Capítulo 0011: Missão Oculta
Ao retornar à aldeia de Pulmo, Su Mo levou a pata de urso para encontrar Claude.
— Você realmente não me decepcionou, herói. Resolvestes um grande problema para Claude. Devo recompensar-te generosamente. Podes escolher apreciar comigo esta suculenta pata de urso, ou selecionar alguma outra recompensa menos útil.
— Obrigado, acabei de comer pão e não consigo ingerir mais nada.
— Sendo assim, só te restam as recompensas menos úteis — lamentou Claude, atirando algo para Su Mo.
Canhão de mão do Caçador de Ursos (Prata): Dano 41-63, Agilidade +10, Força +4, Efeito especial: causa 10% de dano extra a alvos num raio de até cinco jardas. Nível necessário: 25, Durabilidade: 22/42.
Sem hesitar, Su Mo trocou a espada curta azul que portava por aquela pistola curta.
A profissão de caçador em “Novo Mundo” era considerada a que possuía o arsenal mais complexo: arcos, bestas, armas de fogo, espadas de uma mão, adagas, armas de haste — tudo era permitido.
No geral, utilizava-se arcos, bestas e mosquetes de cano longo para ataques à distância; para o combate próximo, bestas de mão, pistolas curtas, espadas de uma mão ou adagas, como fazia Su Mo, que carregava consigo um arco, uma besta e uma espada de uma mão.
Quanto à hierarquia, os equipamentos em Novo Mundo eram classificados do mais simples, o branco, passando pelo verde e azul, até prata, ouro, ouro negro, lendário, mítico e, segundo o site oficial, até mesmo itens semi-divinos ou divinos, cuja definição ainda era vaga.
O equipamento branco geralmente era considerado lixo, o verde e o azul eram de baixo nível, enquanto prata e ouro eram, na presente fase do jogo, o topo.
Quanto ao ouro negro, até hoje não havia registro de algum ter aparecido no jogo.
A pistola curta de Su Mo tinha alcance de apenas vinte e oito jardas, abaixo da média de trinta e seis das outras classes, e inferior ao alcance do arco longo e do mosquete, que podiam chegar a quarenta e uma jardas.
Contudo, seus atributos eram elevados, com um efeito especial raro: o maior desconforto do caçador era ser encurralado por outra classe, dentro do raio de cinco jardas — momento em que arcos, bestas e mosquetes perdiam utilidade, restando apenas armas de combate próximo, como pistolas curtas e bestas de mão.
Aquela arma ampliava o dano em até cinco jardas, o que agradou em cheio a Su Mo.
— Deixa eu ver, deixa eu ver — pediu Shifang Mingliang, já se intrometendo.
— É uma arma de prata — Su Mo não se fez de rogado e exibiu as características no canal do grupo.
— Nada mal, prata! Missão oculta vale tanto assim? — comentou com inveja Shifang Mingliang, que, embora tivesse mais de um equipamento prata, só conseguira coisa melhor em uma recompensa de missão principal.
O maior atrativo das missões ocultas, além dos equipamentos, era a experiência. Mesmo uma missão de baixo nível fez a barra de experiência de Su Mo subir consideravelmente, equivalente a meio dia de caçada de monstros.
— Por isso as chamam de missões ocultas — comentou Su Mo, manuseando habilmente a arma.
Nada como armas de fogo. Ainda que fossem de tecnologia antiquada, relíquias dignas apenas de colecionadores no mundo real.
— Quais as condições para ativar a missão? — perguntou Shifang Mingliang.
— Vendi algumas flores de dicária para ele e então recebi a missão. Pelo menos foi assim comigo. Não sei se ainda funciona — explicou Su Mo, sem esconder nada, já que acabara de receber um excelente montaria do amigo.
— Tens algumas flores de dicária? Dá-me umas.
— Dez bastam. Usei dez para ativar — disse Su Mo, que comprara um lote de vinte no mercado, usara dez e deu o restante a Shifang Mingliang.
