Capítulo 0007 Irmãos de Vida e Morte
— Senhorita, estamos no trigésimo quarto andar. Você viu filmes demais — por que acabou sendo eu a escoltar a estrela? Podia ter sido qualquer outro, não é?
— Ai, ai... Quase fui assassinada... — quanto mais pensava, mais assustada ficava.
— Ele não queria matar você. No máximo, iria cortar seu rosto... — Essa explicação não acalmou a atriz, que chorou ainda mais. Para ela, marcar o rosto era pior que morrer.
— Será que pode parar de chorar? Olhos inchados não vão ficar bonitos.
— Você matou alguém, não foi? — de repente, a atriz se lembrou e interrompeu o choro.
— Ele não morreu. Aquilo foi na área do seio carotídeo, só fez ele desmaiar. Não sou assassino. Somos treinados profissionalmente, priorizamos a proteção — Su Mo não se importou em conversar.
Contanto que não chorasse!
— Dizem que vocês são ex-militares, é verdade? — como o assunto mudou, a atriz parou de chorar.
— Servi alguns anos — respondeu Su Mo.
— Mas você parece tão jovem, quantos anos esteve no exército?
— Cinco anos. Fui para o serviço militar no primeiro ano da faculdade, fiquei três anos, depois fui convocado mais dois. Sai do exército ano passado.
— Cinco anos? Então, quantos anos você tem?
— Vinte e quatro. Ainda estou estudando, estou no terceiro ano universitário.
— Não faz sentido. Como está no terceiro ano se ficou cinco anos no exército?
— Pulei de série. A universidade permite que eu me forme se cumprir os créditos.
— Estou no quarto ano. Então deveria me chamar de veterana.
— Se eu tivesse estudado normalmente, já teria me formado. “Veterana” não é para mim.
— Então, você é um soldado de elite?
— Não são tão incríveis quanto você pensa. Nosso país tem dezenas de milhares de soldados de elite.
— Já matou alguém?
— Matar? Nunca!
— Você está mentindo. Liu disse que quando um homem repete a pergunta antes de responder, há oitenta por cento de chance de estar mentindo.
— Quem é Liu?
— Minha empresária. Foi ela quem contratou vocês para me proteger.
— Ela tem bom olho.
— Falando nisso, você mencionou um jogo. Qual jogo?
— Novo Mundo.
— É divertido?
— Muito.
— Quando eu tiver tempo, vou jogar. Você vai me ajudar a subir de nível.
— Falamos disso depois. Estão chegando. Entre, em cerca de trinta segundos sua empresária vai aparecer.
— Está bem... Obrigada, você salvou minha vida... Quer dizer, salvou meu rosto.
— É meu dever.
Logo vieram os membros da equipe da atriz, encarregando-se de acalmar seus ânimos. Su Mo estava finalmente livre.
— Ainda tínhamos um show para proteger, mas pode ser cancelado ou adiado. Nosso trabalho terminou mais cedo, o pagamento já caiu na minha conta, depois repasso para vocês. E, como Su Mo está aqui hoje, vamos comer juntos, por minha conta! — disse Tian Da Zhuang.
— Entendido, chefe! — ao saber que era por conta dele, todos ficaram animados.
Não foram a nenhum lugar sofisticado, apenas algo melhor que uma barraca de rua. Ninguém tinha muito dinheiro, não havia motivo para ostentar.
Eram quatro pessoas, pediram três pratos, algumas garrafas de aguardente branca e duas caixas de cerveja. O dono, generoso, serviu tudo em travessas bem cheias e os acomodou numa das poucas salas reservadas, tranquila, onde não incomodariam ninguém.
— Vamos cantar uma música primeiro — sugeriu Yun Fei, após alguns goles. Cantaram canções militares, como faziam antigamente. Agora, só nessas ocasiões.
Uma vez, enquanto comiam e cantavam, o dono ouviu e veio juntar-se a eles. O chefe o convidou para beber, cantando e bebendo juntos.
