liang Bing pudesse responder, Pei Jun jogou o memorial sobre a mesa e zombou:

— Vocês acham que o Palácio Yangxin é um mercado de verduras?

As três ficaram sem palavras.

Liang Bing não queria ver Feng Ning sofrer, e ela, por sua vez, não queria que Liang Bing passasse por isso.

O que fazer?

Feng Ning olhou para o homem acima, de expressão impassível, e finalmente cerrou os dentes. Entre ele e Liang Bing, escolheu esta última, e, emocionada, disse:

— Majestade, peço permissão para deixar o Palácio Yangxin.

Pei Jun não respondeu, tacitamente aceitando.

Assumir a responsabilidade com coragem, ao menos tinha um pouco de dignidade.

Feng Ning arrumou alguns livros e voltou ao Palácio Yanxi.

Seu ânimo estava baixo; ela repousou silenciosamente no leito.

Yang Yusu a consolou:

— Não leve a sério. Você já fez muito bem. O imperador é muito rigoroso.

— Peipei enviou um frango embrulhado em folha de lótus para nós. Primeiro coma para se fortalecer e, depois, volte com tudo.

Feng Ning sorriu com sua franqueza:

— Sim, nada é mais importante do que estar satisfeito.

Feng Ning crescera sob a sombra da madrasta e do pai negligente, sobrevivendo a muitas dificuldades. Não havia obstáculo intransponível para ela. Após um dia de descanso, ela voltou a ser a pequena Feng Ning cheia de vigor.

No segundo dia após sua saída do Palácio Yangxin, Zhang Peipei já sentia-se incapaz de dar conta do trabalho. Ela não suportava o esforço como Feng Ning, e o sabor das refeições servidas a Pei Jun mudou.

Antes não notava, mas comparando os dois, os bolos feitos por Feng Ning eram mais delicados.

E daí?

Pei Jun não mudava de ideia por causa de comida. Ele jamais olhava para trás.

Quando Feng Ning teve tempo livre, dedicou-se seriamente à caligrafia. Yang Yusu, menos paciente, às vezes a levava ao jardim imperial para brincar. Yang Yusu trabalhava no Departamento de Vestuário Imperial e frequentemente ia ao Departamento de Costura fora do palácio para tratar de assuntos palacianos. O Departamento ficava fora do Portão Xuanwu, e Feng Ning esperava por ela no jardim imperial.

No sopé da Montanha Duixiu, havia um campo de peônias, coloridas e alinhadas como um tapete de seda. Feng Ning segurava uma pequena cesta, colhendo pétalas para fazer tinta para pintar as unhas. De repente, ouviu um miado muito suave vindo do meio das flores. Ao olhar com atenção, encontrou um pequeno gato branco e magro escondido sob as peônias, com olhos negros e tristes que a fitavam.

Parecia que via a si mesma na infância. Seu coração amoleceu, largou a cesta e o pegou no colo.

— Você se perdeu?

O gato, do tamanho de uma palma, emitiu um miado fraco, parecendo um órfão sem lar. Feng Ning lembrou-se da recente operação da Guarda Imperial para eliminar cães e gatos, após o cão de Mao Chunxiu atacar alguém, com o Departamento da Secretaria Real e a Guarda Imperial revistando todo o palácio. Acreditava que todos os animais haviam sido expulsos, exceto este gatinho, provavelmente deixado no jardim logo após nascer.

Feng Ning o acariciou com cuidado:

— Não tenha medo. Vou te arranjar algum petisco.

Ela tirou alguns bolinhos do bolso e os pôs sobre uma folha limpa; o gatinho lambeu delicadamente ao seu lado.

Passos familiares soaram atrás dela.

Feng Ning virou-se e viu Pei Jun retornando da caçada, caminhando rapidamente pelo Portão Shunzhen. Ela estremeceu, apressou-se a esconder o gatinho na manga, mas ele lutava para sair. Desesperada, ela pressionou-o para dentro, e assim, ela e o gato travaram uma pequena batalha diante dos olhos dele.

Pei Jun sempre se divertia com as travessuras de Li Feng Ning.

— Você acha que sou cego? — pensou.

Ele já sabia muito bem que ela insistia em esconder.

— Levante-se.

Ele observava sua encenação.

Feng Ning levantou-se curvada, uma mão ainda dentro da manga segurando a pata do gatinho, sem desistir de ocultá-lo.

— Obrigada, Majestade...

Ela desviou para o lado, deixando-o passar.

Pei Jun a observava com interesse, parando a três passos dela, sem intenção de ir embora.

Feng Ning ficou sem graça.

— Ma-Majestade, você não está ocupado?

— Este é o jardim imperial — disse ele, sugerindo que estava apreciando a paisagem.

Ela nunca o vira tão ocioso.

Feng Ning murmurou algumas palavras malditas para si mesma, quase perdendo a compostura, e forçou um sorriso ainda mais estranho que o choro:

— Posso me retirar, então?

Pei Jun olhou fixamente, com os olhos dizendo: "Você ousa?"

Ela sabia que não escaparia, respirou fundo, puxou o gatinho para fora da manga e, com coragem, perguntou:

— Majestade, encontrei este gatinho. Parece que seus pais o abandonaram. Não acha que ele é muito triste?

No fundo, só queria ficar com o bichinho.

Pei Jun realmente não gostava de gatos ou cães e, pelo seu temperamento, teria mandado o animal para fora do palácio. Talvez fosse por ver a semelhança da aparência triste de Feng Ning com o gato, ou talvez por tédio, respondeu calmamente:

— Você pode criá-lo, mas não pode levá-lo para dentro do palácio.

Ou seja, só poderia ficar no jardim imperial.

Feng Ning ficou radiante, até as covinhas apareceram no sorriso:

— Agradeço a grande benevolência de Vossa Majestade.

De tão feliz, ela ainda segurou a cabeça do gatinho para que ele fizesse uma reverência ao imperador:

— Juan Juan, vá agradecer a Majestade.

O gato enrolou o rabo três vezes, e Feng Ning decidiu chamá-lo de Juan Juan.

Juan Juan, porém, tinha mais dignidade que a dona e recusou-se a se curvar. Feng Ning ficou embaraçada e teve que escondê-lo novamente.

Era a primeira vez que Pei Jun encontrava alguém assim: desajeitada e um tanto ingênua.

Ele balançou a cabeça e caminhou em direção ao Palácio Yangxin.

Já fazia vários dias que Feng Ning não o via. Seus olhos não puderam deixar de seguir sua figura, ainda ereta, como se jamais se curvasse.

Ela falou sem pensar:

— Majestade, ainda tenho chance de voltar ao Palácio Yangxin?

Sua voz suave continha uma determinação indomável.

Ele não sabia que essa moça era tão teimosa.

Pei Jun parou, olhou para ela. A brisa suave da noite agitava sua roupa, ela estava alta e esguia sob o pôr do sol, seus cabelos negros como asas de corvo refletiam a luz dourada, e seu rosto parecia banhado numa luz suave do tempo.

Pei Jun ficou raramente surpreso.