Capítulo 0056 Arroz Frito com Ovos
“Faça a transferência, vou entregar as coisas primeiro para o velho Lourenço...”
“Não precisa de tanta complicação, me envie só o número da conta, resolvo isso em minutos, pra quê dificultar?” disse Armando, acenando com a mão de maneira generosa, mostrando total confiança em Samuel.
Já que o outro confiava nele, Samuel não fez cerimônias.
Em questão de minutos o dinheiro já estava na conta, e assim que entrou, Samuel transferiu os itens combinados.
“Veja só, não tem como negar, você é mesmo o melhor caçador de recompensas, hahaha.” Ao ver com os próprios olhos dez Corações de Laranja brilhando em sua mochila, Armando ainda sentia como se não fosse real.
Eles tinham tentado de tudo para caçar os Elfos de Madeira, mas além de não conseguir quase nada, ainda saíram no prejuízo, perdendo mais experiência do que ganhando.
“Não me elogie tanto, que melhor caçador de recompensas o quê, isso é coisa do velho Lourenço exagerando.” Samuel ficou sem jeito com os elogios; Gaara já tinha dito que era o “melhor caçador de recompensas que conheceu”, e agora o professor Armando nem usava mais adjetivos antes do título.
“Bem... temos uma missão, dessas que pegamos assim que o jogo começou, mas nunca conseguimos avançar. Será que você pode nos ajudar?”
Pois é, não existe almoço grátis, nem elogios sem motivo.
“E que tipo de missão seria essa?” Samuel ficou curioso.
“Vou deixar alguém te explicar direito, essa missão é um mistério antigo do nosso clã.” Armando falou um pouco constrangido, pois tinha chamado Samuel para ajudar sem consultar quem era responsável pela missão.
“Como se chama a guilda de vocês?” perguntou Samuel.
“Ragnarök.”
Ragnarök e o Templo dos Deuses, realmente são rivais até no nome.
Depois de alguns contatos, Armando falou, um tanto envergonhado: “A missão não dá mais pra fazer, já expirou, então não precisa se incomodar, irmão do Gelo.”
“Sem problemas, se precisarem de algo no futuro, é só chamar.” Samuel, na verdade, ficou aliviado.
Mesmo contando com o grupo de monstros no chat, não dava para resolver tudo. Muitas vezes ele mal sabia por onde começar e, se não conseguisse ajudar, acabaria manchando sua reputação de melhor caçador de recompensas.
“Com certeza! Amanhã vai ter mais Coração de Laranja?”
“Vamos ver na hora,” respondeu Samuel, rindo; não podia garantir, senão acabaria se comprometendo demais.
“Tudo bem, se conseguir mais, me avise direto.”
“Aliás, onde vocês pegaram essa missão que não conseguiram completar?” perguntou Samuel.
“Você ficou interessado, né? Beleza, vou perguntar e te mando as informações depois.” Armando não deu muita importância, afinal, no clã tanta gente já tinha tentado e ninguém conseguiu, não era só uma questão de dificuldade, provavelmente era uma missão bugada.
“Obrigado, então.”
Samuel teve uma ideia: reunir essas missões inacabáveis e estudar se eram realmente missões quebradas ou só mal resolvidas pelos jogadores.
Com a ajuda dos monstros, dava para tentar simular o caminho contrário de algumas missões.
Infelizmente, o poder dos jogadores era enorme e a maioria dos objetivos já tinha sido testada de todas as formas possíveis. Se ainda assim ninguém conseguiu, é porque a maior parte dessas missões realmente estava quebrada.
Ou talvez só pudessem ser resolvidas quando saísse uma nova expansão.
No momento, a versão ativa era “Lua do Sangue Demoníaco”, com o enredo focado na disseminação do sangue demoníaco pelo Leste, causando mutações em animais e até em humanos. Ninguém sabia quando viria a próxima atualização.
Depois de se separar, Samuel foi caçar piratas, como combinava sempre com o pequeno ferreiro. Era compromisso diário.
