Terceiro, a letra de sangue

Detetive de Segunda Classe Corpo Frutado de Laranja 3281 palavras 2026-02-09 14:00:10

— Parece que esse sujeito está desesperado para ficar famoso — murmurou Raio, enquanto ouvia a conversa dos dois e organizava as quatro restantes pilhas de fotografias abaixo da primeira, alinhando-as uma a uma. O conteúdo das fotos era bastante semelhante, apenas variando a vítima. No verso da última foto de cada grupo, sempre aparecia a mesma caligrafia e um texto parecido. Raio sacudiu a última foto do quinto grupo, lendo de maneira irreverente o nome do assassino. — “Sam Feliz”.

— Me parece que esse sujeito até tenta ser discreto — retrucou Gaspar, claramente incomodado com o nome, balançando a cabeça. — Só faltou ele escrever: “Venham logo me pegar, estão esperando o quê?”

— Ele deseja um jogo de gato e rato — observou Caveira, assentindo enquanto analisava. — Esse desejo já supera sua vontade de matar; ele está faminto por atenção.

— Então vamos jogar com ele — Raio sorriu, guardando as fotos uma a uma, e falou aos dois: — Começaremos com “Sam Feliz”.

— Como assim? — Gaspar não entendeu, apressou-se em perguntar — Começar o quê?

— Vamos capturá-lo — Raio respondeu sorrindo a Gaspar. — Já disse a vocês —, olhou para Caveira e continuou —, nosso grupo não pode viver só para comer, só para sobreviver. Nossa existência precisa de propósito; caso contrário, não somos diferentes dos mortos-vivos lá fora!

— Espere, viver só para comer não é tão ruim! — protestou Gaspar, franzindo o rosto, tentando convencer Raio. — Rever DVDs, matar a saudade, crescer devagar, envelhecer aos poucos... isso é bom!

— Isso seria um fardo enorme para nós — discordou Caveira, levantando-se junto com Raio, tentando convencê-lo com argumentos. — Além disso, esses sujeitos são perigosos, são criminosos, muito mais assustadores que os mortos-vivos. — Olhou para Teresa, que descia as escadas, e continuou: — E para quem vamos capturar? Quem vai julgar? Quem vai executar a sentença? Se tudo depender de nós, isso simplesmente não é legal!

— A sociedade já está destruída; não existe mais lei. Sobreviver virou a única regra — murmurou Gaspar ao lado.

— Eu sempre fui um detetive do Império da Porcelana, só não gosto de ver esses tipos fazendo o que querem — Raio fez um gesto de desdém, mostrando as pilhas de fotos à médica legista que se aproximava, e falou a Caveira e Gaspar: — Não quero vê-los matando à vontade. Quero ser o guardião da justiça. Quanto ao resto, resolveremos no caminho. Quando chegar a hora, saberemos o que fazer. Já decidi. Pensem nisso. — Com essas palavras, Raio caminhou até a legista, que abriu um saco plástico.

— Então pode ser o justiceiro sozinho — resmungou Gaspar, com o lábio superior erguido, seguindo Raio e reclamando baixinho.

Caveira, de sobrancelha franzida, seguiu em silêncio, o rosto ossudo carregado de sombra.

— O laboratório forense ainda funciona? — Raio depositou as cinco pilhas de fotos no saco plástico que a legista abriu, tirando as luvas de borracha, e perguntou a Teresa: — São evidências do primeiro caso. Guarde bem.

— Já verifiquei. Com eletricidade, quase tudo funciona normalmente — Teresa examinou as fotos no saco, fez uma careta, entregou o casaco de couro a Raio e continuou: — Sem energia suficiente, não dá para preservar os corpos por muito tempo. — Olhou para Caveira e prosseguiu: — Precisamos de eletricidade.

— Sem energia, não dá para distinguir nada — respondeu Caveira, olhando para a legista. — Sem ela, a “caixa” não funciona.

— Que caixa? — perguntou a legista.

— Vocês conversam depois — cortou Raio, vestindo o casaco de couro e a mochila, pegando o cantil que a legista lhe ofereceu e bebendo um gole generoso. Enquanto rosqueava a tampa, disse a Caveira e Gaspar: — Vejam se acham um gerador perto da delegacia. Deve ter um, mesmo quebrado serve. Tragam e consertem, pode resolver nosso problema urgente.

