Capítulo Sessenta e Três: Interrompido Subitamente

Artista em Tempo Integral Sou o mais puro. 2414 palavras 2026-01-30 12:40:30

Logo Han Jimei percebeu o quão absurda era sua suposição. É claro que Chu Kuang jamais escreveria uma trama cuja ironia fosse vazia de sentido.

Naquela casa pouco abastada, havia duas coisas de valor inestimável: um relógio de ouro herdado por três gerações do senhor A e o cabelo de Della. Se uma mulher rica e bela morasse no apartamento do pátio em frente, a senhora A, um dia, certamente estenderia seus cabelos pela janela para secá-los, tornando as joias e presentes da vizinha meros acessórios sem brilho. Se um homem abastado amontoasse todas as suas riquezas no porão, o senhor A, ao passar por lá, tiraria do bolso seu relógio de ouro apenas para provocar inveja suficiente para tirar o sono do rival.

Era uma forma peculiar e encantadora de narrar. Como na Estrela Azul não havia influência da prosa inglesa, Jimei, ao ler esse tipo de expressão pela primeira vez, achou as frases estranhas, mas deliciosamente divertidas.

Agora estava claro para Jimei: a senhora A pretendia vender seus cabelos. Era uma decisão difícil, pois eles eram seu maior orgulho e afeição.

Seus belos cabelos caíam-lhe pelos ombros como uma cascata negra, brilhante e sedosa. Chegavam a cobrir-lhe os joelhos, formando um verdadeiro manto sobre seu corpo. Nervosa, ela apressou-se em pentear os fios. Hesitou por um momento, ficou ali, imóvel, e duas lágrimas caíram sobre o velho tapete vermelho.

Quanto mais a narrativa enaltecia a beleza daqueles cabelos, mais Jimei sentia a dor e a relutância daquela mulher. Mas, por fim, ela vendeu o que mais estimava, obtendo vinte moedas em troca. Com esse dinheiro, comprou um bracelete branco para o relógio, pagando vinte e três moedas, após meia hora de negociação com o comerciante.

Com apenas alguns trocados no bolso, voltou para casa eufórica. Afinal...

O relógio do marido, embora valioso, era usado com uma velha correia de couro. Por isso, ele apenas espiava discretamente a hora.

Ao chegar em casa, ela se olhou diversas vezes no espelho. De cabelo curto e atada uma faixa, parecia uma estudante travessa que faltava às aulas. Só então sentiu-se apreensiva. Será que ele ficaria zangado? Brigaria com ela? Sempre elogiara seus cabelos; sem eles, ainda seria bela aos olhos do marido? A dúvida a consumia.

A essa altura, Jimei não pôde evitar sentir compaixão pela mulher. Se houvesse uma dinastia Tang naquele mundo, lembraria o provérbio: “Na pobreza, até o amor conjugal é pesar”. E se preocuparia ainda mais.

Mas o inevitável sempre chega. O foco permanece na senhora A:

A porta se abriu e seu marido entrou, fechando-a com um gesto automático. Era magro, com um semblante severo. Pobre rapaz, com apenas vinte e dois anos, já sustentava uma família! Precisava de um casaco novo e sequer tinha luvas.

Ela o amava profundamente. Não era Chu Kuang quem precisava dizer com palavras a intensidade de seu afeto; cada detalhe revelava emoções profundas.

Ele ficaria irritado? Jimei hesitou em continuar lendo, temendo pela reação do marido. Mas prosseguiu:

— Você cortou o cabelo? — perguntou ele, num esforço, como se não conseguisse ainda compreender o evidente.

Seria raiva? Jimei, assim como a própria senhora A, ficou curiosa sobre o que se passava na mente dele. E se, no momento seguinte, viesse um tapa? Só um homem cruel faria isso! Se acontecesse, ela jamais leria outra obra de Chu Kuang.

— Não só cortei, como vendi — respondeu a senhora A. — Mas, não importa, você ainda gosta de mim, não é? Mesmo sem meus cabelos, continuo sendo eu mesma.

Sua voz era cautelosa, quase submissa.

O fim da história se aproximava. Jimei não conseguia imaginar como se encerraria, até ler a próxima passagem:

O marido retirou do bolso do casaco um embrulho e o colocou sobre a mesa.

— Não me entenda mal, querida — disse ele. — Seja cortado o cabelo, feita a barba ou lavado o rosto, meu amor por minha garota jamais diminuirá. Mas, ao abrir esse pacote, entenderá por que fiquei tão surpreso há pouco.

Dedos pálidos romperam rapidamente os laços e o papel. Seguiu-se um grito de júbilo, que logo se transformou em lágrimas e soluços nervosos, exigindo todo o consolo do marido.

Era um conjunto de pentes! O presente que ele tirara do bolso era uma coleção completa de pentes de cabelo — para as têmporas, para a parte de trás, todos os tipos. Era o objeto de desejo da senhora A, exposto há tempos na loja mais elegante da rua, mas caro demais para que ela sequer ousasse sonhar em possuir.

Feitos inteiramente de casco de tartaruga, adornados com pedras preciosas, esses pentes combinavam à perfeição com os cabelos que ela agora perdera. A senhora sabia o quanto eram valiosos, há muito tempo os cobiçava, mas nunca alimentara a esperança de tê-los. E agora, quando finalmente eram seus, já não havia cabelos para adornar.

Jimei abriu a boca, perplexa. Não sabia descrever seus próprios sentimentos naquele instante. Mas o texto, com precisão, revelava o que sentia a senhora A: ela apertou os pentes no peito e, só depois de muito tempo, ergueu os olhos marejados de lágrimas e sorriu para o marido:

— Meus cabelos crescem rápido!

Em seguida, a senhora A tirou o bracelete do bolso. Olhando ansiosa para o marido, disse:

— É bonito, não é, Jim? Andei pela cidade inteira até encontrar. Agora você poderá olhar as horas centenas de vezes por dia. Me dê o relógio, quero ver como fica com a correia nova.

Um sorriso surgiu nos lábios de Jimei. Embora a senhora A tivesse vendido o cabelo, o marido não se irritou; apenas lamentou que os pentes tivessem, por ora, perdido sua função.

Que maravilha. Um final tão repleto de delicadeza e esperança que era impossível não se sentir tocada, mesmo Jimei, uma mulher casada, sentiu-se inspirada pelo amor.

Tomou um gole de chá. Olhou para o último parágrafo, esperando uma conclusão típica dos contos, algo como: “Este é um belo amor”.

Mas, ao ler a última passagem, quase cuspiu o chá na revista:

O marido não fez o que ela pediu. Simplesmente deitou-se no sofá, entrelaçou as mãos sob a cabeça e sorriu:

— Vamos guardar nossos presentes de Natal por enquanto, eles são preciosos demais para serem usados agora. Vendi o relógio de ouro para comprar seus pentes.

E assim, a história se encerra abruptamente.

Naquele instante, Jimei ficou boquiaberta.