Um: Energia da Terra e Serenidade Celestial

Depois que o Príncipe Herdeiro Qing Tem uma Mãe Pupila do Corvo 3847 palavras 2026-07-31 03:28:17

Ano 15 do reinado do Imperador Kangxi.

A chuva primaveril, trazida pelo vento, não cessou durante toda a noite. Pela manhã, ao olhar novamente, as duas amoreiras no canto do muro do Portão Kun Ning haviam, silenciosamente, tingido seus frutos de amarelo.

Xia Huai voltou pelo corredor coberto acompanhada por alguns jovens eunucos, enfrentando a chuva. A barra de seu vestido verde já estava completamente encharcada. Com um gesto, dispensou os demais para que fossem aquecer-se com duas tigelas de chá quente no alojamento, e então, sozinha, subiu ao terraço, parou sob o beiral, fechou o guarda-chuva, limpou a névoa d’água do peito e, só então, levantou a cortina para entrar no salão.

No gabinete aquecido ao leste, ardia um incensário com casca de cravo, benjoim, raízes calmantes e outros perfumes tranquilizantes. A imperatriz, da família He Xié Li, vestia um traje simples de cor âmbar outonal, com uma touca adornada de jade e pérolas, e estava recostada junto à janela sul, folheando distraidamente um volume de poesias.

Ao ouvir o som, sequer ergueu os olhos e perguntou:
— Está tudo resolvido?

Xia Huai ajoelhou-se, cumprindo o ritual:
— Respondo à senhora, todos os presentes para a jovem consorte da família Ma Jia e para a nova concubina do Palácio Qian Qing já foram entregues.

A imperatriz assentiu:
— A jovem consorte Ma Jia acaba de descobrir a gravidez, recomendei ao Departamento Interno e ao Hospital Imperial que cuidem dela com atenção.

Xia Huai respondeu e, após hesitar um instante, tornou a falar:
— Antes de retornar, encontrei o imperador na residência da nova concubina. Sua Majestade, generoso como sempre, concedeu ainda mais tecidos, joias e peças de jade. A mim nada pareceu demais, exceto aquele diadema de ouro cravejado com duzentas e quatro pérolas, dispostas em três fileiras e intercaladas com coral, algo que ultrapassa o que seria próprio de uma concubina.

A dama de companhia Feng Chun ficou surpresa ao ouvir isso.

O diadema é feito geralmente de uma fita de seda larga, adornada com ouro e turquesa, tendo pérolas pendentes; é usado junto ao toucado cerimonial, privilégio exclusivo das damas de alta linhagem.

O máximo de pérolas permitido para uma concubina seria cerca de cento e setenta.

Duzentas e quarenta pérolas só caberiam a uma concubina de categoria superior.

Feng Chun apressou-se a perguntar:
— Você conferiu bem?

— Foi Sua Majestade quem disse. O ateliê do Departamento de Tesouros Imperiais suspendeu todos os outros trabalhos para confeccionar o diadema por mais de dez dias — respondeu Xia Huai, ajoelhando-se sobre o tapete de fios dourados.

A chuva aumentava lá fora. Xia Huai, de cabeça baixa diante da mesa, declarou:
— Senhora, sei que não deveria comentar sobre tais assuntos. Mas a senhora Niu Huo Lu já ingressou no palácio sem passar pelo processo de seleção e foi elevada diretamente ao posto de concubina. Agora ainda quebra o protocolo... Receio muito pelo que virá.

Desde que Sua Majestade a nomeou Imperatriz, não houve outras concubinas de alta patente formalmente empossadas no harém. Seguia-se apenas o costume antigo, dividindo as mulheres em três categorias: consorte, jovem consorte e dama de companhia.

Mesmo a senhora Bo Er Ji Ji Te, vinda do clã Khorchin, só recebeu o título de consorte, e só foi promovida a concubina de honra depois de falecer, no nono ano do reinado de Kangxi.

Essa senhora Niu Huo Lu, chegando com tanta pompa, como não desconfiar?

A imperatriz He Xié Li ouviu as intrigas do harém com expressão serena.

Feng Chun e Xia Huai haviam crescido ao lado dela, já estavam há dez anos no palácio. Feng Chun era discreta e prudente, a mais confiável; Xia Huai era perspicaz, mas um pouco impetuosa.

Ela então largou o livro e disse:
— É só um diadema, que fique com ele, não há motivo para tanta preocupação. Daqui a alguns dias, a família Tong Jia também trará sua filha ao palácio, provavelmente para nomeá-la concubina também. Vocês vão deixar de comer por isso? São minhas mais próximas, não deem ouvidos a rumores, vão acabar mostrando fraqueza.

