Capítulo 32: Não se pode olhar pela janela do carro por mais de três segundos
A mão de Zheng Peng tremeu por um instante. Ele olhou para Qin Shu e depois para a motorista. É verdade, a motorista era a peça-chave para levá-los até o destino final. Até mesmo o espírito armado com a faca a temia.
Mas então, o que representava aquela sombra escura no ônibus? Apesar do alerta de Qin Shu de que a motorista era fundamental para superarem o desafio, ainda faltava uma informação crucial para completar sua linha de raciocínio.
Qin Shu observou o horário no ônibus: eram nove horas da noite. Ou seja, o tempo continuava avançando.
Regra dezesseis: o ônibus deve chegar ao destino final até as três da manhã.
Se elas chegassem ao destino depois das três, voltariam a entrar no ciclo, ou talvez nem tivessem mais essa chance, tornando-se parte dos horrores daquele ônibus. E então, seriam absorvidas pelo mundo sobrenatural, transformando-se em mais um elemento daquele lugar.
Esse era o pior desfecho possível, e Qin Shu não queria chegar a esse ponto. Talvez aquele fosse mesmo o último ciclo, a última oportunidade. Ela precisava encontrar um meio de impedir que a motorista abandonasse o ônibus.
Precisava garantir que chegassem em segurança à Vila da Felicidade.
Deng Mengyu, que já havia morrido várias vezes, não estava nada satisfeita. Seus olhos permaneciam fixos em Qin Shu e Zheng Peng, enquanto tramava algo em silêncio.
O ônibus logo chegou ao quarto ponto. O idoso e a criança subiram com o gato nos braços. Ao recordar como havia morrido na rodada anterior, o semblante de Deng Mengyu escureceu.
Assim que a porta se fechou, ela imitou Zheng Peng, fechando os olhos.
Qin Shu, por sua vez, agiu com decisão: antes que o menino abrisse a boca, torceu seu pescoço. Sob o olhar sinistro da velha, começou a brincar de chutar cabeças com o menino.
Quando ele estava prestes a chorar, Qin Shu, atenciosa, recolocou sua cabeça no lugar.
Durante todo o tempo, o menino encarou Qin Shu, completamente confuso.
Depois, tomado por um susto enorme, foi sentar-se o mais longe que pôde e não ousou mais pedir para brincar de bola, sentando-se quieto e obediente.
Qin Shu ficou satisfeita com sua reação e ainda lançou um sorriso discreto para a velha.
O olhar gélido da velha lentamente se suavizou, e Qin Shu chegou a perceber ternura em seus olhos. Sim, ternura. Por um breve momento, Qin Shu enxergou na velha o mesmo olhar carinhoso que sua avó lhe lançava. Realmente era coisa de outro mundo.
"Hospital da Lua Sangrenta, próxima parada: Condomínio Doce Lar."
Quando o ônibus parou, Zheng Peng e Deng Mengyu abriram os olhos ao mesmo tempo. Viram o menino sentado calmamente no mesmo lugar onde Zheng Peng estivera na rodada anterior e não conseguiram evitar um suspiro de alívio.
Ou seja, haviam superado o desafio representado pelo menino.
O som que ouviram minutos antes, somado ao olhar que o menino lançava agora para Qin Shu, permitiram a Zheng Peng deduzir que, mais uma vez, fora Qin Shu quem resolvera a situação.
Agora, o olhar que Zheng Peng dirigia a Qin Shu era de profunda estranheza. Tinha certeza de que ela possuía métodos muito além do que deixara transparecer até então.
Entre todos os horrores daquele ônibus, os mais poderosos eram a velha e a motorista.
Novamente, três passageiros subiram: primeiro, um trabalhador rural, encharcado e com o olhar vazio; depois, o espírito armado com uma faca e a mulher grávida e fantasmagórica.
Zheng Peng e Qin Shu falaram ao mesmo tempo, apontando para o homem com a faca, que se preparava para cortar a orelha da mulher:
“Motorista, ele está armado!”
No instante seguinte, o espírito com a faca foi engolido pela caixa de moedas.
A mulher fantasmagórica manteve-se inexpressiva. Qin Shu olhou para o relógio: dez horas da noite. Restavam cinco horas até as três da manhã. Não podiam mais cometer erros, ou estariam perdidas.
Deng Mengyu arregalou os olhos, surpresa. Então… era possível fazer aquilo? Ela lançou um olhar irritado para Qin Shu, convencida de que a outra sabia disso desde o início, mas mesmo assim deixara o espírito cortar sua cabeça. E não conseguia entender como Zheng Peng não percebia que ela era sua aliada.
Com a morte do espírito masculino, a mulher fantasmagórica sentou-se tremendo em um dos bancos.
Qin Shu também percebeu a sombra escura sentada atrás de Deng Mengyu, mas desviou o olhar como se nada fosse.
Zheng Peng estava extremamente nervoso, cerrando os punhos. Ele também sentira algo estranho ao notar o horário no ônibus; suas mãos e pés ficaram gelados.
“Ônibus Circular da Morte número 44.”
Apesar de ser uma tarefa em ciclo, ninguém explicara como funcionava esse ciclo. Se ele se transformasse em um dos horrores, ainda assim poderia tornar-se um NPC do ônibus, interpretando o papel de passageiro, preso no ciclo para sempre.
Por isso, era bem provável que aquela fosse sua última chance.
Quando as portas se fecharam, os três suspiraram aliviados.
Zheng Peng tentou conversar com algum dos horrores próximos, mas não obteve resposta alguma.
Quanto ao menino sentado ali perto, Zheng Peng não teve coragem de se aproximar. Se por acaso o menino se animasse de novo e o convidasse para brincar de bola, o que faria? Depois de tudo o que passara nos ciclos anteriores, ele jamais acreditaria que aquele menino era inofensivo.
Qin Shu permaneceu sentada, recostada no apoio, fingindo dormir.
Deng Mengyu estava completamente alerta. Depois de tantas mortes, não queria morrer outra vez. Antes, sempre morria cedo demais, sem saber o que acontecia depois com Qin Shu e os outros.
Agora, ao perceber que havia retornado ao ciclo, tinha certeza de que os próximos pontos seriam ainda mais perigosos.
"Condomínio Doce Lar, próxima parada: Zoológico da Lua Sangrenta."
Com a porta aberta, a mulher fantasmagórica grávida foi a primeira a descer.
Fim.