Capítulo 17
Após ser inexplicavelmente chamado de idiota, Tsujiame começou um período de auto-reflexão.
Ele passou a ponderar sobre os erros cometidos durante a missão, tentando entender a verdadeira razão por trás da acusação de burrice.
Não muito longe dali, Sakin estava ao telefone com Topa.
— Essa situação ficou um pouco complicada. A postura da "família" já ficou clara com o acerto de contas do cassino — disse ela. — Eles são extremamente hostis à presença da empresa, tanto na Lankia quanto em Pinoconi. Parece que a próxima viagem a Pinoconi não será nada tranquila.
Topa respondeu com calma:
— Claro que eles não querem a empresa por perto. Então, isso foi apenas um aviso inicial. Quando chegar a Pinoconi, fique atenta.
Topa era a parceira de Sakin na missão em Pinoconi. Ela havia sido rebaixada a P44 após o incidente no Ariloro Seis e precisava desesperadamente de uma oportunidade para retornar ao P45. Sakin, por sua vez, valorizava sua competência e estabilidade no trabalho, por isso estendeu a mão para ela. Assim, uniram forças para essa missão.
Até hoje, Topa tinha dificuldade em lidar com os caprichos de sua colega difícil, mas não podia negar que Sakin era extremamente competente — talvez a pessoa mais capaz de ajudá-la a voltar ao P45.
Depois de uma breve conversa sobre a postura da “família”, Topa mudou o foco para detalhes da missão de recuperação no cassino. Foi então que algo estranho aconteceu: sua colega começou a se distrair repetidamente durante a ligação.
Quando Sakin demorou pela terceira vez para responder, Topa não conseguiu conter a curiosidade.
— O que está acontecendo? Há algum problema urgente aí que te impede de se concentrar? — perguntou diretamente.
Sakin, que involuntariamente vinha ouvindo a auto-análise interior de Tsujiame, desviou o olhar calmamente:
— Nada demais, só alguns imprevistos pequenos. Pode ficar tranquila, vou me ajustar logo.
A habilidade de ouvir pensamentos era nova e estranha para ele, ele apenas estava tendo dificuldade em controlá-la.
Topa não conseguiu decifrar muito da resposta, mas, confiando na garantia de Sakin, preferiu não insistir. A distração da colega foi para ela um sinal de que o expediente estava chegando ao fim, então mudou de assunto:
— Faltam cerca de uma semana para você partir a Pinoconi, certo? Vai levar o Tsujiame com você?
Ao mencionar Tsujiame, o olhar de Sakin se voltou para ele, que estava murmurando para a parede. Ele lembrava do momento em que o jovem, com o rosto todo sujo de pó, lhe ofereceu o dado de seis faces como um presente — um gesto que, apesar de irritá-lo, o achou adorável.
Por isso, respondeu friamente:
— Já te disse minha resposta, não sou tão esquecidão assim.
Topa não se surpreendeu com a resposta, mas ficou um pouco comovida:
— Tudo bem, não vou me intrometer na sua vida pessoal. De qualquer forma, desejo que tudo corra bem para você, em todos os sentidos.
Quando a ligação terminou, Sakin ficou um pouco atônito.
O que Topa quis dizer... seria o que ele imaginava? Ela conhecia suas queixas anteriores, não apenas pelo jeito dele agir, mas também pelos sentimentos secretos que tinha por Tsujiame. Como mulher gentil e atenciosa, ela não achava estranho ter percebido isso, mas era a primeira vez que o abençoava de maneira tão sutil.
Realmente algo raro.
Guardando o celular, Sakin viu que Tsujiame ainda estava encostado na parede, imerso em pensamentos, se questionando se sua burrice não teria sido a causa da raiva que sentia, por não ter atirado na cabeça daqueles do cassino depois que seus olhos ficaram negros — o que teria tornado a missão mais eficiente.
Sakin ficou em silêncio.
“Eu não conseguiria fazer isso! Sou um Andarilho da Abundância! Atirar na cabeça deles seria diabólico! Além disso... Sakin nunca me pediu para fazer isso, então por que ele ficou bravo? Por quê?” — Tsujiame pensava, cada vez mais frustrado, chegando a querer bater a cabeça na parede para se acalmar.
Nesse instante, uma mão agarrou sua gola por trás, puxando-o para longe da parede, como para impedir que ele se machucasse.
Ao se virar, Tsujiame viu Sakin com a expressão tranquila.
— O que está fazendo? — perguntou o rapaz, olhando para ele com olhos suplicantes, sem saber o quanto sua aparência era lamentável.
Sakin suspirou, com um olhar que misturava impaciência e desânimo, e falou rápido:
— Você não teve nenhum problema na missão.
Tsujiame ficou surpreso com a iniciativa, mas logo questionou:
— Então... por que você ficou bravo antes?
Sakin perdeu a paciência. Mesmo depois de ter sido repreendido, o jovem agia como se nada tivesse acontecido e até deu alguns passos para se aproximar mais.
Enfim, ele simplesmente não conseguia ficar bravo.