— Espera aí, você quer trazer os corpos para congelar e não me deixar ver DVD à noite? — protestou Gaspar, seguindo Raio, indignado. — Tem corpos espalhados por todo lado; por que eles merecem ar-condicionado? — Olhou as fotos nas mãos da legista, fez uma careta e continuou: — Resolver crimes? Aff, eu preferia ser morto! Eles têm direito a conforto, e eu no calor, sem TV e sem dormir? Isso é um desperdício enorme — olhou para Caveira — e totalmente injusto! Nós somos menos que os mortos!

Caveira pensou em pedir energia para seu barbeador, mas ao passar a mão no rosto liso, engoliu as palavras.

— Que egoísta você é — disse Raio, indo até a janela lateral junto com os outros três (a porta principal estava selada, era a única saída), empurrando caixas e uma mesa de mármore. — Se vocês acharem um gerador que funcione, podem abastecer o laboratório e a sala dos corpos. Então, pode carregar seu DVD — olhou para Gaspar — e você seu barbeador — olhou para Caveira —, está bom assim?

— Perfeito! — exclamaram Gaspar e Caveira juntos, sorrindo como flores desabrochando.

— Aposto que logo encontramos um gerador — Gaspar pensava rápido, tentando lembrar onde poderia haver um, e sorriu para Raio — Pode esperar, chefe!

— Mesmo quebrado, eu conserto. Não tem erro — garantiu Caveira, pegando um saco preto da pilha ao lado da janela e entregando a Raio, que já saltava pela janela, sorrindo.

— Depois assistimos DVDs juntos — animou-se Gaspar para Caveira, que assentiu contente.

A legista sorriu resignada, olhando para os dois, e balançou a cabeça para Raio.

— Selam a janela, ouçam meu comando — Raio tirou o rádio portátil do bolso do casaco, ligou, pressionou duas vezes o botão e ergueu rádio e saco preto para os três. — Mantenham contato. Qualquer coisa, me avisem.

— Cuide-se! — pediu a legista, preocupada. — Se precisar de ajuda, chame imediatamente!

Gaspar e Caveira incentivaram ao lado.

Raio sorriu, acenou para Teresa e saiu sem dizer mais nada. Os três selaram a janela e subiram as escadas.

O pátio da delegacia era uma confusão de pedras, lixo e folhas mortas castanho-escuro. Os carros patrulha, imundos, bloqueavam o portão de ferro; os vidros estavam quebrados, pneus murchos mergulhados em poças sujas, a situação era deplorável.

Pelo gradeado do portão, Raio viu que havia apenas uma dúzia de mortos-vivos vagando pela rua, todos como sonâmbulos. Suas faces meio esqueléticas e apodrecidas pareciam estúpidas e malignas, as roupas sugeriam antigas profissões: operários, cavalheiros, criadas, damas. Mas nada disso importava mais. Raio não se interessava pelo passado deles, apenas pelo número atual, que o agradava.

Com o saco preto, Raio foi até a grade, tirou um pequeno brinquedo modificado por Caveira, ativou o interruptor e arremessou-o em direção ao poste. O brinquedo desenhou um arco, passou pelo gradil e caiu sob o poste, quicando antes de emitir uma gargalhada humana, alta e incessante.

O riso atraiu imediatamente os mortos-vivos, que correram para o poste.

Vendo que funcionou, Raio correu até uma árvore próxima, levantou uma lona preta. Debaixo dela estava uma velha motocicleta “Cavaleiro Negro”, marcada pelo tempo, como um veterano de guerra. Raio pôs o saco na mochila, empurrou a moto até a grade ao lado de uma pequena árvore.

Atrás da árvore, havia uma porta secreta, trancada. Raio, atento aos mortos-vivos, abriu cuidadosamente a porta, empurrou a moto para a rua, trancou de novo e suspirou aliviado. Montou na moto, olhou para o edifício da delegacia e levou um susto.

Na parede branca, havia cerca de quinze linhas de letras vermelhas, de tamanhos e estilos diferentes, todas parecendo escritas com sangue. Os textos insultavam a polícia, declaravam guerra, ameaçavam vidas e proclamavam matar centenas ou milhares de mulheres e crianças, num delírio de loucura.

Raio bufou, ciente de que olhos hostis podiam estar observando. Pensou em mostrar o dedo do meio e girar desafiadoramente, mas lembrou que sua missão era conseguir comida para todos. Provocar assassinos poderia ser perigoso para seus companheiros na delegacia. Então, engoliu a raiva, fez um gesto para uma janela do terceiro andar (onde havia um atirador de sua equipe), bateu duas vezes na porta secreta, sinalizando para ficar atento, e partiu com a “Cavaleiro Negro” pela rodovia 134, sumindo no horizonte...