Descobriram conversando que ele também foi militar, mas do batalhão de cozinha. Depois de deixar o serviço, abriu aquele restaurante e vivia melhor que os amigos de Su Mo.
Ali, podiam comer à vontade, e ninguém se fazia de rogado.
— E aí, como está indo com o jogo? Está ganhando dinheiro? — perguntou Tian Da Zhuang a Su Mo.
— Ganhei um pouco, é fácil, estou começando, mais para frente deve melhorar — Su Mo assentiu, contando sobre os trabalhos (sem mencionar seu grupo de monstros) e atribuindo as oportunidades a alguns amigos.
— O importante é ganhar. Mas vá com calma, não faça nada ilegal — advertiu Tian Da Zhuang.
— Eu sei, chefe, pode ficar tranquilo — Su Mo assentiu. Depois de cinco anos no exército, tinha consciência suficiente.
— Não faça como Lao Mao...
— Nosso segundo irmão está quase saindo, já faz três anos — Su Mo levantou-se e serviu bebida aos amigos.
— Pois é, três anos... Dia cinco do mês que vem, vamos juntos buscá-lo — Tian Da Zhuang esvaziou o copo e, hesitante, acrescentou: — A família dele usou seu dinheiro, não vai conseguir devolver logo. Vamos assumir a dívida por ele.
Três anos atrás, Li Xianmao, apelidado de Lao Mao, voltou do serviço militar e encontrou sua casa atingida por demolição forçada. Durante o processo, a construção desabou, destruindo a casa. Seu pai morreu, a mãe ficou semiparalisada.
Furioso, Li Xianmao reagiu violentamente, ferindo muitos. Contra o principal responsável, foi mais duro — e acabou matando-o.
Era crime que deveria levar à pena de morte, mas o grupo de elite a que pertencia mobilizou-se. Com a ajuda de um antigo superior, escapou da morte, mas não da prisão: foi condenado a três anos. Os amigos que haviam saído do exército junto com ele foram novamente convocados.
Li Xianmao estava na prisão há três anos.
— O que será que ele vai querer fazer quando sair? Podíamos trazê-lo para o Da Feng — Yun Fei, já um pouco embriagado, sugeriu.
— Da última vez que o visitamos, disse que queria tentar ser mercenário no exterior. Nosso dinheiro não é suficiente para ele — Tian Da Zhuang falou com certa amargura. — A família de Su Mo teve problemas, ele quer devolver logo o dinheiro. Mas dinheiro sem sinceridade não vale nada.
Homens que enfrentaram tempestades e tiroteios, agora se viam sufocados pela economia.
A mãe de Li Xianmao, semiparalisada, precisava de tratamento caro; além disso, o próprio Li Xianmao teria que pagar indenização pelas vítimas.
Na época, Su Mo ainda não estava falido e forneceu o dinheiro, centenas de milhares. Trabalhando com segurança, em dez anos dificilmente ganhariam tanto.
— Ser mercenário é perigoso e sombrio. No passado, arriscar a vida era o destino, mas como mercenário não há moral, nem limites. Nosso segundo irmão é muito impulsivo e tem valores fortes — comentou Luo Xia, sempre direto e perspicaz, o cérebro do grupo na unidade de elite.
— O mercado está cada vez pior, só aparecem pequenos trabalhos, cada um rendendo poucos milhares. Tirando gastos com transporte e uniforme, o lucro é limitado — lamentou Tian Da Zhuang.
Com a tecnologia virtual avançando, as pessoas ficavam cada vez mais reclusas. Filmes e shows podiam ser feitos em ambientes virtuais, sem sair de casa, dispensando seguranças. Para transportar antiguidades e joias, ainda competiam com empresas de logística. Os funcionários da Da Feng Segurança passavam a maior parte do tempo ociosos.
— Chefe, vocês podiam jogar também. Com a tecnologia virtual crescendo, “Novo Mundo” está em alta, foi muito bem desenvolvido, deve continuar popular por pelo menos mais dez anos — Su Mo, pensando em alternativas, acabou sugerindo seu próprio jogo.