Capítulo 0002: O Tigre de Rosto Sorridente
Trocando de papel, os dois equipamentos azuis que estavam na barraca à sua frente já tinham sido vendidos, rendendo seis moedas de prata. Se fosse no início do jogo, esses dois equipamentos azuis de nível cinco valeriam pelo menos dez vezes mais. Ainda assim, seis moedas de prata não era mau. Agora, uma moeda de ouro valia sessenta reais, então seis de prata davam três reais e sessenta centavos, o suficiente para pagar meia hora de acesso à internet.
O Rei Lobo de Cabeça Chata, também conhecido como o lendário Irmão Reto, e o Chefe dos Javalis, Sam! Na verdade, a escolha entre os dois era fácil. Su Mo não tinha condições de mexer com o Irmão Reto, mas o Chefe dos Javalis, Sam, apesar de ser nível vinte, era um chefe muito popular, então ainda havia oportunidade.
Chefe popular significa que muita gente vai procurá-lo para caçar. Su Mo gastou generosamente uma moeda de prata, passou por vários pontos de voo e finalmente chegou à Planície de Harrington, que ficava muito longe da Vila Hakins, onde ele costumava ficar. Muitos jogadores viviam suas aventuras nessa planície, pois ali havia várias minas muito famosas.
Su Mo não estava com disposição para admirar as paisagens singulares da Planície de Harrington. O jogo "Novo Mundo" sempre gostou de impressionar, e cada detalhe era tão realista que o mapa parecia infinito. Era possível perceber a ambição da empresa de jogos por aí.
Uma pena Su Mo não ter dinheiro, senão poderia comprar uma montaria para se locomover, mesmo que aumentasse só cinco por cento da velocidade de movimento, já seria melhor do que correr com as próprias pernas. O principal é que, com uma montaria, não precisaria gastar a própria energia do personagem.
Depois de correr mais de meia hora, Su Mo finalmente chegou ao território do Chefe dos Javalis, Sam. Nos vilarejos ao redor da Planície de Harrington, os monstros comuns eram geralmente javalis, assim como na vila onde Su Mo nasceu, cujos arredores eram repletos de lobos selvagens.
No local onde o Chefe dos Javalis, Sam, aparecia, já havia um grupo esperando.
"Irmão, estamos aqui há mais de duas horas esperando esse chefe", disse um jogador masculino de aparência mais madura, dando um passo à frente.
"Papai, não precisa conversar com esse cara. Se ele tentar roubar o monstro, a gente mata ele. Já estou no nível vinte e seis, acabei de aprender uma habilidade nova, quero testar em alguém", exclamou animado um pequeno mago parecido com um menino.
"Song Zhibo, cale a boca, não arrume confusão", repreendeu uma sacerdotisa do grupo, que parecia ter bom senso.
Andar sozinho e ter coragem de enfrentar o Chefe dos Javalis, Sam, significava que o sujeito não era fraco. Além disso, os caçadores, seja domador, arqueiro ou patrulheiro, eram classes muito adequadas para duelos. Caçadores de alto nível, especialmente os que dominavam a técnica do "kite", podiam facilmente brincar com aquele grupo.
"Já falei para não me chamar pelo nome verdadeiro, me chame de Imperador Celestial", reclamou o menino, insatisfeito.
"Desculpe, meu jovem, veja bem...", o chefe da família, já de cabeça quente, massageou as têmporas e dirigiu um sorriso constrangido a Su Mo.
"Não se preocupe, na verdade estou interessado só em um material. Vocês são quatro, o grupo deve ter espaço para mais um, não é? Me chamem, ajudo vocês a derrotar o chefe, e se o material que eu quero cair, só pego isso", respondeu Su Mo, acostumado a esse tipo de situação. Jogar em família era algo muito comum em "Novo Mundo".
"Assim... está bem, combinado", decidiu imediatamente o chefe da família.
"Nem perguntou que material é, e se for algo muito valioso?", resmungou o Imperador Celestial, descontente com a decisão do pai, já planejando se aventurar sozinho no futuro.
Conversaram um pouco e o Chefe dos Javalis, Sam, apareceu. Seu tempo de reaparecimento era de seis horas, e logo que surgia, era derrotado em poucos minutos. O destino dele era mesmo ingrato, só uma mera formalidade.
Por alguma razão, Su Mo estava convencido de que esse chefe deixaria cair um pelo de lobo roxo. Aquela estranha existência do canal de chat dos monstros lhe dava enorme confiança.
