Capítulo 8: Sou um Colega
Qin Shu, que havia planejado investigar pistas na cozinha naquele dia, já começou a manhã de mau humor ao deparar-se com Gu Beichen, aquele ser repugnante. Por dentro, sentia um fogo ardente. E ele ainda insistia, querendo atrasá-la.
Virando-se, desferiu-lhe um soco certeiro no nariz. O sangue escorreu imediatamente. Gu Beichen, com o nariz ensanguentado entre as mãos, olhou para Qin Shu, incrédulo.
— Não toque em mim, nojento — rosnou ela entre dentes cerrados, com ódio no olhar.
Pegou o despertador, conferiu as horas. Faltava apenas um minuto para as nove.
— Se não quer morrer, aconselho que não me provoque agora. Caso contrário… não me importo de levar você junto para o inferno.
Qin Shu arqueou os lábios num sorriso gélido e cruel.
Ela sabia: Gu Beichen só ousaria entrar na cópia e se arriscar na cozinha se tivesse algum talismã para salvar a própria vida. Se ele insistisse em persegui-la, não hesitaria em arrastá-lo consigo para o abismo.
O brilho insano nos olhos de Qin Shu assustou Gu Beichen. Aquela jovem à sua frente tinha um olhar enlouquecido; o sorriso não tocava os olhos, e o modo como o fitava fazia-lhe gelar a espinha, como se estivesse sendo vigiado por uma entidade maligna.
Engoliu em seco, recolheu a mão.
Observou Qin Shu desaparecer de sua vista, sentindo que alguma coisa escapava de seu controle. Aquela era ainda a mesma Qin Shu de antes? Aquela menina tímida que corava e abaixava a cabeça sempre que ele a olhava?
Obviamente, não.
O que será que Qin Shu vivenciou desde que entrou neste mundo de horrores? Que a fez mudar tanto?
Seu coração estava inquieto, a mente confusa; não conseguia entender a transformação dela.
Ela pretendia ir até a cozinha para conseguir duas pernas humanas e agradar as duas entidades que a seguiam, mas Gu Beichen arruinou tudo.
No fim do dia, Qin Shu não fez nenhum progresso, sentindo-se frustrada.
Como de costume, foi até o refeitório e, tal como na véspera, preparou uma porção especial para as duas entidades.
Ao retornar ao dormitório, ao abrir a porta, deparou-se com um rosto cadavérico e um sorriso sinistro, parado atrás de Yan Yingxue, fitando-a com olhos vazios e gélidos.
Yan Yingxue estava tão pálida quanto, tremendo como vara verde, choramingando:
— Yang Yue, por que está me seguindo? Não fui eu quem te fez mal ontem à noite! Por favor, eu imploro, pare de me seguir...
A única resposta de “Yang Yue” foi um sorriso ainda mais aberto, rasgando o rosto até quase as orelhas.
A entidade que Yang Yue se tornou parecia tê-la escolhido. Não importava para onde Yan Yingxue fosse, ela a seguia de perto, mantendo certa distância.
Fan Tiantian, encolhida na cama de cima, tremia, sem ousar olhar para Yan Yingxue e a entidade atrás dela. Ao notar que Qin Shu havia voltado, respirou aliviada.
Qin Shu lançou-lhes um olhar e, como se nada fosse, trancou portas e janelas, voltando para sua cama.
Colocou o despertador ao lado do travesseiro. Marcava oito da noite. Quase todos os jogadores já estavam escondidos nos dormitórios.
Ela revisou mentalmente as regras do banheiro e do dormitório, sentindo que havia deixado escapar alguma pista importante.
De repente, sentou-se ereta, assustando Yan Yingxue, que era vigiada por “Yang Yue”.
— Qin Shu, por favor, me ajude, estou apavorada. Posso dormir com você esta noite? — sussurrou, suando frio, sem ousar encarar a entidade.
Qin Shu não tinha intenção alguma de ajudá-la.
