Capítulo 0016: Ciclo Infindo
O ritual finalmente foi concluído aos poucos, e tanto o bispo quanto os fiéis tinham se transformado completamente em monstros. Sumo colocou Lafayette diante dos dois cavaleiros esqueléticos e fez com que ele usasse a habilidade de pele grossa, assim Lafayette conseguiu segurar três monstros ao mesmo tempo.
Deve-se agradecer ao fato de Lafayette já estar no nível vinte e cinco, caso contrário, qualquer desses três monstros poderia tê-lo eliminado com um golpe crítico. Sumo rolou para longe, abrindo distância, largou a pistola curta e pegou o arco longo da mochila.
Um disparo concentrado!
O necromante, após concluir o ritual mágico, ergueu a mão e lançou vários efeitos negativos em Lafayette, que o atacava, reduzindo sua força em mais de trinta por cento.
Necromantes são uma espécie de feiticeiro; seu ataque direto não se compara ao de um mago, mas eles são especialistas em lançar penalidades nos oponentes, reduzindo tanto a força deles que acabam esmagando até adversários poderosos.
A defesa de Lafayette não era forte. Após perder trinta por cento de seus atributos, ele foi morto instantaneamente pelo próximo Roubo de Alma de Lindberg.
Roubo de Alma é uma das habilidades características dos feiticeiros: se o feiticeiro eliminar o alvo usando essa habilidade — ou seja, absorver sua alma —, o próximo ataque terá o dano dobrado.
A habilidade de curar o mascote tinha um tempo de recarga de quinze segundos; Sumo não teve chance de curar Lafayette.
Ao mesmo tempo, o Disparo Concentrado de Sumo estava quase pronto. Ele calculava o dano que poderia suportar e, antes que os cavaleiros esqueléticos chegassem até ele e o Lança Óssea Sombria de Lindberg — com dano duplicado — o atingisse, disparou sua flecha.
Não esperou os oito segundos completos de concentração.
No Novo Mundo, a mecânica de cálculo de dano estabelece que, uma vez morto o personagem principal, as habilidades lançadas por ele também se tornam inválidas.
A flecha do Disparo Concentrado voou em altíssima velocidade, atravessando o peito de Lindberg antes que a Lança Óssea Sombria lançada por ele atingisse Sumo.
Sumo estava inseguro; estava preparado para morrer quando a lança o acertou.
Mas não morreu!
A lança se desfez em fragmentos de luz; já que Sumo não morreu, quem morreu foi Lindberg. O alto dano da flecha mudou o rumo da batalha.
Isso definitivamente não era o poder de um chefe de nível quinze!
Na verdade, Sumo ainda não entendia completamente o jogo. O chefe padrão da Vila Rainam era o bispo da igreja, mas o necromante do porão, Lindberg, era um chefe oculto, também chamado de chefe de missão ou chefe único.
Esse tipo de chefe está ligado a uma missão; só ao ativá-la é possível descobrir que existe um porão na igreja.
Depois de matá-lo, não haverá mais missão, e o cenário da igreja de Vila Rainam se tornará uma área comum de respawn de monstros.
Assim que o chefe caiu, antes que Sumo pudesse vasculhar o corpo, algo inesperado aconteceu.
Do cadáver, uma fumaça azulada começou a se erguer, formando uma figura humanoide. Vestia um manto cinza, um chapéu pontudo de feiticeiro na cabeça e empunhava um cajado de ossos brancos. Olhou furioso para Sumo.
— Estranho, por que me impediu?
— Posso ouvir sua história, senhor feiticeiro? — Sumo engoliu em seco, lembrando-se dos rumores sobre chefes do tipo feiticeiro.
Chefes necromantes podem lançar maldições sobre quem os derrota — efeitos variados, durações diversas —, e a única maneira de se livrar da maldição é conversando com o espírito que aparece após a morte.
Era o primeiro necromante que Sumo derrotava, e já se via diante de uma maldição.
Segundo relatos no fórum, quem não deixava o espírito de um chefe necromante “descansar em paz” era amaldiçoado: uns com fraqueza, outros com lentidão, outros ainda com aumento no tempo de recarga das habilidades — tudo por durações que iam de minutos até oito horas, o que era um grande incômodo.
Diante da pergunta de Sumo, o necromante Lindberg começou a contar sua história.
