Capítulo 3
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Depois de dividirem entre si as provisões secas, despediram-se do túmulo de He Manyuan e retomaram a viagem.
O que se seguiu dispensa explicações: foi uma jornada penosa, durante a qual se revezaram para carregar He Jingyuan de volta à Aldeia do Bordo Vermelho.
Quando finalmente chegaram, já haviam se passado dois dias.
Ao saber da situação da família de Gu Sifang, o monge Kongxiang também se compadeceu profundamente.
Os moradores da aldeia não sabiam que Gu Xiaowan pretendia refugiar-se na casa de Gu Sifang. Afinal, ela não abandonara as plantações, e todos presumiam que, naqueles dias, fora apenas buscar a família da irmã.
A casa dos Gu não era pequena. Várias cabanas vazias logo ficaram cheias de gente, o que, inesperadamente, trouxe um pouco mais de vida ao lugar.
Assim que entrou, Gu Xiaowan mostrou a Gu Sifang o porão onde escondia os grãos.
— O restante das coisas da casa continua no mesmo lugar. Quarta irmã, organize tudo como achar melhor. Vou colher algumas ervas medicinais.
Em seguida, chamou He Suisui, de catorze anos, e He Maixiang, de doze, para encontrar A Shi na entrada da aldeia. Depois, partiram às pressas rumo às montanhas.
Nas montanhas havia lobos que devoravam pessoas e leopardos-negros, por isso não ousaram avançar muito. Munidos de foices e facões, procuraram pelas bordas da mata.
Na verdade, as ervas de que precisavam não eram preciosas. O problema era que, naquele inverno, toda a vegetação estava seca e murcha, tornando a busca extremamente difícil.
Depois de passarem o dia inteiro vagando pela montanha, finalmente encontraram ginseng púrpura para o monge Kongxiang. Também conseguiram reunir duas doses dos remédios de que He Jingyuan necessitava.
Além disso, desenterraram meio cesto de alho-amargo silvestre e três inhames selvagens, cada um com quase meio metro de comprimento.
Ao verem que havia comida e que os remédios estavam resolvidos, os rostos das irmãs He Suisui finalmente ganharam um brilho de esperança, que amenizou um pouco a dor pela perda da família e da casa.
Ao cair da noite, os três se separaram no templo em ruínas da entrada da aldeia. Gu Xiaowan deixou com A Shi e seu mestre um inhame selvagem e dois punhados de alho-amargo. Mal havia caminhado alguns passos quando A Shi correu atrás dela e, cheio de mistério, entregou-lhe um embrulho de folha de lótus.
— Foi meu mestre quem deu.
Intrigada, Gu Xiaowan abriu um canto da folha seca e ficou atônita. Depois de passar o dia inteiro faminta nas montanhas, sua barriga começou a roncar ainda mais alto.
Ela ficou um pouco constrangida. Desde que passara a habitar aquele corpo saudável, jamais se permitira passar necessidade à mesa, para não prejudicar o corpo que ainda estava em crescimento.
— Agradeça ao seu mestre por mim.
Gu Xiaowan sentiu-se ligeiramente sem jeito, mas não podia recusar. Aquilo era carne.
Em casa, originalmente havia galinhas, mas, como pensara que viveria por muito tempo na casa da quarta irmã, na cidade de Yakou, levara-as para presentear a madrinha. Agora não tinha coragem de ir buscá-las de volta.
Além disso, carne curada frita com alho-amargo silvestre era absolutamente deliciosa. Quanto mais pensava nisso, mais sentia como se sua garganta tivesse criado mãos próprias, tamanha a vontade de comer.
— Não precisa agradecer. Volte logo para casa.
A Shi acenou para ela. Ao olhar para trás, viu que seu mestre já começara a acender o fogo para preparar os remédios. Então se aproximou e se agachou ao lado dele para rachar lenha.
— Mestre, quero caçar.
Kongxiang ficou imóvel por um instante. Depois, semicerrando os olhos, perguntou com certa incredulidade:
— Você não disse que não mataria seres vivos?
