Capítulo Vinte e Um: Uma Habilidade de Coleta Suspeita
Após três horas, Ricardo conseguiu elevar seu nível para oito nas profundezas do Vale dos Lobos Selvagens. A cada nível, ele distribuía quatro pontos em força e um em agilidade. Ao atingir o oitavo nível, somando o ponto de força conferido pelos sapatos de Goblin, dez pontos do título de Decadente, sua força totalizou sessenta e três pontos, com um ataque total entre sessenta e seis e sessenta e sete. Mesmo disparando com sua besta de mão, ao atacar lobos selvagens de nível sete, conseguia infligir quase setenta pontos de dano.
Os lobos selvagens, com oitocentos pontos de vida, não resistiam por mais de vinte segundos antes de sucumbirem às mãos de Ricardo. O ritmo da matança aumentou consideravelmente; após a aparição do Lobo de Três Cabeças Flamejante, os lobos no vale tornaram-se escassos, e Ricardo precisou avançar cada vez mais fundo para encontrar novas presas.
Meia hora depois, Ricardo parou abruptamente. No coração do vale, havia uma caverna escura e misteriosa.
No dia anterior, fora um dos primeiros jogadores a chegar ao Vale dos Lobos Selvagens, quando ainda havia poucos aventureiros e abundância de monstros. Ninguém conseguira penetrar tão fundo no vale, mas, com a chegada do Lobo de Três Cabeças Flamejante, todos os jogadores foram exterminados. Aquela caverna, até então, permanecera oculta aos olhos de qualquer um.
O que haveria dentro dela? Um baú de tesouro, talvez?
Movido pela curiosidade, Ricardo avançou enquanto exterminava os monstros que surgiam em seu caminho. Dentro da caverna, continuavam a aparecer lobos selvagens, agora negros e de nível oito, tornando o ambiente labiríntico. Ricardo combateu por mais de uma hora sem encontrar nenhum baú, aproximando-se do nono nível, mas sem qualquer recompensa.
Quando estava prestes a desistir e concentrar-se apenas na evolução, avistou um velho NPC na penumbra.
Aquele velho não era comum. Estava preso no final da caverna, dentro de uma cela de ferro. Embora não tivesse algemas nas mãos, uma grossa corrente estava presa ao tornozelo esquerdo, impedindo qualquer fuga, mesmo que a porta fosse aberta.
O velho mantinha um semblante indiferente, mas ao ver Ricardo, seus olhos, antes apagados, brilharam repentinamente.
— Decadente! Você também já foi um decadente? — exclamou o velho.
Decadente? Era justamente o título que Ricardo ostentava. Não imaginava que teria utilidade real, e agora percebia que a reputação negativa em Bude era parte deliberada do design do jogo.
— Sim, senhor Grison, e o senhor também é? — respondeu Ricardo, sabendo que precisava de equipamentos e aproveitando a deixa.
— Bah! Eu não sou um decadente, sou um vilão! Um criminoso desprezado por todos! Mas, na verdade, nada fiz; fui injustamente acusado e preso aqui! — Grison gritou, tomado pela indignação.
— Senhor Grison, quer que eu o ajude a escapar? — Ricardo olhou para a cela de ferro.
Grison, porém, balançou a cabeça e recuperou a serenidade:
— Não adianta, esta prisão é sólida demais, impossível de romper. Mas, se tiver tempo, gostaria que me trouxesse carne de lobo. Estou há muito sem comer carne; aqueles miseráveis só me trazem pão velho de tempos em tempos para que eu não morra, mas já estou enjoado de comer isso há anos. Claro, não lhe pedirei ajuda de graça; se conseguir trazer dez pedaços de carne, lhe darei uma armadilha para animais.
Grison então mostrou um grampo de ferro.
Armadilha de baixo nível: um grampo de ferro resistente, eficaz contra monstros abaixo do nível vinte. Monstros pequenos ficam imobilizados por dez segundos, grandes entram em estado de ferimento grave, incapazes de usar suas habilidades. Reutilizável, cada armadilha pode ser usada três vezes; atualmente, três usos restantes.
Que maravilha!
Ricardo animou-se ao ver a armadilha. Com ela, teria uma vantagem extra contra o Rei Slime Mutante!
— Aceito, senhor Grison. Mas, após derrotar os lobos, como posso coletar a carne que precisa? — perguntou Ricardo.
Para coletar recursos de monstros, era necessário sair da vila inicial e aprender habilidades secundárias nas cidades principais.
