Capítulo 0009: Bajulando o Monstro
Meses atrás, o pai de Su Mo contraiu um empréstimo com agiotas na esperança de salvar a empresa prestes a falir. O resultado foi que não só perdeu a empresa, como ficou endividado até o pescoço. Durante esses meses, Su Mo passou de jovem rico a alguém sem um tostão. Desde que o dinheiro fosse ganho honestamente, ele se agarrava a qualquer trabalho possível. Segurança, entregador de refeições, entregador de encomendas, salva-vidas em academia… Não parava um instante sequer. Com a abertura de “Novo Mundo”, ele ainda arranjava tempo para ser jogador profissional.
Ultimamente, o negócio no jogo ia bem e ele já tinha reduzido o tempo dedicado aos outros bicos.
— Irmão Rio Congelado, com cinco moedas de ouro não dá para encontrar uma equipe confiável. Que tal assim? Tenho aqui uma proposta especial: alguém precisa de quatro unidades de “Ferro Ensanguentado” e está disposto a pagar cinquenta moedas de ouro ou, quem sabe, uma ajuda de corpo e alma. Você é craque nessas tarefas, não? Até mesmo os materiais que as grandes guildas não conseguem, você já conseguiu para eles — sugeriu Eu Amo Luo.
— Só uma pessoa? Qual a classe? — perguntou Su Mo.
— Bispo, parece ser um dos bons. Se um grupo comum dá conta do chefe, vocês dois juntos resolvem fácil — garantiu Eu Amo Luo.
— Luo, essa tarefa não vale cinquenta moedas de ouro, não é? Será que não dá para aumentar um pouco o meu pagamento? — Su Mo, agora, era mestre em fazer contas.
— Vou perguntar, seu mão-de-vaca — suspirou Eu Amo Luo.
Para jogadores experientes, todos buscavam uma oportunidade de se aproximar. Se Ferro e Rio Congelado não fazia questão de bajular, ainda por cima calculava tudo nos mínimos detalhes. Ninguém sabia se era por amor ao dinheiro ou por não perceber o valor de entrar em círculos de elite.
Logo, Luo voltou com a resposta: cinquenta moedas de ouro, sem tirar nem pôr, e ainda ajudaria a matar monstros, desde que o “Ferro Ensanguentado” fosse entregue em até um dia e meio.
Su Mo nunca tinha ouvido falar desse tal “Ferro Ensanguentado”, nem sabia se era material raro ou apenas minério. Mas não se preocupou; tinha amigos que lhe informariam onde encontrá-lo.
Trocando de conta, sob a perspectiva de Laifu, ele mais uma vez se deparou com os monstros que não faziam nada além de conversar o dia inteiro.
O chefe dos javalis, Sam: — Irmão Tigre, você está exagerando. Nem todos os suínos são tão fracos quanto eu. Não se esqueça dos Homens-Javali, que já tiveram até semideuses na história. E os tigres? Existe algum Homem-Tigre? Só sei de tigre devorando gente!
Rei Tigre Angus: — Falei de javalis, não dos Homens-Javali.
Chefe Sam: — Homens-Javali também são javalis, qual o problema?
Rei Tigre Angus: — Sam, seu porco, tá pedindo uma surra? Vamos pra arena resolver isso.
Esses monstros realmente não tinham nada para fazer, discutindo assuntos assim.
O Lobo Cruel Laifu interveio: — Senhores, cada raça tem seus fortes, todos têm direito de sobreviver, não há motivo para briga. Alguém pode me dizer o que é esse tal de Ferro Ensanguentado?
Rei Tigre Angus: — Nunca ouvi falar. Onde você ouviu isso?
Lobo Cruel Laifu: — Hoje um grupo de jogadores veio me atacar e ouvi eles mencionando, parece ser um tesouro e tanto.
Chefe Sam: — Ferro Ensanguentado? Esse nome me soa familiar… Deixe-me pensar. Certo! @Golem de Pedra Mutante, Boen, você sabe.