— Mas, se eu não caçar, com tanta gente na casa de Xiaowan, os poucos grãos que ela tem logo acabarão. Se eu caçar e levar a carne para eles, isso também conta como salvar vidas, não?
A Shi pensava que, embora estivesse matando, havia uma razão: salvar pessoas.
Kongxiang não encontrou falhas naquela lógica e assentiu, satisfeito.
— É raro vê-lo com tanta consideração. Aproveite e ajude também este seu mestre. Se tivesse tido essa ideia antes, eu teria carne em todas as refeições e não estaria tão magro e doente, parecendo pele e osso.
A resposta foi apenas um olhar frio de A Shi.
— O médico disse que o senhor deve comer menos carne.
— Então você pegou minha carne curada para dá-la aos outros?
Kongxiang levantou-se de um salto, indignado.
Gu Xiaowan, porém, nada sabia disso. Apenas achou que Kongxiang era uma pessoa bondosa por ter enviado carne à sua família. Naquele momento, estava realmente preocupada com a falta de reservas suficientes em casa.
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A quantidade de grãos que possuíam originalmente seria suficiente para durar até a colheita do outono do ano seguinte, mesmo que ela criasse mais algumas galinhas e patos.
O problema era que agora havia muito mais pessoas na casa. Os três irmãos Suisui ainda estavam na idade em que comiam bastante. Não se sabia sequer se aqueles poucos grãos conseguiriam durar até o Ano-Novo.
Mas Gu Xiaowan tinha um princípio: mesmo que a comida fosse escassa, não permitiria que passassem os dias sobrevivendo apenas de sopa rala.
Quando voltou para casa, Suisui, que chegara antes, já lavava as ervas medicinais com Maixiang. O irmão de dez anos, He Wangzu, estava sentado ao lado, brincando com um pião.
— Por que não está ajudando?
Gu Xiaowan lançou-lhe um olhar.
He Wangzu nem sequer levantou as pálpebras.
— Minha mãe disse que esta água machuca as mãos de tão fria e não deixou que eu tocasse nela. Além disso, eu não sei fazer isso.
Como a família Gu era composta apenas de filhas e não tinha nenhum filho homem, o casal de idosos morrera sem conseguir fechar os olhos em paz. Essa ideia também contaminara, em maior ou menor grau, as próprias filhas.
Gu Sifang era um exemplo disso. Depois de dar à luz três meninas, continuara tentando engravidar, mesmo tendo o corpo debilitado.
Felizmente, tivera sorte: o quarto filho finalmente fora um menino. Isso lhe permitira erguer a cabeça com orgulho, e ela depositara todas as esperanças em He Wangzu.
Com o passar do tempo, era inevitável que o garoto acabasse mimado.
— Se não sabe, aprenda. Quem nasce sabendo? Suas duas irmãs têm mãos de ferro, que não sentem frio? Ou só você é precioso?
Gu Xiaowan não pretendia tolerá-lo.
Mal terminara de falar, Gu Sifang saiu da cozinha, dizendo:
— Wangzu é um menino. Como poderia fazer esse tipo de trabalho? Isso não é coisa para homens.
Com a mãe defendendo-o, He Wangzu estufou ainda mais o peito e olhou para Gu Xiaowan com ar triunfante.
Naquele instante, Gu Xiaowan deixou de sentir antipatia pelo garoto. O problema estava, afinal, na quarta irmã.
Por alguma razão, Gu Sifang sentia certo medo daquela irmã caçula. Ao perceber o olhar de Gu Xiaowan, ficou inquieta e rapidamente mudou de assunto:
— Você voltou na hora certa. Vamos comer enquanto ainda há alguma claridade.
Assim evitaremos desperdiçar óleo de lamparina à noite.
Gu Xiaowan não disse mais nada. Entregou a carne curada embrulhada na folha de lótus à irmã e pediu que a guardasse para fritá-la no dia seguinte. Depois, chamou He Suisui e He Maixiang para lavar as mãos e comer.
