Capítulo 7: Bons amigos devem ir ao banheiro juntos
Qin Shu mantinha os olhos bem fechados.
Aquilo, ao que parecia, ainda não sabia que ela e Yan Yingxue claramente não eram próximas o suficiente para ir ao banheiro juntas.
Yan Yingxue chamou por muito tempo; ao perceber que Qin Shu não reagia de forma alguma, pareceu desistir.
Correu para chamar outras pessoas.
Quando desistiu dela como alvo, Qin Shu suspirou aliviada em silêncio.
Logo, a voz ecoou novamente.
“Yang Yue, Yan Yingxue, quero ir ao banheiro. Vocês podem ir comigo?”
Deitadas na outra cama, Yang Yue e Yan Yingxue ouviram a voz familiar ao ouvido.
Mas desta vez, aquilo parecia ter aprendido algo novo, pois agora imitava Fan Tiantian, que dormia na cama de cima de Qin Shu.
Era impressionante a persistência daquela coisa.
Mas... o que importava a ela se as outras sobreviveriam ou não?
Yang Yue estava apavorada; apertou os olhos com força.
Mas uma lufada de vento gelado soprava em seu ouvido, como se alguém realmente estivesse ali, sussurrando:
“Yang Yue, sei que você não está dormindo. Levanta, por favor? Somos melhores amigas, não somos? Amigas de verdade vão juntas ao banheiro.”
A voz lúgubre tão próxima congelou-a por inteiro.
Ela nem ousava respirar, prendeu o fôlego, só desejando que “Fan Tiantian” fosse embora logo.
De repente, sentiu uma dor aguda na cintura, como se alguém a tivesse apertado forte, e soltou um gemido baixo.
“Ha ha ha, eu sabia que você não estava dormindo. Yang Yue, você é minha melhor amiga...”
Yang Yue ficou lívida. Antes que pudesse reagir, sentiu o corpo ser pressionado por algo, e um rosto apodrecido colou-se ao seu.
O fedor de cadáver era sufocante; uma boca escancarada e ensanguentada mordeu-lhe a cabeça de uma só vez.
O riso estranho ecoava por todo o dormitório. Yang Yue pensou que bastava não abrir os olhos, mas aquele gemido a havia denunciado.
Logo, uma presença sinistra a envolveu, e antes que pudesse sequer gritar, o dormitório foi tomado por sons de mastigação, rangidos e estalos.
O cheiro de sangue se espalhou por todo o ambiente.
Yan Yingxue, que dividia a cama com Yang Yue, ficou completamente imóvel, sentindo de vez em quando pingos de sangue e carne em seu rosto.
Ela cerrava os dentes, olhos fechados, sem emitir um ruído sequer.
O som de mastigação persistiu até a segunda metade da noite.
A claridade foi surgindo lenta, e o despertador tocou pontualmente às oito.
Qin Shu dormira profundamente na primeira metade da noite, mas o barulho a impediu de descansar depois; ao levantar, estava exausta.
Grandes olheiras sob os olhos.
O som da mastigação durante a noite fora insuportável, tornando impossível dormir.
Yan Yingxue desabou em lágrimas: “Yang Yue, Yang Yue ontem à noite...”
Olhando para o lençol encharcado de sangue, ela chorava compulsivamente.
Fan Tiantian, sempre tão quieta no beliche acima de Qin Shu, desceu tremendo, as pernas tão fracas que quase caiu no chão.
Foi Qin Shu quem estendeu a mão e segurou seu braço.
Fan Tiantian olhou para Qin Shu, agradecida.
Qin Shu entrou no banheiro sem expressão, abriu a torneira para lavar o rosto e escovar os dentes, mas a água saiu vermelha, com um forte cheiro de sangue.
Fan Tiantian, atrás dela, gritou de susto.
Talvez o choque da noite anterior tivesse sido demais; ela quase desmaiou de medo.
Qin Shu, impassível, fechou a torneira, contou mentalmente até alguns números e, ao abri-la de novo, a água voltou ao normal. Fez uma higiene rápida.
Preparava-se para sair do dormitório quando ouviu Fan Tiantian choramingar:
“Eu quero ir para casa.”