Golem de Pedra Mutante, Boen: — Sam, você me marcou por quê?
Chefe Sam: — Veja o histórico da conversa.
Boen: — Laifu, não é? Irmão, você é muito novo. Ninguém te avisou ainda? Jogador não entende nada, não confie neles. O Ferro Ensanguentado é só um minério comum, poluído pelo sangue dos Kobolds Mutantes.
Lobo Cruel Laifu: — Então é isso! Agradeço, Boen. E onde encontro esse minério?
Boen: — Nas montanhas atrás da Colina do Sangue Mágico há seis minas. Na mais ao norte, há muitos kobolds. De vez em quando, aparece um kobold enlouquecido pelo sangue mágico. Eles atacam os próprios companheiros e, ao morrerem, contaminam o minério de ferro dali.
Lobo Cruel Laifu: — Que sabedoria, irmão!
Boen: — Nada demais, nada demais.
Voltando à conta principal, Su Mo entrou em contato com o ID que Eu Amo Luo fornecera: Dez Direções de Luz.
— Sou Ferro e Rio Congelado, indicação do Luo.
— Opa, finalmente me achou! O Luo disse que você tem Ferro Ensanguentado, é verdade? — Dez Direções de Luz foi direto ao ponto.
— Parece que Luo já te explicou. Mas, no momento, não tenho o Ferro Ensanguentado em mãos. Apenas sei onde encontrá-lo. Se não acredita, podemos pegar o minério primeiro e depois você me ajuda com os monstros, que tal?
— Não, não, eu confio. Primeiro ajudo você com os monstros! — respondeu, demonstrando entendimento sobre negócios.
— Então venha ao vilarejo Pulmo, conhece?
— Nunca ouvi. Qual cidade é a mais próxima?
— Vila Harkins.
— Ah, essa eu conheço. Espere alguns minutos, vou me teletransportar para lá.
— Ricaço… — murmurou Su Mo.
O custo do teletransporte era exorbitante. Su Mo não sabia de onde Dez Direções de Luz viria, mas se fosse longe, só o transporte custaria mais de dez moedas de ouro. Ele mesmo preferia gastar umas pratas e ir de montaria voadora.
Pouco depois, um bispo de manto dourado apareceu no vilarejo.
Que ostentação! Aquela “skin” devia ter custado uma fortuna. Não sabia se era realmente habilidoso, mas certamente era um filho de papai.
Em qualquer época, empresas de jogos vivem de lucro. Em “Novo Mundo”, as skins eram uma das fontes mais rentáveis. Jogadores podiam pagar vinte reais por uma roleta cheia de enfeites inúteis.
A skin era uma delas. Não importava o equipamento, com a skin, vinha o visual especial. Su Mo não tinha nenhuma, pois não tinha dinheiro para tentar a sorte. Por isso, ele andava com o equipamento original, todo manchado e simples — dava para saber de longe que era pobretão. Já Dez Direções de Luz, reluzente em dourado, era o típico milionário.
— Ser bonito também é ruim, vivo sendo assediado — reclamou Dez Direções de Luz, finalmente se desvencilhando de um grupo de novatos enquanto arrumava o cabelo tingido de dourado.
Tingir o cabelo também custava dinheiro. Realmente, ostentava luxo dos pés à cabeça.
— O alvo é o Chefe Urso Negro, Dabson. Vamos logo — Su Mo não queria conversa com esse tipo de pessoa. Não admirava jovens ricos que não valorizavam a vida. Ele próprio já fora assim, mas, após anos marcado pela guerra, mudara completamente.
— Fechado! — Dez Direções de Luz invocou um alce dourado como montaria.
Su Mo apenas olhou, sem palavras.
— Irmão, não me diga que não tem montaria?
— São só dez minutos de caminhada. Não faz diferença, vou correndo.
— Isso é muito devagar! Ainda temos outro chefe pela frente. Por sorte, tenho uma montaria extra para você. Pode ficar — disse Dez Direções de Luz, tirando um ovo de mascote da mochila e jogando para Su Mo.