Shifang Mingliang entregou as dez flores de dicária a Claude, que as recebeu enquanto cozinhava, recompensando-o com oito moedas de cobre. E só.
— As flores de dicária servem de tempero para a receita de pata de urso. Provavelmente, o pedido só aparece quando ele quiser comer a iguaria de novo — conjecturou Su Mo, aliviado por ter perdido apenas dez flores.
Shifang Mingliang ficou um pouco frustrado, mas era do tipo que mudava de humor rapidamente, logo se animando outra vez.
— Qual o próximo monstro? Vamos caçar o quê?
— Vamos atrás do líder dos elfos da madeira, Ackman, na Floresta do Eterno Olhar. É um mini-chefe de nível vinte e cinco. Achas que damos conta?
— Elfo da madeira? Tem vampirismo, não? — Shifang Mingliang demonstrou conhecer bem as características do inimigo, mostrando que também fazia seu dever de casa.
Um jogador de alto nível pesquisava tudo, analisava os monstros, evitando cair duas vezes na mesma armadilha.
— Isso mesmo. Precisaremos de um combatente de curta distância para suportar o vampirismo, enquanto eu ataco à distância — explicou Su Mo.
— Vamos, eu seguro a linha de frente — garantiu Shifang Mingliang, confiante.
O bispo podia atuar tanto à distância quanto em combate próximo, curando a si próprio e contando com um escudo sagrado tão eficiente quanto o escudo mágico dos magos. Contra chefes, ora cabia ao guerreiro, ora ao bispo segurar o monstro, às vezes até o feiticeiro podia enfrentar criaturas mágicas à distância.
Percorreram várias regiões até chegarem à Floresta do Eterno Olhar.
Dizia-se que aquela floresta era uma das fontes do sangue demoníaco do continente de Gaia, infestada por plantas e animais corrompidos, em especial o povo dos elfos da madeira, seres inteligentes frutos de mutações vegetais.
Se dependesse de Su Mo, ele teria alugado uma montaria voadora em Harkins, cruzado todo o planalto de Harrington, seguindo o curso do rio Latimore rumo ao leste, até alcançar a fronteira da Floresta do Eterno Olhar.
Felizmente, tratava-se de um jogo e a viagem não levaria mais de uma hora e meia.
Shifang Mingliang, porém, não suportava perder tempo com viagens aéreas tediosas — sem paisagens dignas, enfrentando o vento frio e ainda correndo risco de ataque dos urubus de bico vermelho do planalto de Harrington.
Por isso, ele não apenas pagou os dezessete ouros do próprio teleporte, mas também cobriu o de Su Mo.
Saltando por algumas cidades, chegaram à vila do Eterno Olhar em apenas quatro minutos, o que fez Su Mo decidir que precisava enriquecer.
Investimento traz retorno!
Economizando uma hora e meia, Su Mo, com seu grupo de monstros de conversa, poderia realizar inúmeras outras tarefas.
— Tenho um amigo aqui na vila do Eterno Olhar. Vou chamá-lo para nos ajudar. Com três, matamos o chefe mais rápido. Ele está à toa, bebendo na taverna em pleno dia — disse Shifang Mingliang, consultando sua lista de amigos e localizando mão de obra barata por perto.
— Não tenho dinheiro para pagar.
— Relaxa, esse meu amigo não tem problema com isso!
Esperaram um pouco na entrada da vila até que o companheiro chegou.
— Este é meu amigo Su Mo, caçador — apresentou Shifang Mingliang, e logo depois apresentou o recém-chegado: — Este é outro amigo meu, Fumaça e Versos, feiticeiro.
— Ora, teus amigos são mesmo muitos — comentou Fumaça e Versos, cambaleando alguns passos antes de sacudir a cabeça e recuperar totalmente a lucidez.
Não era nenhuma habilidade especial — no jogo, os jogadores podiam simular o efeito de embriaguez, mas nunca ficavam inconscientes, bastando tomar uma pílula de sobriedade quando necessário.
Aliás, cada pílula dessas custava cinco moedas de ouro.