Capítulo 11
“E além disso, o caráter dele... você vai gostar.”
O sonho começava com a convicção de Esmeralda, uma frase que parecia gravada na alma de Areia Dourada, frequentemente ressoando em sua mente.
Areia Dourada ainda se lembrava de que, no início, sua impressão sobre Esmeralda era bastante indiferente. Gostar dele? Nem ele mesmo conseguia descrever suas preferências, então como os outros poderiam saber?
Exatamente como Areia Dourada pensava no começo, sua primeira impressão de Tsu Yu foi a de alguém muito atencioso e cuidadoso.
Mas, no fundo, Areia Dourada nutria algumas suspeitas negativas. Depois de tantas experiências na empresa, ele não esperava nada das habilidades profissionais dos colegas, muito menos de alguém como Tsu Yu, que parecia mais adequado para ser assistente pessoal.
Se ele era forte em uma área, provavelmente seria fraco em outra, por exemplo, no trabalho. Areia Dourada imaginava que sua vida dificilmente seria tão tranquila; Esmeralda havia enviado especialmente um assistente pessoal para ele, então talvez ele precisasse se esforçar mais no trabalho.
No entanto, ao ver os documentos pré-processados e classificados na tela, e também o rigoroso cronograma de trabalho do outro lado, Areia Dourada ficou impressionado pela primeira vez com o jovem de cabelos prateados preso num coque.
Ele jamais imaginou que alguém que aparentava ser tão dócil e habilidoso nas tarefas do dia a dia também fosse um profissional tão competente.
“Senhor Areia Dourada, organizei esses documentos conforme meus hábitos de trabalho. Gostaria de saber se o senhor se acostuma com isso. Caso tenha sugestões de melhorias, por favor, me informe para que eu possa me adaptar rapidamente e ajustar conforme sua preferência.”
Ele parecia não notar o olhar surpreso de Areia Dourada, concentrado em seu tablet, pacientemente esperando as observações do chefe.
Areia Dourada o observou com cautela mais algumas vezes, sem saber se aquilo era fruto do entusiasmo de quem acabara de assumir o cargo ou se Tsu Yu sempre fora assim dedicado.
E então, no segundo dia, no terceiro... até o segundo mês...
O trabalho de Areia Dourada continuava organizado meticulosamente.
Naquela época, a maior dúvida de Areia Dourada não era sobre a eficiência de Tsu Yu, mas sim...
Como ele podia ter tanta energia?
Após um dia exaustivo, Tsu Yu ainda mantinha o ânimo ao conversar com ele, continuava pensando no cardápio para o jantar após o trabalho, perguntando se precisava de ajuda em alguma coisa.
Apesar de parecer tão dócil e facilmente intimidável, ele não era.
A primeira mudança de impressão logo deu lugar à segunda e à terceira, pelo menos para Areia Dourada.
A segunda mudança aconteceu quando foram juntos almoçar na cafeteria da empresa.
Areia Dourada já esperava encontrar algum executivo responsável por seu caso na sede, mas não imaginava que seria tão rápido.
Na ampla cafeteria, no corredor movimentado, Areia Dourada vestia um terno tão impecável quanto o do outro, mas o olhar daquele homem ao encará-lo carregava um desprezo quase explícito.
“Não sei o que a chefia está pensando, deixando o filho de um vigarista trabalhar conosco. Querem fazer uma exposição de espécies raras? Afinal, você é o último vigarista Aveyjin do universo. Mas esses seus olhos, esses sim são valiosos.”
Como protagonista do sonho em primeira pessoa, Areia Dourada já não lembrava sua reação naquele momento. Talvez hoje, ao revisitar a cena, ele até sorrisse e concordasse com aquele elogio aos seus olhos. Mas na ocasião, permaneceu impassível, apenas lançou um olhar de canto para Tsu Yu.
Ele supôs que sua expressão não estava bem controlada, pois Tsu Yu olhou para ele surpreso, como se estivesse perdido, mas logo voltou à realidade.
Foi a primeira vez que viu Tsu Yu zangado. Ele se colocou entre Areia Dourada e o executivo, e com voz firme, leu as regras da empresa para o outro. O conteúdo exato ficou confuso na memória de Areia Dourada, pois ele nunca decorava essas normas, mas Tsu Yu lembrava tudo perfeitamente, e usou aquelas regras para deixar o executivo sem palavras.
