Trinta e Dois, Vida Subterrânea (Onze)
O salão onde estavam instalados os aparelhos de ginástica permanecia sempre em silêncio absoluto; qualquer movimento do lado de fora da porta metálica era perceptível a Rayen, cujo ouvido, nesses meses de constante vigilância, parecia ter se tornado ainda mais aguçado.
Primeiro, ele ouviu alguns disparos — alguém nas proximidades atirava com arma de fogo. O coração de Rayen se apertou. Não temia necessariamente quem atirava lá fora, mas sim que o barulho atraísse uma horda de mortos-vivos.
Se viessem, não atacariam diretamente a porta de ferro, mas ficariam vagando em grande número do lado de fora, sem se dispersar por horas. Nesse caso, o plano de Rayen de sair da academia na manhã seguinte estaria perdido.
Enquanto remoía essa preocupação, vozes alteradas chegaram até ele do lado de fora da porta de ferro, parecendo estar logo ali. Imediatamente ficou tenso, escondeu a mochila que já havia preparado, apagou a luz, sacou a pistola da cintura e se escondeu no canto da escada que levava à porta, pronto para qualquer imprevisto.
De fato, o imprevisto aconteceu: as pessoas lá em cima tinham mesmo a chave da porta. Sem precisar arrombar ou atirar, abriram o cadeado barulhentamente, continuando a discussão enquanto trancavam a porta por dentro.
O coração de Rayen quase saltou pela boca. Apertou a arma com as duas mãos e percebeu, pelo tom das vozes, que um deles falava com dificuldade e respirava com esforço — devia estar gravemente ferido. Calculou que junto ao ferido havia mais três ou quatro pessoas. Com tantos, provavelmente armados, e certamente sabendo onde ficava o interruptor de luz, Rayen entendeu que não poderia permanecer escondido na escuridão por muito tempo. Estava em clara desvantagem. Uma gota de suor escorreu de sua testa, enquanto os passos se aproximavam cada vez mais. Sua mente fervilhava: seria possível que o destino não lhe desse nem sequer uma chance de sobrevivência?
Num lampejo, Rayen teve uma ideia. Rastejou até a entrada da escada e esticou a perna. Os que desciam, ocupados em carregar o ferido e envolvidos pela escuridão total do subsolo, não esperavam por uma armadilha. Acabaram todos caindo pesadamente, com direito a urros de dor.
— Ninguém se mexa, ou atiro para matar! — bradou Rayen, virando o jogo de imediato. Levantou-se de um salto, pressionou com o pé as costas de um dos homens para impedi-lo de reagir e, com a arma em punho, mirou os demais caídos no chão. Nesse momento, a escuridão já não lhe servia mais; precisava enxergar onde estavam as armas dos intrusos. Acionou, então, o interruptor da luz do subsolo.
Ao ver o que a claridade revelava, Rayen se surpreendeu: três pessoas jaziam no chão, uma delas sob o seu pé, outra aparentemente ferida da queda, e o terceiro, o ferido, era ninguém menos que Mike, o treinador musculoso que outrora o trancara na academia.
— Você está vivo? — Mike, surpreso ao ver Rayen — agora ainda mais forte e armado —, expressou um misto de dor e incredulidade, forçando um sorriso trêmulo.
— Maldito, não é tão fácil assim me matar! — Rayen, ao reconhecer Mike, sentiu a raiva fervilhar. Se não estivesse em vantagem, teria atirado de imediato naquele desgraçado. As veias da testa saltavam, e ele mantinha a arma apontada para Mike e seus comparsas, demorando para conter o ímpeto de matá-los. Moveu o braço e ordenou, apontando para os outros:
— Entreguem as armas, depressa!
— Obedeçam — disse Mike, colocando sua arma no chão e sinalizando aos dois acompanhantes. Olhou para Rayen com semblante sincero e explicou: — Não quis te condenar. Eu conheço a solidão, só não imaginei que você tivesse tanta força de vontade.
— E por que eu não teria? Você também sobreviveu — replicou Rayen, recolhendo as armas do chão e jogando-as para longe. — Na verdade, eu tive ainda mais dificuldades! Você podia sair quando quisesse, enquanto eu fiquei aqui preso esse tempo todo, seu desgraçado!
— Por isso mesmo sua força é admirável — Mike não fugiu do confronto, mantendo o tom direto. — Mas, veja, mesmo preso aqui, você ainda está melhor do que quem ficou lá fora sem comida ou arma. Pelo menos não morreu de fome, nem foi mordido, nem virou um deles. Quase todos lá fora morreram, não pode negar.