Depois de repreendê-las, ainda as confortou:
— Agora, com a rebelião dos Três Feudos, há muitos cargos vagos no harém. O imperador, preocupado com a influência das Oito Bandeiras, já planeja promover várias mulheres do palácio. Além de Tong Jia e Niu Huo Lu, várias consortes e damas antigas também serão elevadas.

Só assim o imperador poderá demonstrar sua grande benevolência e tranquilizar os ministros de Manchu, Mongol e Han.

...

Depois de algumas palavras, chegou a hora do remédio da imperatriz.

Xia Huai foi trocar de roupa, enquanto Feng Chun ficou para servi-la. A imperatriz tomou o remédio de uma só vez, franzindo o cenho.

Feng Chun apressou-se em lhe oferecer um docinho:
— É bom que a senhora seja tolerante, mas não se esqueça de cuidar de si mesma.

He Xié Li pegou um doce e sorriu:
— Sabia que você não se deixaria enganar. Já Xia Huai é fácil de acalmar.

Como não estaria atenta à Niu Huo Lu?

Na vida passada, no dia em que deu à luz Yin Reng, He Xié Li faleceu.

Por não conseguir desapegar-se do filho, tornou-se um espírito errante na Cidade Proibida, assistindo enquanto Niu Huo Lu se tornava a nova imperatriz, depois a senhora Tong Jia também. Mas seu Yin Reng jamais teve a proteção de uma mãe.

Mais tarde, quando as concubinas lutavam por seus próprios filhos, lançando intrigas e semeando discórdias entre pai e filho, o pobre menino dela não tinha ninguém para defendê-lo.

Nesta vida, graças à piedade de Abuka Hehe, que não suportou ver a criança crescer sem mãe, recebeu mais dez anos de vida para acompanhá-lo.

Ela precisava viver bem.

— Sei que há rumores de que o general Ebi Long quer trazer sua filha ao palácio para suceder-me como imperatriz — disse ela, apertando a mão de Feng Chun, o olhar firme e carinhoso. — Mas, por mais frágil que pareça, ainda sou capaz de proteger minha família.

Feng Chun, com lágrimas nos olhos, consolou-a:
— Não diga isso, senhora. Quem ousa falar tais absurdos? Se souber de algo assim, tratarei de punir o culpado. Que a senhora tenha longa vida, para ver nosso segundo príncipe crescer, casar e ter filhos.

Ao mencionar Yin Reng, o semblante da imperatriz suavizou:
— Tens razão.

Mesmo que não veja o filho casar-se, ao menos deseja vê-lo seguro e feliz, levando uma vida tranquila.

*

Do lado de fora, a água da chuva escorria pelas telhas amarelas, formando cortinas líquidas que logo desciam os degraus de pedra do pátio, seguindo pelos canais até o canto sudeste do jardim.

Ali, um dreno subterrâneo levaria a água até o Rio Dourado do Palácio.

Yin Reng acordou de um longo sono, bocejou e foi deitar-se junto à janela, observando a chuva, os cabelos emaranhados e o corpo gordinho apoiado no peitoril.

— Os damascos do muro oeste já estão amarelos.

— As flores de acácia do jardim também já devem estar boas para comer.

— A mãe não está bem, melhor mandar Xiaodouzi colher artemísia para fazer chá...

As amas ouviam os comandos do pequeno príncipe sobre a comida com sorrisos nos olhos. Já estavam acostumadas.

Ele era precoce, e até entendia de agricultura. Bastava pedir aos eunucos e logo inventava novidades no palácio. Na primavera, as acácias transplantadas do Jardim Imperial floresceram, e o imperador, satisfeito, presenteou o príncipe com contas de esmalte importadas.

A chuva diminuiu.

Yin Reng, decidido quanto ao cardápio do dia, espreguiçou-se e virou-se na cama, quase rolando para fora.

Duas amas correram para segurá-lo. Depois de autorizadas, calçaram-lhe botas de cetim azul-escuro e colocaram-lhe uma túnica vermelha, então o ajudaram a descer.

O menino compôs o semblante e começou a dar ordens: colher as frutas e flores que mencionara, depois ir à cozinha imperial, dizendo que era para preparar o almoço do Palácio Kun Ning e, de passagem, enviar uma refeição para o Palácio Qian Qing ao pai.