O grupo de cinco conseguiu derrotá-lo rapidamente, em poucos minutos. Enquanto lutavam, Su Mo percebeu, atento, que ao longe se aproximava outro grupo, um time completo de cinco jogadores: um bárbaro, um feiticeiro, um assassino, um bispo e um arqueiro. Pareciam hostis.
Em "Novo Mundo" há muitas classes; as principais são guerreiro, mago, sacerdote e caçador. Após a primeira evolução, o guerreiro pode tornar-se bárbaro, defensor ou assassino; o mago pode virar mago, feiticeiro (necromante) ou titereiro; o sacerdote pode virar bispo, xamã ou sacerdote; e os caçadores, como Su Mo, podem virar atirador, patrulheiro ou domador.
Existem ainda outras classes que não se encaixam nesses quatro grupos principais, como ferreiro, alquimista, mecânico, entre outros.
"E agora?", perguntou o adolescente Imperador Celestial, imediatamente assustado.
O pai também ficou hesitante. Embora todos na família tivessem bons equipamentos e níveis, não eram muito de briga e preferiam evitar confusão.
"Amigo, que tal fazermos um acordo? Dez moedas de prata e vocês fingem que não viram esse chefe", Su Mo foi ao encontro do grupo.
"Dez moedas de prata? Seis reais para nos dispensar? Acha que somos mendigos?", zombou o bispo, aparentemente o líder, rindo da proposta de Su Mo.
"Ok, posso aumentar, diga quanto quer", Su Mo respondeu rapidamente, ao mesmo tempo em que digitava algo no chat do grupo.
"Olha só, hoje encontramos alguém com dinheiro. Então... mas espera aí, você está me atacando?", o bispo, ao ouvir falar em aumentar o valor, desistiu de tomar o chefe à força, já que o Chefe dos Javalis raramente dropava algo bom, no máximo um equipamento azul de nível vinte, que valeria umas vinte moedas de prata.
No entanto, para surpresa dele, o patrulheiro que havia proposto pagar mais, aproveitou a distração e disparou uma flecha contra ele.
Esse foi o sinal: logo após a flecha, vários ataques acertaram o bispo. Apesar de usar armadura de malha e ser o mais resistente entre os curandeiros, não aguentou a sequência de ataques, especialmente aquela flecha do patrulheiro, que era a habilidade "Golpe Carregado". Essa habilidade tinha oito segundos de preparo e, quanto mais tempo carregava, mais forte o ataque.
"Derrotem o bispo e depois o assassino!"
Como todos ainda estavam em níveis baixos e tinham poucas habilidades, o assassino era o mais frágil. Sem um curandeiro por perto, era ainda mais fácil matá-lo do que o bispo.
Depois que dois deles morreram, os outros perceberam o que estava acontecendo. Os três restantes lutaram com todas as forças, mas não conseguiram reverter a situação. Só o bárbaro, com muita vida e defesa, conseguiu fugir assim que percebeu que a batalha estava perdida.
"Não precisa perseguir, vamos logo derrotar o chefe. Ele não é um assassino, não temos com o que nos preocupar", disse Su Mo sorridente. Se não fosse testemunhado, ninguém acreditaria que aquele sujeito sorridente havia acabado de eliminar quatro jogadores com tamanha frieza.
"Certo... certo...", murmurou o jovem Imperador Celestial, engolindo em seco, admirando profundamente Su Mo, agora com um toque de veneração.
"Rapaz, você é mesmo de tirar o chapéu. Quando cair o material, pegue logo", disse o pai, ainda assustado com Su Mo.
Na verdade, aquele grupo não queria tomar o chefe à força, só queria extorquir um pouco de dinheiro. Jogadores assim eram comuns na Planície de Harrington, agindo como gafanhotos, explorando os outros. O território do Chefe dos Javalis era menos frequentado, por isso acabava sendo alvo de extorsão.
A habilidade de oito segundos de preparo mostrava que Su Mo já tinha decidido atacar desde o início, mesmo enquanto dizia que podia pagar mais. Tudo não passava de uma estratégia para enganar o adversário.
"Fiquem tranquilos, só quero o material", Su Mo acenou com a cabeça, sempre sorridente.
Na verdade, ele não sorria de verdade; era que seus lábios naturalmente se curvavam para cima, dando essa impressão. Lembrava-se de uma vez, quando era pequeno, em que apanhou do pai. Quanto mais apanhava, mais o pai se irritava, achando que estava sendo desrespeitado. Afinal, que filho apanha sorrindo? Era quase um desafio à autoridade paterna.