Diante do silêncio, Yan Yingxue, com um olhar ardiloso, tomou coragem, agarrou o próprio cobertor e tentou se mudar para a cama de Qin Shu.
— O que pensa que está fazendo?
Qin Shu estendeu a mão, arrancou-lhe o cobertor e o jogou no chão.
— Qin Shu, pelo menos somos colegas, tem coragem de me deixar morrer por culpa dela? — falou mordendo os lábios, as lágrimas bailando nos olhos. — Só quero dormir com você, não tenho outra intenção.
Fan Tiantian, na cama de cima, permaneceu calada, enfiando-se sob o próprio cobertor, claramente também sem querer dividir a cama com Yan Yingxue.
No dia anterior, Yan Yingxue propusera dormir com Yang Yue — e Yang Yue morreu.
— Isso não vai dar certo. “Yang Yue” está esperando você dormir com ela. Afinal, vocês são grandes amigas. Não vou me meter entre vocês — disse Qin Shu, com desprezo.
Lançou um olhar à entidade sorridente. Se não estava enganada, Yang Yue não teria morrido na noite anterior, não fosse Yan Yingxue.
Afinal, por que “Yang Yue” só a seguia, ignorando ela e Fan Tiantian?
Yan Yingxue claramente queria usá-la como bode expiatório.
— Não vou repetir. — Qin Shu fuzilou-a com os olhos.
Yan Yingxue ficou sem alternativa, roendo os lábios, e voltou-se para Fan Tiantian, no beliche de cima.
— Tiantian, posso dormir com você?
Fan Tiantian recusou sem hesitar, balançando a cabeça com vigor.
— Não quero, estou com medo.
Yan Yingxue, furiosa, lançou um olhar de ódio para Qin Shu.
— Me enganei sobre vocês. Achei que éramos amigas, mas nem para isso posso contar com vocês.
Amigas? Amigas que arriscam a vida uma pela outra?
Quem é que quer isso!
[Regra 1: Cada dormitório tem apenas três pessoas. Há ainda uma, escondida na sombra, sempre a vigiar você. Não se assuste... ela não fará mal.]
Os olhos na escuridão agora eram de “Yang Yue”.
Yan Yingxue procurou sua própria ruína; Qin Shu nada podia fazer.
Pelo visto, aquela noite seria tranquila. Não precisaria temer um chamado para o banheiro de madrugada — afinal, a entidade já tinha seu alvo.
Yan Yingxue, tomada de ódio por Qin Shu e Fan Tiantian, acabou indo para o beliche onde dormira com Yang Yue na noite anterior. Não ousava voltar para a cama da noite anterior, achando que assim “Yang Yue” a deixaria em paz.
Subestimou a entidade.
“Yang Yue”, com o mesmo sorriso sinistro, subiu ao beliche, deitou-se ao lado dela, o corpo gelado colado ao seu, fitando-a de lado com olhos vazios.
Yan Yingxue estava apavorada, o corpo tremendo sem controle. Quem não ficaria, tendo ao lado uma entidade dessas, fixando-lhe o olhar aterrador?
Porém, não havia escolha.
No meio da noite, soaram pancadas na porta.
— Tum, tum, tum... tum tum tum! — De longe, aproximando-se, depois se afastando.
Naquela noite, o dormitório estava bem mais silencioso do que na anterior. Parece que, depois da lição do dia anterior, todos aprenderam. Isso só reforçou a certeza de que a regra sete era verdadeira.
Qin Shu, de olhos fechados, organizava mentalmente as pistas dos últimos dias, quando percebeu o que lhe faltava.
Quais seriam as regras para os atendentes do salão?
Talvez… pudesse…
Exausta, Qin Shu adormeceu sem perceber.
Fan Tiantian, também estafada após dois dias de tensão, logo caiu no sono.
Nem o som de mastigação no dormitório, nem os chamados de “Yang Yue” para Yan Yingxue ir ao banheiro a noite toda foram capazes de acordar Qin Shu e Fan Tiantian.