Areia Dourada apenas observava as costas de Tsu Yu.
Naquele momento, Tsu Yu era mais alto do que ele por quase meia cabeça.
Era possível ver o pequeno coque balançando de acordo com a intensidade da voz zangada de Tsu Yu.
A cafeteria começou a se encher de pessoas; algumas tentaram intervir para apaziguar a situação, outras tentaram usar sua autoridade para fazer Tsu Yu recuar, mas ele ignorou todos, ligou o gravador do celular e registrou as falas, ameaçando entregar tudo para o Departamento de Diamante.
Claramente, ninguém esperava que esse novato da empresa fosse tão firme e destemido. Mesmo quando alguém demonstrava intenção de partir para a agressão, ele não demonstrava medo. Logo a multidão se dispersou, e Tsu Yu ganhou fama por aquela atitude.
Quando Tsu Yu se virou para olhar para Areia Dourada, ainda havia um pouco de preocupação no rosto, como se temesse tê-lo assustado.
... Ainda com aquela aparência macia e frágil, sem nenhum traço intimidador. Areia Dourada duvidava de como aqueles homens haviam se assustado com ele.
“Então... senhor Areia Dourada, vamos comer?” Por fim, Tsu Yu disse isso.
Areia Dourada o observou mais uma vez, não disse que aqueles homens tinham altos cargos e que Tsu Yu poderia passar por dificuldades depois, pensou que, se isso acontecesse, ele o ajudaria.
Ele apenas perguntou calmamente: “Você não tem medo de brigar?”
Tsu Yu olhou para ele com um olhar inocente e piscou, “Ah...”
...Ah? O que isso significa?
“Não tenho medo.” O jovem de cabelos prateados respondeu sinceramente, “Embora eu não seja um combatente, sou um Caminhante do Destino. Se fosse brigar de verdade...” Parecia que ele lembrara de algo engraçado e tentou segurar o riso, dizendo: “Ninguém quer brigar comigo.”
Só depois Areia Dourada entendeu o que ele quis dizer. Tsu Yu era um Caminhante do Destino abundante. Como ele disse, mesmo que o oponente se esforce até a exaustão, ele provavelmente não sofreria nenhum dano.
Mas ao olhar para o sorriso de Tsu Yu, Areia Dourada, embora mantivesse a calma, sentiu um estranho pulsar em seu coração.
Muito tempo depois, ele descobriu que aquilo talvez fosse um sentimento chamado emoção, talvez também misturado com um pouco de afeição. Exceto por seus pais e familiares, ninguém mais o defenderia com tamanha firmeza como Tsu Yu fazia. Após o incidente em Izgonia, as emoções positivas de Areia Dourada haviam se tornado tão tênues que ele não as percebia imediatamente.
Mas seu instinto não havia esquecido; ele percebeu que não resistia mais a Tsu Yu, não estava mais em alerta.
Passou a permitir que Tsu Yu entrasse em seu apartamento, que preparasse lanches gostosos para ele, e até deixava pequenas marcas que só pertenciam a Tsu Yu naquele espaço.
Num dia em que Tsu Yu havia saído, Areia Dourada ficou sozinho no apartamento vazio. Naquela época, ele ainda não possuía a nave ecológica distribuída pela empresa, morava em um dos prédios mais bem localizados de Pierpoint. Um súbito sentimento de inquietação tomou conta dele; sua muralha interior, sua desconfiança em relação a Esmeralda, enfim, sucumbiram diante da investida de Tsu Yu. E foi então que surgiu uma sensação de perigo em seu coração.
Esse medo tinha nome — como Esmeralda poderia conhecer suas preferências e inclinações?
Naquele período, o humor de Areia Dourada estava especialmente sombrio, até que num certo dia ele finalmente bateu à porta do escritório de Esmeralda.
“Por que designaram Tsu Yu para ser meu subordinado?” Perguntou de forma evasiva. Sentado em frente a Esmeralda, sua desconfiança atingiu o ápice; após dias de análise, ele via o ato dela de colocar Tsu Yu ao seu lado como algo que exigia extrema cautela.
Era alguém capaz de prever com precisão que ele gostaria de Tsu Yu, mesmo quando ele próprio desconhecia seus próprios sentimentos.
... Ele seria realmente tão fácil de entender?