Capítulo 0071: A habilidade de interrupção de Laifu
O Açougueiro Sete passou metade do dia tentando e finalmente conseguiu uma vaga para escoltar a mercadoria.
Ele, sua namorada, o inseparável amigo Gozikai e mais dois desconhecidos embarcaram juntos nessa missão de escolta.
— Vocês já notaram como parecemos aqueles que buscavam as escrituras? O monge, o macaco, o porco, o monge de areia e o cavalo branco, justamente atravessando a Montanha dos Leões. Eu seria o monge, mocinha, você seria o cavalo branco... — Gozikai falava risonho.
Entre os desconhecidos havia uma moça, e ele aproveitava para puxar conversa.
— Kai, será que pode agir direito um pouco? Cuidado para não sermos surpreendidos pelos monstros — resmungou Açougueiro Sete, irritado. Com a namorada ao lado, não podia flertar.
— Relaxa, são só uns monstros comuns. Quando o Leão Amarelo aparecer, aí sim ajustamos a formação — Gozikai continuava sorrindo, paquerando: — Tem namorado? Se não tiver, se incomoda de ter? Se já tiver, se incomoda de trocar? Ou, se não quiser trocar, de ter mais um?
— Ah!
Um grito cortou o ar e, de repente, a moça até então envergonhada foi despedaçada por dois monstros saltando do mato.
Gozikai, que estava todo animado, foi pego totalmente de surpresa e quase travou. Olhou bem: um dos monstros era justamente o Leão Amarelo Sarnento, o outro era um lobo comum, igual a tantos outros de pelo cinzento espalhados por aí.
Os dois monstros atacaram praticamente juntos, um de cada lado usando habilidades. A curadora, de armadura leve, não tinha defesa nem vida suficiente. Nem teve tempo de se curar antes de cair. Morreu ainda com um sorriso tímido no rosto.
Por que o Leão Amarelo apareceu antes do previsto e ainda trouxe um lobo tão selvagem?
— Rápido, matem a outra moça! — gritou Laifu.
— O que é moça? — perguntou o Leão Amarelo, confuso.
— Fêmea! — respondeu Laifu, já investindo contra a maga do grupo, acertando-lhe uma patada no peito e arrancando-lhe boa parte da vida, com o Leão logo atrás.
Em termos de ataque e defesa, Laifu não se comparava ao leão; o outro era um chefe, ele só um monstro de elite, talvez nem conseguisse vencer um jogador sozinho — afinal, era mascote de Su Mo. Se fosse mais forte que um jogador, a classe dos caçadores seria poderosa demais.
Mas Laifu tinha suas vantagens: podia tomar poções escondido e ignorava provocações.
Quando o guerreiro gritava insultos, Laifu respondia tranquilamente: "Olá, vovô".
Mesmo sem a curadora, ainda era possível lutar. Restavam quatro; se o guerreiro conseguisse manter o monstro preso, todos poderiam tomar mais poções e resistir, sacrificando o guerreiro para permitir a fuga dos demais.
O problema era que, enquanto o leão aceitava a provocação, o lobo ignorou e, com algumas patadas, matou facilmente a maga que já estava quase sem vida.
Sem curadora e sem a maior fonte de dano, os três restantes ficaram tensos.
Dessa vez, Laifu não atacou os que causavam dano, mas cooperou com o leão para matar o guerreiro, que agora não tinha mais ninguém para curá-lo. Como monstro de elite, matar um jogador sozinho era difícil; melhor liberar o chefe para que ele mesmo fizesse a matança.
Laifu atacou o guerreiro e os outros dois se sentiram aliviados. Com o guerreiro segurando o monstro, podiam atacar à vontade. Se o lobo continuasse ignorando o aggro, só restaria fugir.
Talvez o guerreiro não estivesse segurando o monstro direito, já que ele continuou focando a maga.
A barra de vida do guerreiro era longa e sua defesa alta, não seria fácil matá-lo. Quanto aos outros dois, a maioria de seus ataques acertava o leão, pois o lobo se movia tão bem que mal era atingido.
Mesmo assim, toda barra de vida chega ao fim. O guerreiro calculou o tempo de recarga da poção, sacou uma e tentou tomar.
"Monstros bobos, eu posso tomar poção! Jogadores são os escolhidos, monstros só existem para serem mortos, para nosso entretenimento!"
Ploc!
O som do frasco de poção se espatifando no chão.
O que aconteceu?
Os três jogadores pararam, olhando perplexos para o frasco caído, esquecendo de atacar ou se defender.
O guerreiro caiu logo em seguida.
Os dois restantes perceberam tarde demais; já tinham perdido a chance de fugir. Nem precisou Laifu atacar; o leão, em três golpes, acabou com eles.
Laifu nem percebeu que, com um gesto simples, destruiu as convicções dos três jovens.
Quando o guerreiro foi beber a poção, Laifu, sem pensar, desferiu uma patada — mirando no frasco, que caiu e se quebrou.
O Leão Amarelo não desprezou Laifu por sua menor força e defesa.
Pelo contrário, olhava para ele com admiração, e mesmo com sua inteligência limitada, percebeu como venceram a luta. A cena de Laifu derrubando a poção ficou gravada em sua mente.
— Vamos logo, pegue as coisas e vamos embora! — Laifu foi ver o que os cinco jogadores tinham deixado para trás.
Dois só largaram materiais inúteis — para evitar perder itens valiosos ao morrer, muitos jogadores enchem as mochilas com lixo, assim diminuem a chance de cair algo importante.
Os outros três, entretanto, deixaram equipamentos.
Equipamento verde... já estavam no nível vinte e cinco e ainda usavam isso? Laifu nem hesitou em descartar.
Equipamento azul, com atributos razoáveis, mas pior que o seu. Guardou na mochila.
Por fim, um azul de ótimos atributos, perfeito para substituir um item de Su Mo. Colocou feliz na mochila.
Dividir com o leão? O equipamento verde era inútil mesmo.
O Leão Amarelo não ligava para isso. Pegou a caixa da carroça, jogou nas costas e seguiu em frente.
Ali, com tanta gente passando, não era hora de dividir o saque. Se encontrassem jogadores solidários, poderiam se dar mal.
Laifu ficou curioso com o conteúdo da caixa.
Se fossem moedas de ouro, tudo bem, pois não ocupavam espaço na mochila. Mas se fosse cheia de equipamentos de prata ou ouro, como guardar, com tão pouco espaço? E o leão disse que metade era dele.
— Irmão, está preocupado? Você está com uma cara de quem carrega o mundo — de volta ao esconderijo, o Leão Amarelo pôs a caixa no chão e perguntou curioso.
— Hã? — Não podia dizer que estava preocupado em esconder o saque. — Só estou pensando, irmão, agora que sabem que você não fica parado num ponto, da próxima vez não será tão fácil.
— Não se preocupe. Hoje aprendi contigo a interromper habilidades. Seja curar ou beber poção, sempre há chance de eu atrapalhar, hahaha!
Su Mo ficou realmente calado. Já previa quão sangrenta seria a escolta na Montanha dos Leões.
Primeiro, porque a posição do Leão Amarelo ficou imprevisível. Segundo, o monstro aprendeu a interromper habilidades. Se antes a dificuldade era D-, agora, no mínimo, C+.
Um sentimento de culpa profundo o dominou.