Quando se sentou à mesa, porém, descobriu que a quarta irmã já havia dividido a comida. Ela e He Wangzu tinham arroz seco, enquanto todos os demais receberiam apenas mingau ralo.
Todos pareciam achar aquela divisão perfeitamente natural. Até He Jingyuan, deitado no cômodo ao lado, não dissera nada.
Ou talvez nem soubesse.
Gu Xiaowan, no entanto, tomou de repente a tigela das mãos de He Wangzu.
— Com exceção dos feridos, quem não trabalha não come. Nesta casa, quem manda sou eu.
Pegou os hashis, dividiu o arroz seco da tigela de He Wangzu ao meio e colocou uma parte nas tigelas das irmãs He Suisui, que continham apenas meio prato de mingau ralo.
Gu Sifang ficou atônita. Só voltou a si quando He Wangzu, furioso, tentou empurrar a mesa, gritando:
— Se você não vai me deixar comer, então ninguém vai comer!
Ela correu para abraçar o filho e, ao mesmo tempo, explicou apressadamente a Gu Xiaowan, cujo rosto estava frio como gelo:
— Xiaowan, Wangzu é um menino. No futuro, certamente terá um grande futuro e poderá retribuir tudo o que você fez. Ele não estará desperdiçando nem um único grão seu.
Naquele dia, ela vira as reservas de grãos da irmã no porão. Não eram muitas, e por isso preparara apenas mingau ralo.
— Quarta irmã, eu não quero comer grandes bolos. E, nestes tempos, nem sabemos até quando conseguiremos viver. Só posso olhar para o presente. Hoje, Suisui e Maixiang vieram comigo para a montanha e sofreram bastante; elas merecem comer mais.
Ao dizer isso, olhou para He Wangzu, que estava furioso e cheio de ressentimento.
— Quanto a ele, não move um dedo para trabalhar. Não merece desperdiçar comida.
Enquanto falava, sua voz permanecia baixa e seu rosto não demonstrava a menor irritação.
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E era justamente isso que tornava tudo ainda mais assustador.
Até os gritos de He Wangzu diminuíram, e Gu Sifang ficou de boca aberta, incapaz de pronunciar uma palavra.
Nesse momento, a voz de He Jingyuan veio do quarto:
— Mãe do garoto, escute sua sexta irmã.
Desde muito tempo ele achava que a esposa mimava demais o filho. Se continuasse assim, o menino acabaria arruinado. Mas, além de dar aulas na escola particular, ele precisava copiar livros e escrever cartas para ganhar algum dinheiro. Quando voltava para casa, estava exausto. Falar com ela não adiantava: ela concordava apenas da boca para fora e, quando ele não estava, continuava mimando o garoto.
Antes, ainda havia o pai para sustentá-lo, e tolerar aquele comportamento talvez não fosse tão grave. Mas agora toda a família dependia da comida da sexta irmã.
Se Ruoshui fosse uma adulta, seria outra história. No entanto, ela tinha praticamente a mesma idade de sua filha caçula. Os grãos cultivados por aquelas mãos delicadas não deveriam ser desperdiçados por um filho que não trabalhava nem sabia distinguir uma espiga de arroz de uma espiga de trigo.
Sua consciência não lhe permitia aceitar aquilo.
Depois daquele brado, o cômodo voltou a ficar silencioso. Em seguida, He Wangzu começou a chorar amargamente, enquanto Gu Sifang permanecia completamente perdida.
Gu Xiaowan lançou um olhar às duas sobrinhas, que ainda não ousavam tocar nos hashis.
— Comam logo. Daqui a pouco escurece, e precisamos economizar o óleo da lamparina.
He Maixiang estava faminta, mas, ao ver a irmã imóvel, também não se atrevia a comer. Quando levantou a cabeça e viu Gu Xiaowan devorando a comida, porém, finalmente não resistiu e ergueu a tigela.
