Capítulo 15

Cotidiano Agrícola em Tempos Turbulentos Xiao Qiao e o caminho do meio 2778 palavras 2026-07-31 03:23:51

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Assim que ela ergueu a ponta da colcha e se mexeu, despertou He Suisui, que dormia aos seus pés. A menina levantou-se depressa:

— Tia, quer beber água?

Só então também percebeu o brilho branco e límpido que iluminava o quarto.

— Está nevando.

Dito isso, levantou-se agilmente, apanhou o casaco acolchoado e o vestiu, depois foi olhar pela janela.

O casaco dela, assim como o de Gu Xiaowan, fora usado com alegria quando foram à Vila de Maiti para comemorar o aniversário do tio-avô. Quem poderia imaginar que, depois de tamanha calamidade, os casacos novos acabariam rasgados e em farrapos?

Gu Sixiang e a filha mais nova, He Maixiang, passaram duas noites remendando-os, até conseguirem costurar novamente os três casacos.

Gu Xiaowan sentia o corpo muito melhor e também se vestiu para sair da cama.

— Não sei a que horas começou a nevar. Da outra vez, aquela neve pesada como penas de ganso caiu apenas por um dia e já chegou aos joelhos. Não sei se cobriram as verduras da nossa plantação com palha de arroz.

Depois que voltara para casa e tivera certeza de que estavam seguros, ela adoecera. Ainda não tivera tempo de verificar muitas coisas.

He Suisui fechou a janela e voltou a vestir-se.

— Tia, você ainda não está bem. Não se preocupe com isso por enquanto. Vou perguntar à mamãe.

Ela era uma garota muito ágil. Logo terminou de se vestir, amarrou os cabelos de qualquer jeito e saiu, levantando a cortina.

A casa da família Gu era construída no estilo mais tradicional, com alas laterais. O cômodo por onde se entrava pela porta principal era o salão central, dividido em duas partes por uma divisória. Na parte de trás ficavam as tábuas ancestrais dos pais de Gu Xiaowan e dos demais antepassados; a parte da frente servia tanto para receber visitas quanto como sala de refeições da família.

No inverno, acendia-se o braseiro bem no centro do cômodo, e a mesa e as cadeiras eram trazidas para perto dele.

O quarto de Gu Xiaowan ficava na ala lateral esquerda. A quarta irmã e o marido dormiam na ala oposta, mas como o salão central era dividido em duas partes, tanto na frente quanto nos fundos, as alas laterais também possuíam compartimentos internos e externos.

Assim, Gu Xiaowan dormia sozinha, enquanto as irmãs He Suisui descansavam no cômodo externo da ala leste, onde também dormiam os pais de He Suisui.

Cada espaço tinha sua própria porta e cortina. O salão central possuía duas portas, uma nos fundos, que levava ao santuário ancestral, e outras duas laterais, que davam acesso aos compartimentos internos e externos das alas leste e oeste.

Como Gu Xiaowan estava doente e todos se preocupavam com ela, He Suisui dormia ao seu lado para poder cuidar dela.

Quando Gu Xiaowan saiu, Gu Sixiang e o marido já haviam se levantado. O braseiro do salão ardia vigorosamente, espalhando um calor agradável. Sobre a armação de ferro, pendia uma panela de três pés onde o mingau fervia, borbulhando sem parar.

Gu Sixiang provavelmente acrescentara um pouco de bolsa-de-pastor seca, pois, assim que entrou, Gu Xiaowan sentiu o aroma doce e perfumado da erva.

Mas, para ser franca, também havia ali aquele cheiro característico de capim para porcos.

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Ao vê-la, Gu Sixiang apressou-se em dizer:

— Da última vez que nevou, eu e seu cunhado cobrimos as verduras da plantação. Não se preocupe com isso. Venha logo se aquecer junto ao fogo.

Em seguida, chamou He Maixiang:

— Vá buscar um pano úmido para sua tia enxugar o rosto.

Nesse momento, a porta se abriu. He Jingyuan entrou encolhendo os ombros e mancando ligeiramente. Tinha as mangas arregaçadas até os cotovelos e carregava na mão um faisão recém-depenado.

Gu Xiaowan reconheceu imediatamente que era um faisão porque o animal não pesava mais de meio quilo. Além disso, as poucas galinhas da família estavam todas acomodadas num canto daquele cômodo. He Wangzu encontrava-se limpando o galinheiro.

Ao perceber a dúvida no olhar dela, Gu Sixiang explicou depressa:

— Ontem você estava assustadora. Ficava gritando coisas como “papai, mamãe” e chorando de um jeito que não parecia ter fim. Todos nós ficamos apavorados. O pequeno monge A Shi disse que, quando estava lá fora, você tinha medo de que a comida seca não fosse suficiente e sempre a guardava para que todos comessem. Provavelmente seu corpo ficou debilitado de fome. Por isso ele saiu para caçar e trouxe isto logo de manhã, para prepararmos uma sopa para você.

Ao ouvir falar de A Shi, He Jingyuan também se encheu de admiração:

— Você sabe de onde ele veio? Pelo rosto e pelo olhar, não parece ter nascido numa família como a nossa. É uma pena que tenha virado monge. Mas aqueles olhos... parecem mesmo os de um bodisatva.

— Isso eu não sei. E por que está perguntando? Se não houvesse alguma dificuldade, que família estaria disposta a mandar uma criança para um convento? Você também estudou, como pode ficar curioso sobre isso, tal qual as mulheres da rua?

Enquanto repreendia o marido, Gu Sixiang mexia ritmadamente a colher de madeira dentro da panela, misturando melhor o painço e a bolsa-de-pastor seca.