Logo, uma cesta de iguarias frescas e brotos de bambu chegou à cozinha.

O chefe Du, já à espera, pegou a cesta e, com os cozinheiros das três bandeiras, pôs-se a trabalhar.

Os damascos ainda verdes, de gosto agridoce, eram cozidos em compota e depois juntados a frango e legumes para um guisado que abria o apetite;

As flores de acácia, doces e frescas, bastava lavar, empanar levemente e cozinhar no vapor;

Quanto à artemísia, pouco conhecida no palácio, o chef sabia apenas que o povo a chamava de erva do fígado, então preparou um chá com ela.

Além disso, acrescentou um ensopado de robalo com pimenta verde, alguns pratos frios de broto de bambu, cogumelos e pepino, e uma cesta de bolinhos, antes de enviar tudo ao Palácio Kun Ning.

No gabinete aquecido ao leste.

He Xié Li olhou a mesa repleta de novidades e se divertiu:
— Esse pequeno guloso tem ideias grandes, até ousa usar meu nome para comandar a cozinha. Já que acordou, tragam o príncipe aqui.

Feng Chun acabava de sair quando Yin Reng, atraído pelo cheiro, já vinha vindo.

O pequeno, prestes a completar três anos, estava na fase mais ativa. Recusou-se a ser carregado, correndo trôpego pelo corredor, seguido de perto por amas e eunucos, temendo que caísse.

Mas Yin Reng não se importou, entrando desembestado no salão.

— Mamãe! Mamãe!

A imperatriz o acolheu nos braços, rindo feliz:
— Ah, meu querido, acordou e já quer comer coisas gostosas?

O menino, ainda tímido nesta sua primeira vida, ficou com as orelhas vermelhas e se apressou a explicar:
— Não é isso. Fiz tudo isso para a mamãe. A mamãe toma duas tigelas de remédio amargo todo dia, eu provei, é muito, muito amargo, por isso a mamãe não tem vontade de comer.

— Quero dar muito doce para a mamãe.

Diante das palavras infantis, o coração da imperatriz derreteu.

Assim, a rainha, que estava sem apetite, de repente sentiu fome. Com o fogareiro aceso e a panela borbulhando, mãe e filho conversavam, e ela acabou comendo metade do peixe, uma tigela de arroz com flores de acácia e beliscou todos os pratos.

Num dia chuvoso, com o estômago aquecido, tudo parecia melhor.

Depois do desjejum, a imperatriz brincou com o pequeno até sentir o corpo aquecido, as mãos e os pés já não tão frios. Yin Reng, suando, quis tirar a túnica, mas foi impedido.

— Em abril, quando chove, este palácio fica úmido e frio. Ouça sua mãe, não tire a roupa, vai acabar resfriado.

O menino piscou e então olhou ao redor.

O Palácio Kun Ning, originalmente com nove salões, foi reformado pelo imperador Shunzhi: os extremos leste e oeste tornaram-se corredores, e o lado oeste foi reservado para rituais xamanistas, com três grandes caldeirões para cozinhar carne durante os sacrifícios mensais.

Assim, os aposentos da imperatriz ficaram restritos ao gabinete aquecido a leste.

Além disso, o palácio, sendo um dos três principais do setor interno, era grandioso e alto, quase duas vezes maior que os outros. O espaço ficava frio e vazio em dias chuvosos, e ainda havia o cheiro de carne cozida dos rituais xamanistas — um verdadeiro sofrimento.

Comparado a isso, o imperador, que montara um mezanino escuro no gabinete aquecido do Palácio Qian Qing, nem estava tão mal.

Yin Reng, de saúde frágil desde o ventre, era motivo constante de preocupação para a mãe, que não queria mandá-lo ao setor dos príncipes. Por isso, isolou um cômodo menor, antigo oratório, renovando janelas e teto para que ele morasse lá.

O espaço era pequeno, mas confortável.

Só agora o menino percebia que os pais não viviam tão bem quanto ele. Se não dormissem nem comessem direito, logo adoeceriam.

Pensando nisso, Yin Reng fechou o pequeno punho e olhou para a mãe com olhos cheios de preocupação:

— O Palácio Kun Ning é muito ruim.

— Vou convencer o papai a dar um lugar melhor para a mamãe morar!

Do lado de fora, sob o beiral, o imperador Kangxi, recém chegado e ainda tirando o chapéu de chuva, ouviu a declaração do filho. Com as sobrancelhas arqueadas, lançou um olhar significativo a Liang Jiugong e soltou uma risada.