Oito, Quem é o Chefe (Parte Dois)

Detetive de Segunda Classe Corpo Frutado de Laranja 2723 palavras 2026-02-09 14:00:32

— Caramba, vocês realmente são cruéis, me amarraram tão apertado — exclamou o chefe, sentando-se pesadamente na cadeira que Leslie lhe oferecera, balançando o ombro esquerdo com uma expressão de dor e reclamando em voz alta —. De repente, percebi que fingir ser a vítima é maravilhoso!

— Se você não interpretasse o vilão, como teria a chance de ficar com as três últimas porções de comida? — disse a médica legista, pegando uma cerveja na mesa e entregando ao chefe com um sorriso. — Faltou pouco para você conseguir todas as três porções — comentou Teresa, mostrando com o polegar e o indicador da mão esquerda a pequena distância que faltou, e sorriu —. Embora tenha ficado apenas com um terço, você teve o direito de escolher, e pegou a melhor parte. Parabéns, grande ator, foi incrível!

— Valeu a pena, fazia anos que eu não bebia cerveja — comentou o soldado Hale, alisando a barba espessa, sorrindo ao entregar ao chefe sua faca de caça.

— Pois é, eu já nem lembrava mais do gosto da cerveja — disse o “Esperto”, piscando para o chefe e, sem motivo aparente, trocando um sonoro toque de mão com Hale. Enquanto cortava o pão em pedacinhos com a faca, sorriu para o chefe: — Você é mesmo o mais sortudo e perspicaz do grupo, invejo você!

— Richard, vá chamar os outros, já é hora de comer — pediu a legista Teresa, enquanto cortava a carne em cubos e olhava para os outros, que fitavam a carne com água na boca. Sorrindo para o “Esqueleto”, ela entregou-lhe uma porção. O “Esqueleto” assentiu, lançou um último olhar à carne e ao pão, e desapareceu na escuridão.

— Mavin, estas duas porções são para Barac e Elisabete — disse a legista, calculando o número de pedaços de carne e pão, separando duas porções em pires e entregando-as à loira Mavin, que engoliu em seco ao receber os pratos e também se encaminhou para a penumbra. Teresa continuou dividindo a carne e o pão entre o restante, olhando para os companheiros para saber se estavam de acordo. Como ninguém contestou, largou a faca e distribuiu a comida.

— Por que só olha e não bebe? — perguntou o “Esperto”, pegando sua porção, jogando um pedaço de carne para cima e pegando com a boca, mastigando enquanto observava curioso o chefe, que segurava a cerveja e olhava para a divisão da comida. — Está com pena de beber?

— Não é isso, estou esperando para beber ao sentir o cheiro da carne e do pão — respondeu o chefe, engolindo em seco e fitando os alimentos e as bocas mastigando ao redor —. Assim parece que enche mais o estômago.

— Muito sagaz! — elogiou Hale, comendo pão, trocando mais um toque de mão com o “Esperto” e assentindo para o chefe. — Cerveja é pão líquido, como o Leiã sempre diz. Acho que mesmo sem olhar ou cheirar, você ainda conseguiria se saciar só de beber.

— Espera aí, você não tinha dito que essa carne estava estragada e o pão mofado? — indagou o chefe, de repente lembrando do conselho do “Esperto”, ao ver todos saboreando a comida com tanto gosto. — Por que então vocês comem com tanta satisfação?

— É que estamos com fome, qualquer coisa parece deliciosa — explicou o “Esperto”, mastigando mais um pedaço de pão. — Além disso, acho que errei um pouco; parecia estragado, mas na verdade ainda dá para comer. Tivemos sorte.

— Realmente, pura sorte — comentou Hale ao lado, saboreando sua porção e sorrindo para o chefe.

Os outros apenas riam, comendo em silêncio e ouvindo a conversa dos três.

Na escuridão, o “Esqueleto” reapareceu, trazendo consigo uma senhora idosa e ajudando um homem de meia-idade com olhar perdido.

— Como está o doutor? — perguntou Teresa à sua mãe Ana, a senhora de cabelos curtos, enquanto entregava uma porção ao “Esqueleto”.

