Nove, Quem é o Chefe (Parte Três)
— Tem certeza de que quer mesmo carregar aquela caixa velha? — Gásoso lançou um olhar de desprezo para o Dr. Lis, que parecia um completo idiota, cruzou os braços e perguntou, franzindo as sobrancelhas para Caveira.
— Sem dúvida. O problema do transformador já foi resolvido — respondeu Caveira, engolindo o último pedaço de pão, largando o prato e assentindo para Gásoso, também com a testa franzida.
— De qualquer forma, o Leiyan não está aqui — Gásoso deu um salto e parou bem na frente de Caveira, os olhos brilhando de expectativa. — Por que você não carrega meu DVD primeiro? Ninguém vai contar, hein — disse, piscando para a perita forense. Teresa bufou, mas não disse nada. Gásoso riu e continuou, dirigindo-se a Caveira: — Vamos assistir juntos, tenho um filme daqueles! — Ao mencionar “filme daqueles”, Gásoso baixou intencionalmente a voz, o olhar malicioso, deixando todos imaginar o conteúdo. Os fortões e o rapaz atlético presentes engoliram em seco ao mesmo tempo, ansiosos para que Caveira tivesse coragem de aceitar.
— Agora já é tarde demais — respondeu Caveira, olhando em volta, torcendo a boca para Gásoso. — Toda a energia do acumulador já foi para o estômago da caixa misteriosa. — Caveira deu um tapa na própria barriga e continuou: — Mesmo que você tenha um filme daqueles, não posso ajudar. — Ao ouvir isso, todos os homens presentes soltaram um “ahh” de desapontamento, o que divertiu as mulheres ali.
— Não dá para tirar um pouquinho do estômago da caixa misteriosa? — Gásoso não desistia, olhando para os homens decepcionados, apontando para a própria barriga e perguntando a Caveira: — Só um pouquinho, o suficiente para assistir!
— Como posso explicar... Se eu for muito técnico, você não vai entender — Caveira pensou um pouco e explicou, franzindo a testa: — A caixa misteriosa é como um abismo. É fácil jogar água lá dentro, mas tirar de volta, impossível. — Caveira deu de ombros e torceu a boca. — E, além disso, só colocamos um pouquinho de água, dificuldade igual a subir ao céu! — disse, apontando para o teto.
— Isso é de enlouquecer! — Gásoso desferiu um soco no ar e gritou, reclamando: — Que ordem mais idiota! Maldita caixa!
— Aquele gerador velho no depósito dos fundos, você sabe qual é — Caveira tentou convencer Gásoso. — Amanhã trazemos ele de volta, consertamos, e teremos energia de novo. Leiyan prometeu para nós.
— Ora, só uso energia normalmente, por que preciso da permissão dele? — Gásoso se irritou. — Leiyan, Leiyan... Sem ele, nos viramos do mesmo jeito!
— Ele é o chefe, então seguimos as ordens dele, não tem erro — Caveira olhou para todos e disse a Gásoso: — Aguenta só por hoje!
— Como aguentar? — Quando Gásoso se irritava, era como um rio em cheia, impossível de conter. Ao ouvir Caveira pedir paciência, respondeu na hora: — Meu estômago vazio é um abismo! Com tão pouca comida, nem dá pra ouvir o barulho quando cai lá dentro! — Apontou para a barriga com força, indignado. — Não dá para tirar, nem para pôr. Eu queria ver um DVD para distrair a cabeça, mas agora... Pfff! Que detetive o quê, resolver caso nenhum! — Gásoso abriu os braços para todos, soltou duas risadas, mostrando o quanto achava tudo ridículo e sem sentido. — Nem comida temos, estamos quase morrendo de fome! Que tipo de chefe é esse? Proponho trocar de líder! — Gásoso cruzou os braços e virou de costas, com ar de quem não voltaria atrás.
— Sob comando do Leiyan, nunca nos faltou comida ou bebida, e estamos muito mais seguros que antes — Teresa, a perita, ignorou o puxão da mãe para que não se envolvesse e defendeu Leiyan: — Agora estamos quase sem mantimentos porque Leiyan está doente, senão não teríamos chegado a esse ponto. E outra coisa — pensou um pouco e continuou para todos: — Ele saiu para buscar comida mesmo doente. Pode ser que já esteja voltando. Por que esse desespero?