— Agradeço, viu! — Rayen, enfurecido, só conseguiu ironizar, depois ordenou, apontando a arma: — Levantem devagar e fiquem de frente para a parede!
Mike, segurando o abdome ensanguentado, apoiou-se nos companheiros e foi cambaleando até a parede, olhando Rayen com expressão abatida.
— Mãos na cabeça — ordenou Rayen, observando Mike pálido de dor. — Vocês dois, mãos na cabeça e de frente para a parede!
Os dois obedeceram, e Rayen os revistou. Encontrou três facas, mas nenhuma outra arma.
Durante a revista, notou que Mike sangrava bastante pelo ferimento no abdome. Diante do sofrimento estampado no rosto dele, Rayen hesitou e perguntou:
— O que aconteceu?
— Fui baleado, mas não foi grave. O tiro só raspou — respondeu Mike, forçando um sorriso. — Só voltei para buscar remédio e gaze na enfermaria. Não tenho outra intenção.
— Eu duvido — replicou Rayen, ainda desconfiado. Apontou a arma para os comparsas e ordenou: — Coloquem-no deitado, mas sem truques. Minha paciência está no limite!
Os dois obedeceram, ajudando Mike a se sentar e depois a se deitar. Um deles tirou a própria camisa, enrolou-a e colocou sob a cabeça de Mike como travesseiro.
— Vocês dois, vão à enfermaria — Rayen apontou para a direção da sala. Seu próprio suprimento de remédios estava ali perto, mas não queria revelar o esconderijo. Apontando a arma, fez os rapazes olharem para Mike, que consentiu com um aceno de cabeça. Sob a vigilância de Rayen, seguiram para a enfermaria.
Na porta, Rayen lhes disse o que pegar; os dois foram rápidos em reunir os medicamentos e gazes, deixando-os no chão conforme instruído. Rayen os fez voltar para dentro da enfermaria, fechou e trancou a porta. Em seguida, recolheu os suprimentos e voltou até Mike para tratar dele, pedindo que tirasse a mão do ferimento.
— Não sobrou analgésico, aguente firme — avisou Rayen, colocando uma toalha na boca de Mike para que mordesse. Rasgou a camisa dele e limpou o ferimento com soro fisiológico, depois pegou uma agulha cirúrgica para fazer a sutura. — Só costurei meias até hoje, não espere grande coisa. O importante é parar o sangramento — disse, enquanto costurava. Mike suava copiosamente, os músculos da testa saltavam, os punhos cerrados de dor. Era mesmo um sujeito durão.
Após alguns minutos, o ferimento estava fechado. Rayen, que nunca tinha feito aquilo antes, também estava ensopado de suor. Lavou de novo a área com soro, enxugou com algodão, colou camadas de gaze com fita branca e prendeu tudo ao redor da cintura de Mike. Finalmente, respirou aliviado e tirou a toalha da boca de Mike, que mal se aguentava, com os olhos injetados.
— Tem mais antibióticos e remédios orais na enfermaria. Depois peguem vocês mesmos — disse Rayen, aplicando uma injeção no braço de Mike.
— Fez um ótimo trabalho. Já tinha alguma experiência médica? — Mike se surpreendeu, ainda ofegante. — A maioria não encontra a veia certa.
— Não, só vivi muito tempo numa zona perigosa, rodeado de viciados. Acaba-se aprendendo — Rayen respondeu, recolhendo o lixo ao redor de Mike e jogando-o para longe. Entregou-lhe as chaves da enfermaria, recolheu armas e facas, levando-as para o canto oposto do salão, e deixou uma garrafa de água ao lado de Mike. Agachou-se e perguntou:
— A chave da porta metálica está contigo, não é?
Mike assentiu, tirou a chave do bolso com esforço e perguntou:
— Vai nos trancar aqui dentro?
— Claro. Se os mortos-vivos entrarem, nenhum de vocês sairá vivo — respondeu Rayen. Pegou a chave, pôs a mochila nas costas, conferiu sua arma e subiu as escadas.
— Ei! — chamou Mike ao vê-lo partir.
Rayen olhou para trás.
— Obrigado! — Mike sorriu, exausto.
— Tem proteína em pó lá. Quando melhorar, pode abrir a porta para seus amigos — Rayen balançou a chave. — Vou trancar do lado de fora e jogar a chave pra dentro. Depois escolham o que fazer.
Dito isso, foi à porta, saiu, trancou novamente e lançou a chave pelo buraco. Deixou para trás o subsolo da academia, que durante meses fora o cenário de suas lutas e questionamentos, e partiu em busca de um novo destino.