Qin Shu franziu a testa.
Queria ir para casa?
Só se completassem a missão.
Ou sobrevivessem até o quinto dia.
Qin Shu não lhes deu atenção; precisava limpar o banheiro antes das nove.
Mesmo contando com a ajuda de duas entidades, talvez... conseguisse ir até a cozinha antes das nove.
Qin Shu foi primeiro ao banheiro, pediu auxílio às entidades para a limpeza, pegou uma roupa de ajudante de cozinha e, depois de vestir-se, colocou o despertador no bolso e caminhou tranquilamente até a cozinha.
Talvez por azar, ao entrar, deu de cara com Gu Beichen, que também aproveitava o tempo antes da abertura do restaurante Lua de Sangue para buscar pistas.
Os dois se encararam.
Gu Beichen parecia surpreso, mas logo assumiu um olhar profundo, fixando-se em Qin Shu.
“Qin Shu, qual é o seu nível de talento?”
Achava que, se ela sobrevivera até ali, era graças ao seu dom.
“Ou... qual o seu talento? Diga... talvez possamos cooperar, passar juntos pela provação.” Ele semicerrava os olhos, analisando Qin Shu.
Para ele, Qin Shu era um produto à espera do melhor comprador.
Ela o fitou com frieza.
Lembrou-se do que ouvira de Gu Beichen no dia anterior e agora; não conteve um sorriso irônico por dentro.
Na vida passada, acreditara nas palavras dele, entrou em sua equipe, não obteve vantagem alguma e, no fim, foi usada até não restar nada.
No final, foi jogada para morrer nas mãos das entidades.
“Por que eu deveria confiar em você?” Qin Shu perguntou com um sorriso gelado.
“Você mudou, Qin Shu, não era assim antes.” Gu Beichen franziu o cenho, parecendo resignado: “Eu sei que gosta de mim. Por isso tem ciúmes que ela seja minha noiva; se não fosse ela ocupar seu lugar, você seria minha noiva.”
“Mas também não posso fazer nada, tudo é decisão da família. Quem mandou Zhenzhen ser a favorita dos seus pais desde pequena, tão talentosa, e você... não entende nada.”
Ele apertava ainda mais as sobrancelhas, olhando para Qin Shu com um olhar afetado, como se nem para um cachorro tivesse tanto carinho.
Aquilo enojava profundamente Qin Shu.
Na vida anterior, tão carente de afeto, ela acreditou em suas mentiras, achando que ele era o único diferente.
Foi exatamente essa falsa afeição que a levou ao abismo da morte.
“Nosso clã pode parecer rico, mas... nós, filhos, não podemos desafiar as decisões da família, a não ser que... sua habilidade prove-se útil para eles.”
“Confie em mim, Qin Shu. Eu e Zhenzhen crescemos juntos, sempre a tratei como uma irmãzinha. Como poderia sentir algo a mais por ela?”
Vendo Qin Shu parada, olhando para si, ele — sempre tão autoconfiante — ignorava o desprezo nos olhos dela.
Gu Beichen alegrava-se por dentro, achando que era mesmo uma caipira sem visão; bastava dizer algumas palavras bonitas que ela acreditava.
“Ah, não tenho escolha. Não ouso desafiar minha família, a não ser... que eu tenha poder suficiente. Então... Qin Shu, você pode me ajudar, não pode?”
“Na verdade, você também quer o reconhecimento do tio Qin e da tia, e eu posso ajudar.”
Depois de tanta conversa, Qin Shu continuava imóvel, fitando-o, sua atitude tornando-o cada vez mais inquieto.
Como se a frieza dela não fizesse sentido.
“Diga alguma coisa, Qin Shu.”
Ela revirou os olhos, cheia de desprezo, sem vontade de responder, tomada de repulsa.
Seu plano de buscar pistas na cozinha fora completamente destruído por ele. Vendo que já eram quase nove horas, virou-se e saiu sem olhar para trás.
“Qin Shu, pare!” Gu Beichen mostrou o rosto distorcido, correu atrás, tentando segurar-lhe o braço.
Depois de toda aquela humildade, ela ainda assim o ignorava.
Que direito tinha aquela caipira de tratá-lo assim?