— Passa a maior parte do tempo atordoado, confuso, falando coisas sem sentido — respondeu Ana, com a ajuda do velho Davi, acomodando o doutor desorientado numa cadeira velha. Suspirou, pegou a comida que Teresa lhe ofereceu, revirou os olhos e comentou resignada: — De vez em quando até diz algo lúcido, mas misturado com tantas bobagens que é difícil saber quando está falando sério. Enfim — Ana jogou um pedaço de pão na boca e continuou —, um caos total.

— Ah, muito obrigada, — agradeceu o “Esqueleto” a Ana, ao receber a comida de Teresa. — Caso contrário, eu não teria conseguido participar desse jogo.

— Jogar também é importante, uma espécie de simulação de crise. Se acontecer algo sério, vocês não ficam paralisados de medo — Ana comentou, mordendo o pão e pegando um pedaço de carne. — Mas, cuidar do doutor realmente combina com você — Ana arregalou os olhos e sorriu —. Pelo menos você consegue contar quantas vezes ele falou algo lúcido, haha!

— A senhora exagera, só tentei analisar enquanto ouvia — respondeu humildemente o “Esqueleto”, mastigando com força um grande pedaço de carne. — Não tem jeito, só o doutor sabe do mistério da caixa. Preciso conversar bastante com ele; quanto mais converso, mais consigo deduzir algo do que ele fala.

— E eles, estão bem? — perguntou Hale, limpando as mãos depois de terminar sua comida, dirigindo-se a Mavin, que acabava de sair da escuridão.

— Sim, muito bem — respondeu Mavin, pegando a comida das mãos de Teresa e comendo. — Barac disse que só de poder comer carne já valeu a pena segurar o posto por você.

— Alguma novidade na porta? — indagou a legista, terminando de comer e começando a alimentar o doutor. — O que Barac disse?

— Tudo normal, nenhum bicho maior que mosca ou rato passou pela porta — relatou Mavin enquanto comia. — Tirando os errantes, não apareceu ninguém suspeito.

— Entendi — respondeu a legista, que na verdade queria perguntar se Leiã tinha voltado, mas ao ouvir que nada tinha acontecido, engoliu a pergunta. O doutor parecia faminto e colaborava com a alimentação, terminando rapidamente sua porção. Teresa, temendo que engasgasse, ainda lhe deu alguns goles de água antes de se levantar, aliviada.

— Estranho, essa cerveja não tem gosto nenhum — comentou o chefe, provando um gole e estranhando o sabor aguado. Bebeu mais um pouco, mas a sensação persistia. Intrigado, passou a garrafa para a esposa Leslie, que confirmou a falta de sabor. Desconfiado de ter sido enganado pelo “Esperto”, o chefe perguntou com ar surpreso: — E, além disso, por que não tem gás?

Ao ouvir o chefe, vários seguraram o riso discretamente.

— Ora, em que época você acha que estamos? — o “Esperto” bateu palmas e se colocou diante do chefe, sorrindo com ar de explicação. — O nível das fábricas comunitárias é esse mesmo, sem gás é o normal. — Orgulhoso, trocou um olhar com Hale e continuou: — Quanto ao sabor aguado, deve ser cerveja leve, própria para diabéticos. — Piscou para Leslie, esposa do chefe: — Quem não está doente e bebe, só faz bem para os rins. — Apontou para o chefe e depois para Leslie, sorrindo: — Ele fica bem, você também!

— Cerveja leve, com certeza — confirmou Hale, piscando para o chefe e trocando olhares cúmplices com Leslie —. O efeito é garantido!

— E você, Sherlock, o que acha? — O chefe olhou para o “Esperto” e para Hale, já desconfiando da verdade: provavelmente os dois trocaram a cerveja verdadeira por outra para beberem escondido. Indignado, passou a cerveja para a esposa e perguntou ao gordo Sherlock, com quem costumava se dar bem, esperando que ele o defendesse.

— Olha, ultimamente andei tão cansado no trabalho que nem sei o que dizer — respondeu Sherlock, soltando uma risada e logo voltando à seriedade para falar com o chefe.

O chefe balançou a cabeça e suspirou fundo, lembrando-se de uma frase de Leiã: “Mesmo que você seja esperto, se beber a água de lavar meus pés, vai se arrepender.” Prometeu a si mesmo nunca mais ser tão ingênuo.