Onze, Como o Aço Foi Forjado (Parte Um)
Dois anos atrás, em uma pequena cidade chamada Nigu, no oeste da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, caía uma chuva torrencial, escurecendo o céu e a terra. Um caminhão de grande porte estava atravessado diante de uma academia chamada "Cabeçudo".
A academia ficava em um porão e a água acumulada devido à forte chuva já começava a invadir o local; não demoraria para que tudo fosse inundado. Em frente à porta, dois jovens, ambos com cerca de um metro e noventa de altura, lutavam contra a força da água: um deles era musculoso como um fisiculturista, o outro esquelético. Eles improvisavam uma barragem com todo tipo de objeto — cadeiras, mesas, almofadas, até uma televisão — na esperança de salvar a academia.
No entanto, a inexperiência era clara. Por mais que empilhassem objetos, não conseguiam conter a enxurrada que descia para o subsolo. A água continuava invadindo o porão sem trégua.
— Deixa pra lá, logo tudo isso estará submerso — disse o rapaz musculoso, já esgotado e de mãos na cintura. Olhou para o caminhão e comentou com o magricela: — Ali também dá pra morar.
— Acredite em mim, isso não é solução para o longo prazo — respondeu o magro. — Primeiro, não sabemos para onde iríamos. Segundo, se um grupo de zumbis nos cercar, estaremos perdidos.
— Então você teve sorte de conseguir chegar até aqui? — suspirou o musculoso, balançando a cabeça e, já desanimado, acrescentou: — Basta ter comida, não é?
— Todos pensam assim. No começo eu também pensava — disse o magricela, encarando o caminhão enquanto tentava encontrar uma solução. — Só é seguro se tivermos um lugar fixo para resistir. Assim podemos aguentar mais tempo. Ei, tive uma ideia! — Agitou a mão para o musculoso e, atravessando a água, foi até o caminhão. O outro, resignado e sem forças para insistir, balançou os braços, suspirou e seguiu o magricela até o caminhão.
Sob a chuva, o magricela subiu na cabine, revirou o interior e, por fim, desceu com uma pá militar alemã e um grosso saco plástico. Fechou a porta do caminhão e fez um sinal para o musculoso.
Este deu de ombros, pegou a pá, olhou ao redor e foi até debaixo de uma árvore cavar terra. Pá após pá, enchia o saco plástico que o magricela segurava aberto.
Logo o primeiro saco estava cheio. O magricela o amarrou, assentiu para o amigo e correu até a porta da academia, colocando o saco em pé na parte interna da barragem improvisada.
Trabalhando em sintonia, os dois logo ergueram uma barreira de meio metro de altura, feita de sacos de terra, no limiar do porão. O magricela ainda encontrou uma grande lona plástica no caminhão e cobriu a barragem. O musculoso trouxe tijolos e anilhas de pesos para segurar a lona. Por fim, conseguiram bloquear o avanço da água.
Aliviado, o musculoso sugeriu uma pausa. O magricela, ofegante e exausto, olhou para a chuva que não dava trégua e, apesar do cansaço, fez sinal para continuar. Pegou uma bacia e correu para a academia, começando a escoar a água acumulada no porão. Vez após vez, o magricela subia com a bacia cheia; o musculoso observava à porta, até que, resignado, pegou uma caixa e se juntou à tarefa.
De fato, era como um combate. A chuva não cessava e os dois só terminaram o trabalho ao anoitecer, quando finalmente removeram toda a água do porão. Exaustos, quase sem fôlego, viam estrelas diante dos olhos, tantas que nem a chuva conseguiria apagar.
O magricela, reunindo suas últimas forças, saiu, abriu a porta traseira do caminhão com a chave. O veículo estava abarrotado de todo tipo de alimento. Ele escolheu algumas coisas, colocou num saco plástico e correu novamente para a academia, trancando o caminhão atrás de si. O musculoso fechou a porta de ferro, trancou-a com corrente e desceu para o porão.
— Foi mesmo uma boa ideia termos colocado o gerador em cima da estante — comentou o musculoso, olhando a lâmpada acesa, enquanto arrastava uma mesa para o centro do espaço. — Sem eletricidade aqui, seria uma escuridão completa.
— Já conferi, as roupas nos armários do andar de cima estão secas — respondeu o magricela, agora vestido com roupas limpas e secas, largando a toalha sobre a mesa e indo ajudar o amigo com as cadeiras. Sorriu: — Ainda bem que vocês tinham muitos sócios. Com esse tempo, se estivéssemos de roupa molhada — ou pior, sem roupa — teríamos congelado.
— Ah, você não tinha deixado suas roupas no topo do armário do vestiário? — disse o musculoso, aliviado ao colocar uma cadeira junto à mesa e indo para o vestiário. — Podemos dormir ali em cima essa noite. No fim, nem tudo está tão ruim. É a primeira grande chuva depois de muito tempo e, justo hoje, você apareceu — parece que ainda temos sorte.
— Este lugar é realmente bom, não podemos desistir dele tão fácil — respondeu o magricela, enxugando a água da mesa e das cadeiras com a toalha, enquanto o musculoso entrava no vestiário. — Ainda bem que os zumbis não vieram atrapalhar. Parece até que o céu nos deu um pouco de trégua.
— Com uma chuva dessas, eles provavelmente ficam parados, pois não conseguem ver nem ouvir nada — disse o musculoso, saindo do vestiário com roupas secas, arrumando a gola enquanto falava. — Por outro lado, seria a hora perfeita para fugir de caminhão. Pena que agora já não dá mais.
— Não acho que seja tão simples. Os zumbis não são cegos nem surdos; é que só conseguem ver e ouvir a chuva — explicou o magricela, pendurando o saco de comida numa máquina de borboleta e, em seguida, colocando-o sobre a mesa enquanto tirava os itens de dentro. — Fugir de caminhão é arriscado. Se ele quebrar ou encontrarmos bandidos pelo caminho, com esse tempo horrível, nem temos para onde correr. Seria um desastre.
— Pois é, agora já foi — suspirou o musculoso, esfregando as mãos antes de se sentar à mesa. Olhou para os alimentos e sorriu para o magricela: — Deixa eu ver o que você trouxe: carne bovina, sardinha... — pegou duas latas com entusiasmo, maravilhado — fazia meses que não comia algo assim! Nossa, eu até comeria as latas junto! — abriu as latas, fechou os olhos e inspirou profundamente o aroma da carne e do peixe, extasiado. — Esse cheiro é maravilhoso. Sinto que voltei à vida, como se retornasse ao mundo dos vivos!
— Tem mais, peguei porções duplas. Coma à vontade — disse o magricela, sorrindo ao ver o entusiasmo do amigo e colocando mais duas latas sobre a mesa. — Antes, essas conservas eram consideradas pouco saudáveis. Agora, segundo o treinador de academia, são iguarias capazes de ressuscitar os mortos. Fico imaginando o que diriam os antigos gourmets e cientistas — comentou ele, colocando também uma lata de pêssegos em calda e dois pães embalados à moda antiga.
— Que se dane o que eles pensam — resmungou o musculoso, abrindo uma das latas e desprezando os antigos especialistas. — Só sabiam falar besteira. — Bateu levemente no fundo do vidro para abrir o pêssego em calda, enquanto continuava: — Aposto que, se fosse hoje, eles não deixariam as latas para comer frutas frescas nas árvores. Bando de hipócritas! Vou pegar uns garfos. — Largou a lata de fruta e, engolindo em seco, foi até a despensa. — Agora, ou viraram comida de zumbi, ou se tornaram zumbis eles mesmos. Só acham carne humana sangrenta apetitosa. Bem feito…