Doze, Como o Aço Foi Temperado (Parte Dois)
— Ah, a propósito, nesses últimos meses, como você sobreviveu? O que tem comido? — perguntou o homem magro, aceitando o garfo que o musculoso lhe ofereceu, acenando em agradecimento. Ele tirou da sacola plástica meia dúzia de cervejas e as colocou sobre a mesa, sorrindo para o companheiro.
— Meu Deus, hoje é Natal? Caramba! — exclamou o homem musculoso ao avistar as cervejas, animado, assobiando de empolgação. Pegou logo uma lata, admirando-a sob a luz como se fosse um troféu de campeão, o sorriso escancarado como uma flor desabrochada. — Sua caminhonete é um verdadeiro baú de tesouros!
— Eu estava trabalhando numa grande mercearia — explicou o homem magro, retirando da sacola uma garrafa de uísque. Sacou do cinto um canivete suíço e, enquanto abria a garrafa, continuou: — No início do desastre, quando tudo estava um caos lá fora, o patrão me deixou tomando conta da loja. Após baixarem os dois portões de ferro, fiquei sozinho no mercado, porque não tinha família. — Ele fazia esforço para abrir a garrafa enquanto falava. — O mercado tinha de tudo; eu passava os dias assistindo televisão, comendo normalmente, esperando tudo melhorar, esperando as coisas voltarem ao normal, esperando o patrão ligar, e então, como sempre, abrir a loja para funcionar. — O homem magro silenciou por alguns segundos. Com um estalo, puxou a rolha da garrafa, fez uma careta e continuou: — Mas, tirando a água e a luz que faltaram, nada mais aconteceu. O último que ainda atendia meu telefone também parou de responder. — Ele serviu um copo de uísque para o musculoso e empurrou para ele. O musculoso recusou, apontando para a cerveja, mostrando que preferia ela. O homem magro, então, deu um gole no próprio copo e prosseguiu: — Aguentei, à base de muito medo, mais um mês no supermercado. Até que, numa tarde, um grupo de famintos invadiu o lugar. Levaram tudo o que podia ser comido. — Suspirou. — Não tentei impedir, foi assim que sobrevivi. Mas não dava mais para ficar lá. Depois que os saqueadores foram embora, muitos mortos-vivos cercaram o mercado. Matei alguns que estavam no caminho, corri até a garagem e fugi com aquela caminhonete ali fora — explicou, apontando para o veículo. — Tive sorte: meu patrão saiu às pressas e não descarregou a mercadoria, por isso ainda tenho o que comer e beber.
— Eu também fui deixado de plantão para tomar conta da loja. Solteiro, igual você — comentou o musculoso, brindando com a cerveja contra o copo de uísque do outro e tomando um grande gole, o cenho franzido. — Só não tive a mesma sorte de estar num supermercado. — Apontou para os aparelhos de ginástica ao redor, com um sorriso de ironia. — Aqui só tinha esses pesos de ferro que quase quebram os dentes, hum! — Disse, enfiando um pedaço de carne na boca e fechando os olhos de prazer.
— Haha, deixa eu ver esses dentes aí — brincou o homem magro, fingindo examinar os dentes brancos e alinhados do outro. — Estão todos aí! Então, só posso suspeitar que você comeu o patrão ou algum cliente, não sobreviveu só de água, né? — E apontou para a fileira de galões plásticos de bebedouro encostados na parede.
— Se eles tivessem ficado comigo, provavelmente eu já teria sido devorado por eles — riu o musculoso. — Você não faz ideia do que a falta de carne faz na cabeça de um homem depois de três dias... — Ele fez uma careta, pegou outra cerveja e lançou um olhar para a lata de carne. — Três dias sem carne e você começa a duvidar até da própria masculinidade. Depois, questiona o sentido da vida, quase não dá para continuar.
— Uau, será mesmo tudo isso? — O magro achava que o outro estava brincando e disse meio incrédulo: — Sei como é passar fome, mas não consigo imaginar o que você descreve. Enfim, não acredito que tenha ficado só na água. Só na força de vontade ninguém aguentaria até agora. Com certeza você arranjou outra coisa para comer.
— Bah, não tinha o que comer, força de vontade nenhuma salva! Eu estava só reclamando — respondeu o musculoso, enfiando um pedaço de pão na boca e mastigando, falando meio embolado. — O patrão era um avarento, a academia era só fachada — explicou, apontando na direção do depósito. — O lucro dele vinha mesmo era da venda de suplementos: proteína, creatina, essas coisas. Ele ficou tão animado que estocou o depósito com tudo quanto era tipo de pó e estava pronto para ganhar muito dinheiro, mas aí o mundo acabou — disse, olhando para uma luz forte no teto e fazendo um círculo no ar com a mão. — Então, as mercadorias do depósito viraram minha comida.
— Então é por isso que você continua forte mesmo depois de um mês comendo quase nada! — O homem magro deu um tapa amistoso no ombro do musculoso, rindo. — Tinha suplemento e aparelhos para malhar, bastava trancar a porta — apontou para a entrada. — Não é tão ruim assim.
— Você não viu como é enlouquecedor procurar qualquer outra coisa para comer estando sozinho num lugar desses. Se tivesse visto, não falava isso — suspirou o musculoso, mordendo mais um pedaço de carne. — Fiquei com tanta vontade de carne — ele flexionou o braço esquerdo, mostrando o bíceps ao magro —, que quase cortei o bíceps para cozinhar e comer. — Fez uma careta amarga. — Misturar proteína com água fria é uma tortura, desce rasgando, impossível engolir, é como uma sessão de tortura. Um dia, você deveria experimentar!
— Pelo visto, eu sou mesmo um sortudo! Vamos brindar! — O homem magro ergueu o copo e brindou com o musculoso, e ambos viraram suas bebidas de uma vez.
— Quantos daqueles mortos-vivos lá de fora você já matou? — O musculoso, claramente fã de cerveja, abriu mais uma lata e perguntou, bebendo: — Eu só dei umas voltas na porta, afinal, você andou bem mais que eu.
— O pessoal lá fora chama eles de mortos-vivos ou errantes. Deixa eu ver... — O homem magro contou nos dedos. — Dezesseis.
— Opa, quem diria que esse magricela é durão! — O musculoso o examinou de cima a baixo, batendo palmas em aprovação, rindo. — Eu só matei cinco na porta com um taco de beisebol. Conta aí como foi!
— Ah, não tem segredo. No começo era só na força mesmo — o magro fez um gesto simulando um golpe de taco. — Depois vi que os mais experientes usavam facas para perfurar o crânio dos mortos-vivos, assim — simulou o movimento —, e eles caíam na hora. Quando precisei fugir, comecei a imitar, e funcionou. Depois de eliminar mais de dez com minhas próprias mãos, fui pegando o jeito de lidar com eles.