Quatro, O Jogo da Morte (Parte Um)

Detetive de Segunda Classe Corpo Frutado de Laranja 3474 palavras 2026-02-09 14:00:20

Às sete e vinte e seis da noite, a delegacia de polícia de Galinha do Monte, cercada por camadas e camadas de mortos-vivos e impregnada de um fedor insuportável. No terceiro andar, a sala de reuniões estava abafada e sombria; havia muito tempo sem energia elétrica, as mesas e cadeiras haviam sido partidas e usadas como lenha para aquecimento e iluminação. Agora, no centro da sala vazia, ardia uma fogueira recém-acesa, em torno da qual estavam sentadas oito pessoas, todas amarradas firmemente.

Um rapaz branco, o rosto salpicado de sardas — ninguém menos que o famoso “Pum” Jim — lançou um olhar ao alimento disposto ao lado da fogueira: meio pão branco, um grande pedaço de carne de boi e uma garrafa de cerveja alemã. Salivou ruidosamente, olhou para as cordas que o prendiam e, depois de uma tentativa inútil de se libertar, gritou impaciente para a escuridão além da porta da sala:

— Ei, você aí com penas na cabeça, pode apressar? Vai nos deixar morrer de fome e comer tudo sozinho, é isso? Olha, não tenho medo da morte! Se eu morrer este ano, no próximo renasço um valente, e ainda por cima, vou ser seu pai!

— Não era dezoito anos depois que se renascia um valente, segundo Lei Yan? Como você consegue em um ano? — perguntou uma voz masculina curiosa vinda da escuridão do corredor.

— Hehe, você parece esperto, ainda traz a esposa, não vai ter outro filho no ano que vem? Hein?! — Jim olhou para seus companheiros de infortúnio, rindo maliciosamente.

— Jim, pare com isso, cuidado com a faca do Chefe! — sussurrou a médica legista Teresa, sentada ao lado do “Pum”, lançando um olhar apreensivo para fora.

De repente, da escuridão surgiu um indígena: cabelos negros, três penas espetadas na cabeça, vestindo couro de veado e empunhando uma faca de caça reluzente de quase trinta centímetros. A expressão dura, iluminado pelo fogo, fazia-o parecer ainda mais ameaçador.

O autodenominado Chefe lançou um olhar faminto para a comida ao lado da fogueira e começou a dançar uma dança de guerra indígena em torno dos prisioneiros. Apesar da ausência dos tambores de pele de animal, ele se movia com entusiasmo: sacudia a cabeça, batia os pés, urrava de modo feroz, impregnando o ambiente de um senso ritualístico tão intenso que era possível pressentir que aquela noite o canibal pretendia fazer um verdadeiro massacre.

— Ah, acho que vou começar por você! — De repente, o Chefe, sem qualquer aviso, saltou para trás de Jim, encostando-lhe a faca brilhante no pescoço com um sorriso cruel.

— O que é isso? Se ousar me tocar, Lei Yan não vai te perdoar! — Jim, sempre insolente, agora tremia, o pescoço rígido de medo, tentando ameaçar o Chefe.

— Haha, não adianta! Não me assusta nem um pouco — zombou o Chefe, manuseando a faca de maneira habilidosa, de modo que Jim sentia o fio gelado, mas sem ser cortado — pura ameaça. — Lei Yan vai mesmo se importar contigo? Duvido muito — continuou o Chefe, arqueando uma sobrancelha e rindo de novo. — “Pum”, sempre falando como se estivesse soltando gases, Lei Yan deve te detestar tanto quanto eu. Tua morte será um alívio para todos. Mesmo que Lei Yan volte com comida, vai se esconder atrás da coluna, esperando eu te matar antes de aparecer, hahaha!

— Isso não pode ser! — Jim olhou de relance para a faca, vacilante. — Você não faz ideia do quanto sou importante para o grupo, sou praticamente a alma da equipe, ah— — ao perceber que exagerava, corrigiu-se apressado — digo, sou o segundo mais importante. Lei Yan jamais deixaria eu morrer, certo? Ele vai trazer muita comida — Jim olhou de novo para a comida ao lado do fogo, engolindo em seco — e equipamentos para me trocar. Então, é melhor não me matar, me manter vivo e me tratar bem, você só tem a ganhar! — Animado com seu próprio discurso, Jim voltou a se exibir: — E outra, meu apelido não é “Pum”, é “Navalha”. “Navalha”, entendeu? Não confunda, está bem?

— Não importa! Vou te matar primeiro, agora mesmo! — O Chefe lançou outro olhar para a comida, salivou, e sorriu maligno para Jim. — Já tenho o que comer, “aproveitar o momento”, não vou pensar mais. Vou cortar tua língua para petiscar com a cerveja — explicou, balançando a faca diante dos olhos de Jim, descrevendo detalhadamente o plano macabro — cortar tua língua ainda viva, para você não falar mais, sofrer até o fim. Depois, espetar a língua na ponta da faca e assar no fogo — o Chefe estendeu a faca sobre a chama, demonstrando — como língua de porco assada. Na verdade, acho que nem vou te matar agora — exibiu a faca girando entre os dedos, sorrindo com crueldade — vou te deixar sofrer até morrer, sem chance de reencarnar como valente!