Gu Xiaowan comeu algumas colheradas. Ao perceber que He Suisui ainda não começara, apressou-a:
— Coma logo. Depois vamos dormir cedo. Agora que há mais gente em casa, não sobreviveremos apenas com aquelas poucas parcelas de terra. Amanhã vamos limpar os campos abandonados junto ao rio e plantar alguns legumes, pelo menos para termos algo que encha o estômago.
Ao ouvir isso, He Suisui ergueu a cabeça e lançou uma olhadela furtiva à mãe. Como Gu Sifang não se opôs, finalmente começou a comer.
Depois da refeição, Gu Xiaowan levou as duas para buscar água.
Assim que partiram — ou talvez porque Gu Xiaowan já não estivesse ali — He Wangzu deixou de ter medo e começou a chorar e fazer um escândalo.
Gu Sifang ainda nem conseguira beber o próprio mingau. Quando se preparava para acalmar o filho, He Jingyuan chamou-a para dentro.
Ele já terminara de comer. Precisava se recuperar depressa para voltar ao trabalho no campo. A esposa machucara o corpo ao dar à luz Wangzu e não podia fazer esforço pesado. Quanto ao filho, era apenas mais uma boca para alimentar. Será que poderiam depender das duas filhas para sustentar a casa?
Assim que entrou, porém, Gu Sifang enxugou as lágrimas e se queixou:
— A sexta foi cruel demais...
Não conseguiu terminar. He Jingyuan interrompeu-a com uma repreensão severa:
— Que bobagem está dizendo? Se não fosse pela caçula, eu já estaria enterrado ao lado do nosso filho mais velho, e vocês nem saberiam para onde vagar. Talvez tivessem sido capturados por bandidos e vendidos. Ao dizer uma coisa dessas, quanta consciência ainda lhe resta?
Gu Sifang ficou atônita. Não esperava ser repreendida pelo marido e sentiu-se injustiçada.
— E você ainda tem coragem de mencionar nosso filho mais velho? Se não tivesse escrito aqueles poemas absurdos e deixado uma brecha, ele não teria sido rejeitado pela família do noivado, e nós não teríamos vindo arrastar a sexta irmã para o nosso problema.
Assim que terminou de falar, arrependeu-se.
Afinal, He Jingyuan sempre fora um homem íntegro, diligente e honrado. O verdadeiro culpado era Gao Laizi, de caráter perverso, que, por não conseguir atrair alunos, incriminara He Jingyuan.
A dor cobriu o rosto de He Jingyuan. Depois de um longo silêncio, ele disse lentamente:
— Fui eu quem envolveu toda a família nessa desgraça e causou a morte do nosso filho mais velho. Por isso não posso ficar de braços cruzados vendo você destruir Wangzu. Não me importa o quanto me odeie. Agora, aqui, todos dependemos da sexta irmã para sobreviver. Ela ainda é jovem, mas passou estes últimos anos sem ninguém para cuidar dela e, mesmo assim, conseguiu organizar a própria vida com ordem e sensatez. É evidente que sabe administrar uma casa. Além disso, não vejo nada de errado no que disse: quem não trabalha realmente não tem direito de comer.
— Mas Wangzu...
Gu Sifang soluçava e ainda queria argumentar.
He Jingyuan tornou a interrompê-la, mas dessa vez sua voz estava muito mais suave, carregada de sinceridade:
— Mulher, não volte a dizer coisas assim. Nem pense desse modo. Você é a irmã de sangue de Xiaowan. Se ela soubesse o que está pensando, ficaria profundamente decepcionada e magoada. Além disso, o que você disse é absurdo. Se ela fosse cruel, teria nos acolhido? Você mesma disse que, se estivesse sozinha, os grãos que juntou seriam suficientes até a colheita do outono do ano que vem. Mas agora que toda a nossa família veio morar aqui, talvez nem consigamos chegar ao fim do ano. Ela está nos ajudando com todas as forças; não pode esfriar o coração dela. E, além do mais, Wangzu já cresceu. É justo que comece a trabalhar. Mimá-lo é o mesmo que arruiná-lo.