Segundo, cinco volumes de fotografias.

Detetive de Segunda Classe Corpo Frutado de Laranja 3261 palavras 2026-02-09 13:59:08

O rés-do-chão tinha todas as janelas lacradas; a luz filtrava-se apenas por pequenas falhas e frestas nos cantos, desenhando ângulos caóticos que iluminavam minimamente o amplo salão e os corredores, tornando possível ver por onde andavam. Os passos e as vozes dos três ecoavam pelo espaço vazio, enquanto o ar, repleto de poeira, carregava um odor enjoativo, semelhante ao de peixes e crustáceos em avançado estado de decomposição, suficiente para provocar náuseas.

— Que espécie de mistério é esse...? — O Esqueleto franziu a testa. — Ainda não consegui descobrir ao certo.

— Então como é que sabe que é misterioso? — Sem esperar que Raio de Fogo perguntasse, Flatulento se adiantou. — Só porque está equipado com um sistema de energia moderno?

— Não é só por isso — respondeu Esqueleto, afastando uma cadeira do caminho enquanto avançava. — Ainda não tenho certeza, é apenas uma hipótese. Mas se estiver correto, sem dúvida será algo extraordinário.

— Suas hipóteses costumam ser bem fundamentadas e certeiras — Raio de Fogo sorriu, batendo duas vezes no ombro ossudo do Esqueleto em sinal de incentivo. — Conte logo, afinal, que função fantástica tem essa caixa? Pode falar, ouviremos como uma suposição, ninguém vai se iludir.

— Certo, considerando tempo e local definidos — concordou Esqueleto, acompanhando Raio de Fogo logo atrás. — Essa caixa pode trazer de volta as imagens e os sons do passado.

— Como assim? Você pode escolher qualquer ponto no tempo, para frente ou para trás? — Raio de Fogo parou, surpreso.

— Ah, não, só para trás — explicou Esqueleto, balançando a cabeça. — Perguntei ao Doutor, e foi isso que ele me disse. — Esqueleto sorriu, acrescentando — Se desse para prever o futuro, estaríamos feitos!

— Realmente, já seria algo incrível — Raio de Fogo lançou um olhar a Jim, ponderando sobre seu próprio plano, e assentiu. — E seria bastante útil. Explique melhor.

— Explique melhor — repetiu Jim ao lado de Esqueleto, imitando-o como um papagaio.

— Metade disso deduzi a partir das palavras do Doutor, a outra metade resulta da minha própria observação das partes da caixa — Esqueleto empurrou uma lata de conserva vazia com o pé, levantando uma nuvem de pó, e continuou: — O processo é complicado, e preciso estar com a caixa em mãos para explicar direito. Tudo deve levar cerca de meia hora. Vocês têm certeza de que querem ouvir?

— Ah, deixa pra lá — Raio de Fogo sabia que, se Esqueleto dizia que levaria meia hora, era porque realmente falaria todo esse tempo. Para não se aborrecer, fez sinal para que ele parasse e encolheu os ombros. — Preciso sair agora. Depois você conta com calma. Só diga como a caixa funciona, como ela faz essa projeção.

— Ah, é uma imagem holográfica, foi o que deduzi ouvindo o Doutor — Esqueleto torceu a boca, caminhando. — Só pode ser ativada com a bateria totalmente carregada, e agora ela está completamente descarregada. — Esqueleto balançou a cabeça, soltou o ar e, com as mãos, desenhou no ar a forma de uma caixa. — Tem umas peças estranhas nela, que suponho serem projetores. Quando energizada, essas peças devem sair voando por aí. Aposto que o espetáculo vai ser impressionante, um verdadeiro show!

— Uau, adorei! Então vamos logo! — Jim saltitava de empolgação, sem notar uma cadeira virada no chão, quase caindo de cara; só não se esborrachou porque Raio de Fogo o segurou a tempo.

— Receio que não será possível — os três chegaram à chamada “sala das provas”, e Esqueleto torceu a boca, franzindo a testa. — Como eu disse, a bateria está descarregada. Um baita problema.

— E os painéis solares do carro, conseguem carregar a bateria? — Raio de Fogo empurrou a porta entreaberta da sala, recebendo de imediato uma lufada de mau cheiro. Franziu ligeiramente o nariz, mas não tapou o rosto; neste mundo dominado por cadáveres apodrecidos, seria impossível sobreviver sem se acostumar ao fedor.

— A caixa deve consumir muita energia — Esqueleto agachou-se ao lado de Raio de Fogo, olhando para o vidro quebrado acima da cabeça e para o chão repleto de membros amputados e entulho jogado pela janela, fixando o olhar numa larva branca se contorcendo sobre uma mão decepada. — A bateria do aparelho é muito potente, e o transformador necessário para carregá-la é um complicador — disse, observando Raio de Fogo pegar um bastão de carbono e puxar debaixo de uma mão uma fita de fotos presas por um elástico. — Mas é possível resolver. O maior problema, atualmente, é que nossos painéis solares não produzem carga suficiente. Não faço ideia de quanto tempo levará para encher a bateria e fazer o aparelho funcionar normalmente.

— Quanto tempo, mais ou menos? — Raio de Fogo depositou um rolo de fotos no chão, pegando outro, e perguntou a Esqueleto: — Só precisamos que a caixa funcione por alguns minutos, só para vermos o tal espetáculo e entender do que se trata.