Jim fechou a boca, sombrio, e baixou a cabeça sem ousar responder.

O Chefe olhou então para Teresa, que estremeceu de medo.

— E você, tenho que pensar como vou te comer — disse o Chefe, balançando a faca, até apontar de repente para o rapaz magricela à frente de Jim — ninguém menos que o chamado “Esqueleto” — e anunciou com um sorriso perverso: — Richard, vou começar por você. É o mais magro, o mais inútil, e ainda por cima come demais. Se morrer, Lei Yan vai ficar contente.

Richard, pálido como um fantasma, planejava mentalmente como sobreviver caso o Chefe começasse por Jim e acabasse nele, mas o Chefe não seguiu o roteiro e pulou direto para ele. Tremendo, tentou argumentar:

— Meu apelido é “Esqueleto”, já dá pra ver, não tenho carne nenhuma, sou só osso, mesmo que tivesse, seria duro, impossível de mastigar! E se assar, piora, um horror de ruim!

— Mas você come muito — ironizou o Chefe, girando a faca — em tempos difíceis, me contento com pouco. Além do mais, ainda sobrou meio pacote de palitos de dente, não temo carne nos dentes!

— Não é justo, eu nem como tanto assim — protestou Richard, apelidado de “Esqueleto”, quase chorando. — Só tenho boca grande, enquanto os outros comem em duas mordidas, eu como de uma vez. Não levo mais do que os outros, só parece que como mais. — Olhou para os companheiros, buscando compreensão. — E como não tenho bochechas, mastigo de um jeito meio exagerado, parece que estou sempre comendo muito, mas é só impressão. — Viu Jim rir de cabeça baixa e lançou-lhe um olhar fulminante, voltando a reclamar — Ser morto por isso seria uma injustiça sem tamanho!

— Até que faz sentido — reconheceu o Chefe, lançando um olhar de raposa para Jim, que ria baixinho. Manipulando a faca, zombou de Richard: — Mas você é estudante, o mais inútil do grupo, só um peso morto. Seu Lei Yan mesmo disse: “de nada serve o estudioso”, não ouviu?

— Isso é injusto, injustiça total! Ele falava de outros, eu sou diferente, sou muito útil! — Na última frase, “Esqueleto” imitou Lei Yan, dizendo em chinês “muito útil”, arrancando risos contidos dos outros, inclusive de Jim.

— Ei, se comportem — advertiu o Chefe, apontando a faca para todos. — Estou decidindo quem mato primeiro e como, acham que estou brincando? — Virou a lâmina para Richard. — Continue, fale certo, se não, corto sua cabeça!

— Eu sou um excelente aluno do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, não que isso importe... — Richard notou o Chefe ameaçando com o olhar e logo mudou de tom — Lei Yan me confiou tarefas específicas: cuido dos painéis solares da caravana, todos dependem de mim para eletricidade. Ah, e também... — olhou de relance para a escuridão e para o Chefe, que o encarava ferozmente — o doutor e a caixa misteriosa do doutor Reese. Só eu posso desvendar o segredo da caixa, por isso Lei Yan me incumbiu de cuidar do doutor e descobrir que utilidade tem.

— Doutor? Aquele velho doente quase morto lá fora é doutor? — O Chefe olhou para fora e falou consigo mesmo. — Então você, saco de ossos, ainda tem algum valor. — Aproximou-se por trás de Richard, que gelou, suando frio sem saber se seria morto. O Chefe levantou a faca e, de repente, apontou-a para Teresa, rindo de modo sinistro. — Ah, médica legista, já sei como matarei você, haha!

— O que pretende fazer? — Teresa tremia, os olhos arregalados para a faca. — Na verdade, sou médica generalista, a mais indispensável do grupo, não pode me matar — argumentou a bela mulher de vinte e sete ou vinte e oito anos, tentando salvar-se.

— Para outros grupos, talvez alguém como você seja imprescindível, mas para este — o Chefe olhou para os demais, balançando a faca, zombando — não faz falta, hehe!

— Por quê? — indagou ela, temerosa.

— Porque todos aqui vão morrer, igual ao Lei Yan — o Chefe brandiu a faca, rindo para a médica — de que serve médico para mortos? Você não pode ressuscitá-los, então é a menos útil!

— Como pode querer matar tanta gente de uma vez? — Teresa, apavorada diante da morte iminente, argumentava desesperada. — Se matar um por dia, vai demorar, e se alguém adoecer, quem cuida? Eu não posso morrer, ao menos não primeiro! Doente nem serve para comer, é ruim!

— Hahaha — o Chefe gargalhou alto, nitidamente satisfeito com o medo dela. Ignorando suas tentativas de convencê-lo, apontou para Teresa: — Vou usar o método do império da porcelana, “morte por mil cortes”, tirar sua carne fatia por fatia — a faca e o rosto do Chefe, iluminados pelo fogo, eram de uma maldade quase insana. Com seu sorriso exagerado e dentes brancos à mostra, todos congelaram de medo. Apontando a faca para o coração da legista, declarou: — Cortarei você três mil e seiscentas vezes, só no final darei cabo de sua vida! Hahaha! Assim, vingarei todos os cadáveres que você já dissecou...