Os piratas rendiam uma boa experiência e ainda ajudavam a treinar a forma lupina, mas ele evitava lutar só como lobo, já que sua forma humana era o principal foco de batalha.
Enquanto enfrentava monstros, analisava alguns dados.
Logo recebeu as informações da missão de Armando e, ao perguntar indiretamente para os monstros usando o ponto de vista de Winchester, não obteve nenhuma pista. Parecia mesmo uma missão quebrada.
Esse tipo de missão era bastante discutido nos fóruns.
Era exatamente o que Samuel agora procurava: ignorava fofocas e dicas banais, focando nessas missões supostamente impossíveis.
E não é que encontrou uma que talvez pudesse desvendar?
O principal fator era uma palavra-chave — Barão Barry.
Barão era um título menor, o grau mais baixo da nobreza: depois do rei vinham duques, marqueses, condes, viscondes e barões. Qualquer um que virasse feiticeiro ou sacerdote ganhava esse título automaticamente; bastava subir um pouco de nível, fazer algum feito, e logo passava a barão.
No Leste havia incontáveis barões; alguns ainda tinham certo status, outros estavam mais pobres que plebeus.
Barão Barry não era um desses caídos, pois seu território fazia parte da Liga Livre da Ilha Long.
Se fosse em Norsa ou Coroa, reinos conduzidos por reis, igrejas e concílios mágicos, os nobres tinham que se curvar humildemente. Já na Liga Livre não havia rei, só presidente do conselho.
E mesmo esse presidente não mandava tanto assim, pois o poder estava espalhado entre os nobres de todos os níveis.
Um barão na Ilha Long tinha mais destaque que muitos condes ou marqueses em Coroa.
Tendo terminado a missão dos piratas, Samuel sentiu a fome apertar, então logo saiu do jogo para comer.
Lembrou-se do tempo em que todas as suas refeições eram em restaurantes sofisticados, ou quando chamava chefs conhecidos para cozinhar em casa. Agora, só restava sentar num banquinho de plástico de cinco reais na calçada, comendo arroz frito com ovo.
Mas, como os negócios iam bem ultimamente, Samuel pôde se dar ao luxo de pedir dois ovos.
“Chefe, me traz dois dentes de alho.”
A voz familiar chamou sua atenção na hora, e ele quase largou o prato para correr até lá, tamanho o entusiasmo involuntário. Só conseguiu se segurar a tempo, evitando agir por reflexo.
“Ué, Samuel, você também comendo arroz com ovo, hein? Ficou sem grana, né? Só pode comer isso agora, sua namorada não te banca mais, acabou a moleza, olha ali do outro lado, no restaurante chinês, hoje tem prato especial de carne agridoce…”
Feng Jiafeng apareceu segurando um prato de arroz com ovo numa mão e, na outra, um banquinho de plástico, sentando-se ao lado de Samuel.
“Limpa essa baba aí, você também está comendo arroz com ovo. Aposto que sua família parou de te dar mesada, não é?” Samuel tentou de toda forma provocá-lo.
Aquele sujeito era insuportável; só não o espancava ali mesmo porque ambos seguravam um prato de comida, o que tornava impossível brigar.
“Eu, Feng Jiafeng, não dependo da família. Prefiro passar fome a pegar um centavo deles.”
“Olha só, que determinação, hein? Aposto que vai acabar cobrando taxa de proteção de novo.” Samuel olhou para ele com desdém.
“Não... não vou cobrar taxa de proteção. Decidi que vou conquistar meu lugar no jogo, não só vou me sustentar, como vou virar um grande chefe!”
“Pfff, cof cof cof…” O homem de meia-idade sentado ao lado deles ficou tão surpreso com aquela fala adolescente que engasgou, tossiu e até saiu arroz pelo nariz, assustando os dois rapazes, que logo protegeram seus pratos.
“Mas sua família não tinha te perdoado? Por que pararam de dar mesada de novo?” Samuel não ia admitir que estava preocupado, mas temia que o amigo voltasse a se meter com gangues e extorsão.