— Bem, depende do sol — Esqueleto fez cálculos mentais, olhou para Flatulento, que descansava de olhos fechados, e respondeu: — Com bastante sol, duas semanas; se o tempo estiver ruim, três semanas.

— Não é tanto tempo assim — Raio de Fogo separava as fotos com a ponta do bastão, tirando uma de um olho seco, e lançou um olhar a Esqueleto. — Então comece a carregar a caixa. Quando estiver pronta, me avise.

— Certo, mas os outros aparelhos vão precisar ficar desligados por enquanto — Esqueleto olhou para Flatulento e, vendo o rolo de fotos nas mãos de Raio de Fogo, foi franco.

— Ah, assim não dá! Se eu passar uma noite sem ver novela, não consigo dormir — Flatulento abriu os olhos num salto ao ouvir aquilo e protestou. — Preciso recarregar meu DVD! Se eu não dormir bem, não vou poder proteger o grupo no dia seguinte. Você quer assumir essa responsabilidade?

— Não é nada pessoal — Esqueleto deu de ombros. — Estou falando de toda a eletricidade para uso doméstico. — Coçou o queixo com um sorriso torto. — Nem meu barbeador poderá ser carregado.

— Ah, e daí? Vai mudar o quê? — Jim cutucou o queixo de Esqueleto, zombando. — Você mal tem testosterona, quase não cresce barba nenhuma. Ficar algumas semanas sem se barbear não faz diferença nenhuma, hehehe!

— Que bobagem! Minha barba cresce rápido, sim! — Esqueleto protestou alto. — E, além disso, você não acabou de achar uns mangás? Pode muito bem ler quadrinhos, não precisa do DVD.

— Mas sem luz à noite, ler quadrinhos acaba com meus olhos — Flatulento balançava a cabeça como um chocalho, irredutível.

— Parem de discutir — Raio de Fogo empilhou a quinta foto ao lado da quarta, olhou para o chão coberto de membros amputados e suspirou, interrompendo a busca. Pegou o primeiro rolo de fotos e, ao abri-lo, dirigiu-se aos dois companheiros: — Vamos agir em conjunto. Até encontrarmos uma solução melhor, aguentem firme, está bem?

Diante da ordem de Raio de Fogo, Flatulento, que estava pronto para argumentar, ficou em silêncio, fez beicinho, sacou a faca da cintura e a cravou na parede para aliviar a frustração. Esqueleto olhou para ele, balançou o cabelo e não disse nada.

— Vou sair para procurar comida — Raio de Fogo, com expressão fechada, dispunha as fotos no chão. Tratava-se de imagens de uma vítima — uma mulher loira, por volta dos quarenta anos —, amarrada, amordaçada e morta sobre uma cama. A última foto era um close do rosto, olhos arregalados, sem descanso mesmo na morte. Raio de Fogo virou a foto, leu o texto no verso e disse: — Fiquem atentos. Olhem para todos esses membros espalhados... Achávamos que a delegacia seria segura, mas há loucos demais de olho neste lugar. Não deixem ninguém invadir quando eu sair!

— Pode deixar — Flatulento puxou a faca da parede e a guardou na bainha. Depois de tantos dias sem comer direito, ao ouvir que haveria busca por comida, esqueceu na hora do DVD. Com um sorriso malicioso, respondeu: — “Coelho esperto tem três tocas.” Já vasculhamos todos os cantos. Tem certeza de que não escondeu comida em algum lugar por aqui?

— Vou ter que procurar mais longe — Raio de Fogo sorriu, resignado, olhando para Flatulento e balançando a cabeça. Flatulento cruzou os braços e fez careta, sem deixar claro se acreditava ou não.

— Caramba, esse assassino é mesmo atrevido — Esqueleto observava as fotos nas mãos de Raio de Fogo, lendo o verso com choque. — Aqui tem o nome da vítima, idade, endereço, hora da morte... — Esqueleto franziu a testa, intrigado. — O que significa isso? Parece um poema.

— Que poesia bonita — Flatulento olhou as frases no verso da foto e fingiu ser entendido, elogiando como se realmente apreciasse poesia. — Prova que o sujeito é culto; deve ser professor universitário, ou escritor, e claramente um pervertido!

— Ou então copiou de algum lugar — Esqueleto discordou da teoria de Flatulento. — Mesmo hoje, é fácil encontrar uns livros de poesia que ninguém liga. Acho que ele só quis se mostrar diferente.

— Besteira! E daí ser diferente? Para quem mostrar? Não tem mais imprensa, ninguém reportando nada. Todo mundo só pensa em sobreviver, procurar comida, lutar contra tudo e todos — Flatulento desdenhou do autor da mensagem, olhando para o sol poente que entrava pela janela quebrada e riu alto. — Aposto que ele percebeu isso e deixou as fotos na delegacia, sonhando que algum policial veria. Ele quer ser notado, nem que seja por um policial, ah, especialmente por um policial!

— Sem plateia, o ator não consegue mais atuar — Esqueleto torceu a boca e balançou a cabeça, discordando. — Parece que não existe ação que possa se desvincular do olhar do outro. Sem espectador, tudo perde a graça. — Deu de ombros. — Pelo visto, todos vivem sob os olhos alheios; sem isso, ninguém consegue sobreviver.

— Você e os criminosos, talvez. Eu, pelo contrário, vivo muito bem sozinho — Flatulento rebateu, levantando o queixo e proclamando em tom grandioso.