Pensando isso, Sakin resmungou:
— Porque você é mais importante que aquele dado.
Quanto mais importante, não disse.
Lançou um olhar breve para Tsujiame, mas permaneceu em silêncio.
Os olhos do jovem se arregalaram.
Parecia incapaz de se acostumar com tais palavras. Sakin não quis prolongar o assunto; depois de acalmá-lo rapidamente, virou-se para tratar de outras tarefas, incluindo as consequências no cassino e os corpos enterrados ali.
— Da próxima vez, não deixe que o que aconteceu antes se repita. Priorize sempre sua segurança — disse, afastando-se rapidamente.
Tsujiame piscou olhando para as costas dele.
Estranhamente, seu coração disparou ao ouvir aquelas palavras. Tentou entender o motivo, mas seus pensamentos estavam confusos, fragmentados e dispersos.
No fim, chegou a uma conclusão feliz:
— Minha posição no coração de Sakin não é mais de um simples subordinado! Sou um subordinado importante!
Com isso, animado, saiu correndo atrás de Sakin, logo chegando ao seu lado enquanto ele falava ao telefone.
Mas, ao se aproximar, pensou cautelosamente: agora que é um subordinado importante, será que Kakakevashia também tem algum interesse pessoal nele? Isso não atrapalharia o trabalho de Kakakevashia, certo?
Nesse momento, viu Sakin olhando para ele com uma expressão bastante exasperada. O sorriso habitual se transformou em uma linha reta, e seu rosto perdeu toda expressão.
Tsujiame sentiu uma pontada de culpa, mas logo riu de seus próprios devaneios.
Que bobagem, como Sakin poderia ler sua mente? Por que se assustar à toa?
Logo depois, Sakin tossiu de repente.
Tsujiame ficou intrigado.
Após resolverem os assuntos no local e isolar completamente a área do cassino, a noite já havia caído. Em Lankia, a diferença térmica entre o dia e a noite era enorme; mesmo vestindo um terno completo, Tsujiame sentia frio.
Os socorristas ainda trabalhavam no prédio, mas ali não havia mais nada a ver com Tsujiame e Sakin. Funcionários externos continuariam vigiando o local e os avisariam se algo acontecesse.
Logo, o motorista levou o carro voador até próximo ao cassino desabado para buscar os dois e levá-los de volta ao hotel para descansar.
Antes de entrar no carro, Sakin espirrou. Quando Tsujiame se virou para olhar, ele pressionava um lenço contra o nariz, acenando para indicar que estava bem. Por isso, Tsujiame não deu muita importância.
No entanto, pouco depois de entrarem no veículo, Tsujiame começou a perceber que algo não estava certo.
A respiração de Sakin era audível no silêncio do automóvel, e ele frequentemente apertava a ponte do nariz.
Tsujiame conhecia bem esses pequenos gestos e sabia que pressionar o nariz era sinal de desconforto.
Virando a cabeça, observou Sakin atentamente e pensou:
Será que ele está com febre?
Quis estender a mão para tocar a testa de Sakin, mas suas mãos ainda estavam frias por causa do vento gelado da noite em Lankia, e não conseguiu sentir a temperatura.
— Sakin, você não está se sentindo bem? — perguntou diretamente.
Sakin congelou por um momento ao sentir o toque da voz de Tsujiame, mas logo retomou a postura habitual e respondeu com voz calma:
— Não.
Ele realmente sentia dores difusas nos ossos, mas achava que não era nada grave — só precisava descansar uma noite.
Nesse instante, Tsujiame se curvou e quase se levantou no banco traseiro. Com uma perna dobrada, ajoelhou-se no assento e apoiou uma mão no encosto atrás do pescoço de Sakin.
Quando Sakin arregalou os olhos, Tsujiame rapidamente afastou a franja dele para frente, encostando sua testa na dele.
Nessa proximidade, Tsujiame sentiu o hálito quente de Sakin e percebeu o calor em sua testa.
Sakin ficou rígido, imóvel, com as pupilas tremendo levemente, esforçando-se para manter a aparência normal e não ser descoberto.
Seus narizes quase se tocavam, e a respiração de ambos se entrelaçava.
Os olhos verde-esmeralda de Tsujiame brilhavam na penumbra do carro, fixos com inocência e atenção no rosto de Sakin.
Por um instante, Sakin quase perdeu o controle. Aquele que estava tão próximo parecia convidá-lo silenciosamente, oferecendo tudo o que ele mais desejava.
Sua mente confusa foi silenciosamente enfeitiçada, e ele quis se aproximar ainda mais, bastando um pouco de distância para que pudesse...
Nesse momento, os painéis eletrônicos nos prédios ao redor se iluminaram intensamente, lançando luz sobre eles.
Aproveitando esse clarão, Tsujiame viu que as bochechas de Sakin estavam tingidas de um rubor carmesim.
Ao se afastar lentamente, Tsujiame disse sério:
— Sakin, você está com febre, seu rosto está todo vermelho!
Sakin ficou mudo.
Ele pensou consigo mesmo: será que esse rubor é mesmo por febre?!