— Segurança? Vai ser mais seguro lidar com aqueles assassinos maníacos? — Gásoso zombou de Teresa. — Só você está segura aqui!
— O que está insinuando? — Teresa também se irritou, encarando Gásoso. Ele não respondeu, mas continuou de braços cruzados, firme em seu canto. Ana puxou o braço da filha, sugerindo que não discutisse com crianças. O velho David Nevard, sem querer ouvir a briga, foi até o velho sofá encostado na parede, sentou-se e fechou os olhos para descansar. Meiven ajudou Ana a acomodar o Dr. Lis, que estava desorientado, ao lado de David, para que ficasse mais confortável.
— Esse homem tem coragem, mas não tem cabeça. Força? — O soldado Hale exibiu o bíceps esquerdo, depois o direito, olhando orgulhoso para seus próprios músculos. — Antes ele podia ser bom, mas agora está longe de ser páreo para mim. Ele sair para buscar comida foi uma temeridade. Duvido que volte inteiro!
— Já deve ter virado comida dos mortos-vivos — Eric, o rapaz negro, teve um flash do tal “filme” na cabeça, assentiu com o comentário de Hale e disse: — Do contrário, já deveria ter voltado.
— Ser detetive, resolver caso... Que ideia horrível — resmungou o gordo Holmes, cheio de energia e precisando extravasar. Na cabeça, o filme malicioso já rodava, pena que só via uma tela branca com sons entrecortados. Estava irritado com Leiyan e, olhando para Eric, disse: — Nos conhecemos há tempos, mas sendo sincero, deveríamos focar em comida e, de vez em quando, em um pouco de lazer. Aí todo mundo fica feliz, certo? — Viu alguns assentirem e tomou isso como apoio geral. — Por isso, também concordo com Gásoso: é provável que Leiyan não volte. Não precisamos escolher um novo chefe agora, mas devemos eleger um substituto, caso algo aconteça com ele, não é?
— Hmpf — O Chefe, que até então concordava com eles, resolveu discordar só porque tinham sido grosseiros com ele antes. Respondeu com um resmungo de desprezo.
— Se todos concordarem, estou disposto a liderar e buscar a vida que desejamos — Hale, achando que todos estavam de acordo, se ofereceu: — Garanto que ninguém mais vai enfrentar assassinos, e todos terão comida farta, roupas quentes. — Apontou para Gásoso e, em campanha, prometeu: — E garanto que toda noite vamos assistir a um filme daqueles!
— Excelente! Como o próprio Leiyan disse: ‘Reis e generais não nascem de linhagem!’ — Eric aplaudiu Hale. — E você não é burro, pode ser chefe tranquilamente.
— Não é? — Hale falou com orgulho.
— Hmpf! — O Chefe e a perita bufaram ao mesmo tempo, enquanto Caveira os olhava atônito, sem entender tanta conversa.
— Eu também sou um bom candidato a chefe — Gásoso piscou para Hale, sorriu para Eric e os demais e disse: — Força, não tenho como Leiyan ou Hale, mas nem sempre força é o mais importante. Leiyan tinha força, mas agora nem sabemos se vai voltar. Por isso, a inteligência deveria ser prioridade — Gásoso limpou a garganta, fazendo campanha —. Hale não é burro, mas será que tem minha sagacidade? — Olhou para Eric e Holmes, enfatizando: — Além disso, os filmes estão comigo, não esqueçam.
Eric e Holmes concordaram com a cabeça, enquanto o Chefe e a perita continuavam a bufar. Os demais observavam friamente.
— Se me escolherem, e seguirem minhas ordens — Gásoso se empolgou, engoliu em seco, extasiado —, energia à vontade, comida mais do que agora, e filmes... será quase como viver no paraíso! — Ao terminar, fechou os olhos, com o rosto de quem estava prestes a atingir o êxtase.
— Quem vem comigo lá para baixo? — De repente, Elizabeth saiu da escuridão, ao lado de Barak, que vigiava a porta do pátio, e perguntou. Vendo o grupo de homens se comportando de modo estranho e o jeito ridículo de Gásoso, insistiu: — O que é que vocês estão tramando?
— Para quê descer com você? — Hale olhou para Gásoso, um pouco nervoso, e perguntou à namorada: — Aconteceu alguma coisa?
— Hmpf, o chefe voltou. E parece que trouxe alguém nas costas — respondeu Elizabeth...