Ele, a esposa e a filha de seis anos viviam em Vila Rainam. Apesar de secretamente estudar magia negra, mantinham a fachada de devotos piedosos. Essa vida tranquila os satisfazia, até que a notícia da visita do Cardeal Augustus, de vestes vermelhas, chegou à vila.
Para receber a ilustre figura da Igreja, o bispo local purgou os hereges da vila. Descobriu o segredo de Lindberg e tentou capturá-lo, mas ele escapou.
O bispo, então, matou a esposa de Lindberg e, na frente de todos os fiéis, queimou viva sua filha de seis anos, Lisa, como aviso a qualquer um que ousasse desafiar o poder sagrado.
— Lisa tinha só seis anos... Como puderam fazer isso com uma criança? — lamentou o necromante, tomado pela tristeza. — Se eu soubesse que isso aconteceria, jamais teria fugido. Preferia morrer para salvá-las...
— Espere, tem certeza de que foi a Igreja que quis purificá-lo? Pelo que sei, hoje em dia eles não mais executam necromantes — Sumo se lembrou brevemente do pano de fundo do jogo.
Quando o jogador entra no jogo, começa a chamada Era do Sangue Mágico. Toda história anterior é contada como “antes”. Segundo a explicação oficial, a luta entre o Conselho Mágico e a Igreja foi constante, com vitórias e derrotas de ambos os lados, até o dia em que o sangue mágico jorrou, muitos seres sofreram mutações por essa contaminação, e raças e monstros ancestrais ressurgiram. Para manter a supremacia humana no continente, o Conselho Mágico e a Igreja fizeram uma trégua.
Apesar de o necromante ainda ser hostilizado, ninguém mais era queimado vivo apenas por ser necromante.
Augustus, incapaz de aceitar isso, fundou uma nova igreja no Império de Bolívia, no extremo Oeste, e não só continuou a caçada aos magos, como também passou a considerar a própria Igreja antiga como herege.
— Isso é impossível! — retrucou Lindberg, incrédulo. — A Igreja nos acusou de profanar cadáveres, disse que devíamos ser purificados pelas chamas!
— Ah, vi umas bandeirinhas na porta da igreja, dizendo que aguardavam a visita do Arcebispo São Zacarias. Quando isso aconteceu? — indagou Sumo.
— São Zacarias... — ao ouvir o nome, Lindberg demonstrou profundo temor. — Ele deve passar por aqui em duas ou três semanas. É um dos arcebispos mais poderosos da Igreja. Cheguei a pensar em viajar para longe nesse período.
— Não será necessário. Há dez anos, São Zacarias morreu em combate nas Montanhas Cors. Foi morto pelo rei dos elfos da madeira, Alfredo, que vive nas profundezas das montanhas. Aposto que nunca ouviu esse nome.
— Por quê? O que aconteceu...? — murmurou o necromante, desorientado.
— Acho que entendi — Sumo fechou as informações que havia pesquisado, cheio de compaixão. — Cerca de trinta anos atrás, quando a Igreja ainda caçava hereges, sua filha foi queimada viva e você, no porão da igreja, preparou um ritual sombrio. Aproveitou o domingo, quando todos estavam reunidos, e transformou toda a vila em mortos-vivos. Desde então, você revive esse dia, repetidas vezes, como uma forma de vingança.
O necromante ficou em silêncio por um instante, depois levantou a cabeça e olhou para Sumo com olhos vazios:
— Eles não mereciam morrer?
O ambiente se encheu de uma tensão perigosa. Uma resposta errada e Sumo seria amaldiçoado.
Claro, esse tipo de maldição também podia trazer bênçãos, se o chefe se sentisse satisfeito com a resposta.
— Eles realmente mereciam morrer. E aqueles fanáticos que assistiram de braços cruzados também não fariam falta. Sua vingança é justa — Sumo fez uma pausa, suspirando com ainda mais compaixão. — Mas já pensou que, ao fazer o bispo e os fiéis pagarem eternamente por seus crimes, sua pequena Lisa também revivia sua dor nesse ciclo sem fim?
— Lisa! — os olhos vazios do necromante se iluminaram, como se tivesse recordado a coisa mais preciosa do mundo.
— Acho que esse é o motivo pelo qual o impedi — Sumo inclinou-se numa reverência, sorrindo. — Digno feiticeiro, está satisfeito com minha resposta?