— É simples, eu te ensino — respondeu Grison prontamente.
Mensagem do sistema: Grison deseja lhe ensinar uma habilidade de coleta. Aceitar?
É claro que Ricardo aceitou, afinal, aprender habilidades antes dos outros era uma grande vantagem.
Mensagem do sistema: Você aprendeu a “Técnica de Coleta Suspeita”.
Técnica de Coleta Suspeita: habilidade de origem duvidosa, normalmente não reconhecida pela guilda de profissões secundárias.
Que absurdo! Então há habilidades “oficiais” e “alternativas” no jogo?
Ricardo estava surpreso com o sistema; nunca imaginara que o jogo teria esse tipo de detalhe.
— Senhor Grison, essa técnica de coleta… — Ricardo tentou sondar.
— O quê, acha que não serve? — Grison arregalou os olhos, pronto para se irritar.
— Não, o senhor entendeu mal — respondeu Ricardo, que ainda queria a armadilha.
— Pare de perder tempo e vá buscar a carne, não aguento mais esperar! — apressou Grison.
Ricardo não hesitou e saiu imediatamente.
Logo encontrou um lobo selvagem, derrotou-o e usou a técnica de coleta ensinada por Grison. Não sabia se era por ser uma técnica não oficial, mas a chance de obter carne era baixa; a cada três tentativas, apenas uma era bem-sucedida.
Além disso, a habilidade não possuía níveis nem experiência, diferente das técnicas de armadilha que aprendera.
Em pouco tempo, Ricardo reuniu dez pedaços de carne e voltou para Grison.
— Ah, carne! Mesmo sendo de lobo, é um verdadeiro manjar! — exclamou Grison, recebendo a carne e entregando uma armadilha a Ricardo. Sem demora, começou a comer a carne crua, mostrando o quanto estava privado de tal sabor.
— Senhor Grison, precisa de mais carne? — Ricardo perguntou, querendo obter mais armadilhas.
— Claro! Ainda tenho algumas armadilhas, traga mais carne! Hmm, comer cru não é o ideal, preciso fazer fogo — disse Grison, totalmente focado na carne, e não deu mais atenção a Ricardo.
Vendo que ainda havia armadilhas disponíveis, Ricardo voltou a caçar lobos e coletar carne.
Mais de meia hora depois, Grison estava com a barriga cheia e expressão satisfeita.
— Pronto, rapaz, dei todas as armadilhas, não tenho mais nada para lhe oferecer. Mas, se for grato, traga mais carne para eu guardar; assim, terei reservas para comer aos poucos, pois não sei quando terei carne novamente.
Ao todo, Ricardo conseguiu dez armadilhas de baixo nível.
— Certo, voltarei depois — respondeu Ricardo, planejando alcançar o décimo nível ali mesmo, enfrentando lobos negros de nível oito, já que não havia concorrência e a evolução era rápida.
— Bom garoto, não me decepcione. Estou esperando, não me faça esperar demais — disse Grison, aprovando.
O tempo passou e, após uma hora sem sinal de Ricardo, Grison ficou impaciente. Depois de duas horas, já demonstrava raiva.
— Maldito! Canalha! Todos são canalhas, todos são mentirosos! — rugiu Grison.
Mais uma hora se passou e Grison voltou à calma, resignado a não esperar mais pelo caçador.
Nesse momento, Ricardo surgiu da penumbra.
— Rapaz, o que veio fazer aqui? Não quero mais sua carne — disse Grison friamente.
— Não quer mais? — Ricardo estranhou, seria a missão limitada por tempo?
— Mais de trezentos pedaços de carne, não quer nenhum? — Ricardo franziu o cenho, arrependido de ter perdido tempo, já que a técnica de coleta de Grison não evoluía com uso.
— Trezentos pedaços? — Grison ficou surpreso, percebendo que havia julgado mal o aventureiro.
— Sim, aceita? — Ricardo confirmou.
— Quero! Claro que quero, todos eles! Hahaha, trezentos pedaços, não sei quanto tempo vão durar! — riu Grison, feliz.
Ricardo então esvaziou o inventário, entregando toda a carne a Grison. Dez pedaços ocupavam um espaço, mas mais de trezentos lotaram sua mochila, e ao despejá-los, Ricardo se preparou para sair.
Para alcançar o décimo nível, faltava pouco.
— Espere, rapaz. Você parece ser alguém digno, então vou lhe dar uma informação de graça! É sobre o Lobo de Três Cabeças Flamejante lá fora! — chamou Grison, detendo Ricardo.