He Jingyuan sorriu, sem saber o que responder:

— Eu apenas achei que ele tinha o ar de um estudioso e senti pena. Fiquei curioso, só isso.

Na verdade, Gu Xiaowan também já se perguntara sobre a origem de A Shi. Ele era gentil e bondoso; no convento, recitava sutras, queimava incenso e ajudava o mestre a cuidar da terra. Quando tinha tempo livre, lia no pátio dos fundos.

Os livros que lia eram tão difíceis que os alunos do cunhado provavelmente nem conseguiriam reconhecer todas as palavras.

Era evidente que ele não vinha de uma família comum.

Mas, pensando bem, em tempos tão conturbados, mesmo as famílias nobres que viviam entre sinos e caldeirões de bronze, se não pertencessem a uma linhagem verdadeiramente poderosa, deviam estar lutando para sobreviver em meio à guerra, como qualquer família humilde.

O desjejum consistia naquele único caldeirão de mingau, acompanhado de alguns tipos de rabanete azedo que Gu Xiaowan havia preparado anteriormente, sobretudo o repolho apimentado.

Gu Xiaowan não sabia se aquele mundo podia ser considerado uma linha temporal paralela à história do seu próprio mundo. As variedades de legumes, no entanto, eram bastante numerosas, quase tão variadas quanto as existentes nas eras posteriores de sua terra natal. Já os temperos e as especiarias eram extremamente escassos.

A pimenta, por exemplo, era rara. Naquela época, era considerada uma iguaria das montanhas, algo que as famílias comuns mal ousavam imaginar comer. Em seu lugar, usava-se uma erva silvestre picante.

Por isso, embora o repolho que ela curtira no caldo dessa erva tivesse algum ardor, faltavam-lhe o vermelho intenso e a pungência própria da pimenta. Não era exatamente satisfatório.

Ainda assim, todos gostavam muito dele.

Depois do desjejum, embora a neve lá fora já quase chegasse aos joelhos, ainda havia tarefas intermináveis a cumprir. Especialmente porque A Shi levara He Wangzu consigo. Quando o menino voltou à tarde, carregava sete ou oito lebres entre as duas mãos e penduradas no pescoço, o que o fazia parecer um pequeno corcunda.

Mas ele não parecia cansado nem um pouco. Assim que entrou no pátio, gritou em voz alta:

— Papai, mamãe, tia, venham todos ver! O mestre A Shi é incrível!

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Sua voz era vigorosa e estava repleta de alegria; a excitação transbordava de seus olhos e sobrancelhas.

Quando He Maixiang abriu a cortina da porta, todos os que estavam sentados junto ao braseiro fiando cânhamo o viram e começaram a exclamar, surpresos.

He Maixiang praticamente correu para fora.

— Tudo isso? É tudo para nós? Os monges também comem carne. Eles não reservaram nada para si?

— Sim! O mestre A Shi armou armadilhas na neve. Nós apenas recolhemos os animais nos campos. Amanhã ele vai me levar de novo.

O menino respondeu alegremente. Temendo que o frio de seu corpo invadisse o cômodo e atingisse os demais, primeiro atirou as lebres e o faisão para dentro. Depois sacudiu a neve das roupas com uma escova antes de entrar.

Lá fora, alguns flocos finos voltaram a cair.

Quem poderia imaginar que, um mês antes, ele ainda fosse apenas um garoto indisciplinado?

He Maixiang ficou encantada ao ver as lebres de pelos cinzentos e brancos alternados. Agachou-se depressa ao lado delas.

— São coisas excelentes! Se conseguirmos aproveitar bem essas peles, poderemos fazer um par de sapatos de couro para cada pessoa. Com uma neve tão forte como esta, nossos pés certamente não ficarão molhados.

Em seguida, mandou o filho trocar os sapatos e chamou o marido:

— Traga logo uma faca para esfolá-las!

Mas logo demonstrou certo desprezo por He Jingyuan:

— Esqueça. Você não serve para isso. Se essas peles caírem em suas mãos, sabe-se lá em que estado vão terminar!

Ela própria, no entanto, também não sabia fazê-lo. He Suisui levantou-se ao lado dela:

— Eu posso fazer.

Como era a segunda filha, não recebia tantos mimos quanto a irmã mais velha. Tinha uma irmã acima e irmãos mais novos abaixo, portanto precisava acompanhar todos nas tarefas. Com o tempo, adquirira certa habilidade.

Além disso, como a mãe era medrosa, era He Suisui quem cuidava melhor das galinhas, patos e outros animais.

Mas Gu Xiaowan a deteve:

— Eu faço.

As peles pareciam realmente boas e serviriam para confeccionar coletes. Ela temia que os outros as estragassem.

Gu Sixiang imediatamente protestou:

— Você ainda não se recuperou! Descanse. Ninguém vai estragar essas peles. Deixe seu cunhado aprender. Se ele consegue ler livros, não será capaz de esfolar alguns animais?

He Jingyuan também concordou depressa:

— Isso mesmo, minha cunhada. Descanse. Eu faço.

E foi buscar a faca.

O problema era que a faca estava em péssimo estado. Gu Xiaowan a afiara certa vez, mas, depois de poucos dias de uso, já estava cega novamente. He Jingyuan olhou para ela, aflito.

— Não adianta. No convento não há uma faca assim. Na casa da família Ma certamente existe uma. Wangzu, vá pedir emprestada.

Pensando nisso, Gu Xiaowan percebeu que, desde que voltara, ainda não vira Ma Hu e os outros. Não sabia se estavam vivendo com suficiente comida e roupas.

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