Capítulo 14: Caçando Lobos com Mãos Vazias
O uniforme de Qin Shu estava impecável, como se fosse novo. Em contraste, ele trazia as roupas manchadas de sangue e até lhe faltava um braço. Olhava para Qin Shu, surpreso, mantendo, no entanto, sua postura arrogante.
Os que sobreviveram até agora só podiam ser pessoas de talento extraordinário ou de inteligência e adaptabilidade fora do comum. No subconsciente, acreditava que Qin Shu tinha tido sorte e, com certeza, havia despertado um talento considerável, pelo menos de nível B.
Parecia que precisaria reconsiderar e começar a levar Qin Shu a sério.
— Qin Shu, antes eu estava errado em duvidar de você. Fico feliz que tenha sobrevivido até aqui.
Gu Beichen conteve suas emoções, ergueu orgulhosamente a cabeça e, de maneira condescendente, barrou o caminho de Qin Shu.
— Quanto mais perto do fim, mais perigosa fica a missão. Se não quer morrer, o melhor é cooperar comigo e contar o que sabe. Posso ajudá-la a passar dessa fase.
Qin Shu lançou-lhe um olhar de desdém, perguntando-se por que não havia notado antes aquela autoconfiança cega. Olhou com escárnio para o braço amputado dele:
— Você? Um inútil como você?
— Por acaso, quem te deu essa ousadia?
Sem expressão, Qin Shu passou por ele e se dirigiu ao gerente que estava logo atrás.
— Gerente, qual é a minha tarefa de hoje?
O gerente esboçou um sorriso perverso, repleto de malícia, e apontou para algumas mesas defronte ao caixa:
— Boa sorte.
Qin Shu arqueou as sobrancelhas, já percebendo que aqueles clientes não seriam fáceis de lidar.
Pelos respingos de sangue nas mesas, muitos que os atenderam nos últimos dias haviam morrido.
Qin Shu suspirou, resignada:
— Tudo bem, estava até pensando em conversar com você sobre o segredo do patrão, mas, já que é assim, desejo sorte a mim mesma. Espero sobreviver até a noite.
Ela olhou para ele com segundas intenções e esboçou um sorriso travesso.
Virou-se e se dirigiu às mesas indicadas.
O gerente fechou a expressão, rangendo os dentes enquanto encarava Qin Shu indo servir os clientes:
— Espere, você... vá servir aquelas mesas.
Apontou para Gu Beichen, cujo rosto estava carregado de sombras, ordenando-lhe que atendesse os clientes que antes seriam de Qin Shu. Em seguida, indicou-a novamente:
— Hoje, só precisa servir aquela mesa.
Qin Shu cruzou os braços e balançou a cabeça:
— Não, eu solicito servir os clientes do andar de cima.
— Tem certeza? — o gerente não esperava que Qin Shu quisesse ir servir os clientes das salas privadas no andar superior.
— Os clientes de cima são bem mais exigentes que os do salão. Não vá cavar a própria cova — disse o gerente, rangendo os dentes.
Qin Shu acertou no palpite: o gerente parecia saber da existência do patrão.
O rosto de Gu Beichen escureceu ainda mais. Quando ouviu Qin Shu pedir para servir os clientes do segundo andar, animou-se.
Afinal, Qin Shu, sem cérebro, confiando apenas em seu talento, acabaria se matando sozinha.
Talento sem inteligência não garantiria a sobrevivência até o amanhecer.
Qin Shu não se importou nem um pouco com as expressões deles e assentiu com determinação:
— Com certeza. Afinal... também quero ajudar você a encontrar logo aquele estranho.
— Nestes dias, não o vi no primeiro andar. Desconfio que tenha se misturado entre os clientes do segundo. Para a segurança do restaurante, como funcionária exemplar, sinto que é meu dever ir investigar por você.
Ela mentiu descaradamente.
Ao ouvir a palavra "estranho", a expressão de Gu Beichen congelou. Inconscientemente, cerrou os punhos.
Será que subestimara Qin Shu? Ela certamente dominava pistas ocultas.
— Gerente, também quero servir os clientes do segundo andar.
Não podia permitir que as pistas ocultas fossem descobertas por outra pessoa. Era preciso desvendá-las.
O gerente semicerrava os olhos, sua aura sinistra crescendo, o pescoço estalando de modo assustador, o rosto cada vez mais desfigurado pelo ódio.
— Já que querem tanto se arriscar, vão os dois ao segundo andar.
— Os clientes de cima nem eu ouso ofender. Vocês que se virem. Afinal... estamos com falta de pessoal, e se alguém estragar o apetite dos clientes, terá de pagar com a própria vida.
Essas palavras eram dirigidas a Qin Shu.
Gu Beichen ficou ainda mais certo de que Qin Shu sabia de algo que ele não havia descoberto. Por dentro, sentia-se ansioso e lançou-lhe um olhar furtivo.
Qin Shu sorriu calmamente e assentiu:
— Fique tranquilo. Tenho certeza de que sobrevivo até a noite e ainda consigo pegar aquele estranho. Gerente... não se esqueça de nosso acordo. Quando eu o encontrar, não se esqueça de mim.
Mais uma vez, o estranho.
Quando Qin Shu teria feito um acordo com o gerente?
O gerente cerrou os dentes, o olhar carregado de hostilidade:
— Repito, boa sorte.
Parecia odiar Qin Shu, virou-se rigidamente e foi embora.
Ela não insistiu e voltou seu olhar para o caixa.
Como esperado, o corvo se mexeu.
— Qin Shu, aconselho você a não agir por impulso. É a primeira vez que participa de um cenário bizarro, não tente ser heroína — Gu Beichen apressou o passo para alcançá-la e, ao entrarem nas salas privadas do segundo andar, barrou sua passagem.
— Estou falando sério, é para o seu bem. Quanto mais perto do final, mais perigoso fica. Se cooperarmos, temos mais chance de passar.
Ele semicerrava os olhos, avaliando Qin Shu. Sentia que agora não seria fácil enganá-la; antes, bastava um gesto ou um pouco de simpatia para que ela o seguisse cegamente.
Mas nestes dias, a atitude de Qin Shu para com ele estava totalmente diferente.